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Apocalipse: RTP

terça-feira, 24 de janeiro de 2017

Acabo de assistir a «O Demónio», o primeiro episódio da mini-série «Apocalipse: Estaline». Durante uma hora, Isabelle Clarke dedica o seu «documentário» a convencer-nos de que Estaline foi o que o título diz: um demónio. Veja-se: «Lénine e um punhado de homens lançaram a Rússia no caos. (...) Como os cavaleiros do Apocalipse, os bolcheviques semeiam morte e destruição para se manterem no poder. Continuarão durante 20 anos, até os alemães chegarem às portas de Moscovo». Estaline surge como um «louco», «sexualmente insaciável» e com uma «mentalidade próxima dos tiranos do Médio Oriente» [sic] que só Hitler pode parar. Num frenesim anacrónico, o espectador é levado de «facto» em «facto» sem direito a perguntas nem a explicações. Para trás e para a frente, dos anos quarenta para o final do século XIX, de 10 milhões de mortos na guerra civil russa para 5 milhões de mortos no «holodomor: a fome organizada por Estaline», o puzzle está feito para ser impossível de montar. Ao narrador basta descrever o que, a julgar pelas imagens de arquivo, é aparentemente indesmentível: «os camponeses ucranianos, vítimas das fomes estalinistas abençoam os invasores alemães. Mais tarde serão enforcados pelos estalinistas. As conjugação das imagens de arquivo colorizadas é tão brutal e convincente que somos tentados a concordar com as palavras do narrador: «Estaline declarou guerra ao seu próprio povo». São os «factos alternativos» de Trump aplicados à História.

Ficção e realidade, quem ultrapassa quem?

terça-feira, 22 de julho de 2014

ATENÇÃO: vou tentar que não, mas a dada altura deste texto podem aparecer spoilers ou pelo menos algumas pistas sobre o enredo da série "House of Cards". Depois não digam que não avisei.

Esta coisa de ver séries tem um problema, quando se acaba uma é preciso arranjar outra que tape o buraco. O buraco que ficou com a última nunca desaparecerá totalmente, porque a última foi a "The Wire", do David Simon. Provavelmente a melhor série de sempre. Em todo o caso escolheu-se, e a escolha recaiu em "House of Cards", a revisitação que Beau Willimon criou a partir da série inglesa, de 1990, ambas inspiradas no livro de Michael Dobbs, um ex-chefe de gabinete do Partido Conservador inglês.

E escolheu-se bem, está a ser doloroso e deprimente, mas escolheu-se bem. Doloroso e deprimente porquê? Afinal, é só ficção. Pois, só que esta história, mais do que outras, cria o seu enredo através de uma realidade totalmente verosímil. E é essa aproximação vertiginosa ao real que assusta e que pode tornar o mais fervoroso optimista num céptico e obsessivo pessimista.