Mostrar mensagens com a etiqueta Violência. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Violência. Mostrar todas as mensagens

Amar em tempos de guerra

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

«Vós, que surgireis do marasmo em que perecemos, lembrai-vos também, quando falardes das nossas fraquezas, lembrai-vos dos tempos sombrios de que pudestes escapar. Íamos, com efeito, mudando mais frequentemente de país do que de sapatos, através das lutas de classes, desesperados, quando havia só injustiça e nenhuma indignação. E, contudo, sabemos que também o ódio contra a baixeza endurece a voz. Ah, os que quisemos preparar terreno para a bondade não pudemos ser bons. Vós, porém, quando chegar o momento em que o homem seja bom para o homem, lembrai-vos de nós com indulgência.»

O ódio que nos impõem

Não sei quanta dor terá suportado Bertolt Brecht para arrancar da sementeira poética este apelo à compreensão das gerações futuras. Entre a engenharia memorialista, a cultura burguesa entretém-se a ocultar mensagens ou objectos para que num tempo que eles querem que não seja muito diferente deste sejam exaltados os valores do capitalismo. Se, entretanto, o céu for tomado de assalto, quando destaparem a miséria em que nos mergulharam durante séculos, toda a quinquilharia desenterrada ajudará a compreender o desabafo do poeta.

Toda a violência foi-nos imposta pelos que desde sempre nos esmagaram. A que usaram para nos oprimir e a que usámos para nos libertar. A desigualdade é a parteira da violência. É tão simples que, em 1965, um padre colombiano dirigiu-se ao povo através dos ecrãs e simplificou a questão: «Devemos perguntar à oligarquia como é que vai ceder o poder. Se o vai ceder de forma pacífica, tomamo-lo de forma pacífica. Mas se ela o fizer de forma violenta então vamos tomá-lo de forma violenta». E se há país onde se aprende rapidamente que os direitos não se mendigam é na Colômbia.

Violência e tortura policial - quando os sinos tocam

quinta-feira, 13 de março de 2014

Chamemos-lhe Duarte. Vive num bairro pobre de Lisboa. Duarte está desempregado há vários anos. Tem 20 anos e não tem qualquer subsídio ou protecção social. A mãe trabalha sete dias por semana, a limpar casas, de uma ponta à outra da cidade. Tem uma irmã pequena que adora. O pai, não me recordo o que faz.

A mãe dele conta-me que todas as semanas há rusgas no bairro. Muitas vezes atrasa-se porque a polícia entra nos prédios e não deixa sair de casa.
O Duarte cresceu a repetir aos pais que «a polícia e a justiça servem para nos proteger».
Sexta à noite saiu com os amigos e foi até ao Bairro Alto. Beberam uns copos e um deles meteu-se com uma miúda.

A violência de que poucos falam

segunda-feira, 30 de dezembro de 2013


Da sondagem encomendada pelo jornal i à empresa Pitagórica, ficamos sem saber se 30,6% dos que responderam que concordavam com haver risco de violência caso Passos Coelho e Cavaco Silva não se demitam o fizeram porque acham que a situação em que vivemos é insustentável. Mas também não podemos chegar à abusiva conclusão do diário quando afirma que a maioria não teme violência nas ruas porque, de facto, a questão não se prendia com temeridade mas com o risco, ou seja, com a probabilidade disso acontecer. Contudo, parece claro que os portugueses temem mais a violência do governo do que a tão propalada violência nas ruas. O que nos faz sofrer não é a dor antecipada das imagens dantescas que nos tentam impingir quando falam de desordem social. O que nos faz doer a pele são as agressões despudoradas de um governo que mais não é do que a linha avançada de uma força comandada pelos grandes grupos económicos e financeiros que têm o FMI e a União Europeia como general. Que abram as portas das redacções a quem perdeu o trabalho para que possam descrever ao país a violência diária com que se deparam. Que tragam os sem-abrigo, os reformados que sofreram cortes nas pensões, os trabalhadores à mingua com o roubo de parte dos subsídios, os doentes oncológicos a que não deixam sequer o direito à dignidade ante a morte, os que pensam diariamente no suicídio como saída para o sofrimento. E então verão que, como disse Bertolt Brecht, "do rio que tudo arrasta todos dizem violento mas não das margens que o comprimem".