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Apocalipse: RTP

terça-feira, 24 de janeiro de 2017

Acabo de assistir a «O Demónio», o primeiro episódio da mini-série «Apocalipse: Estaline». Durante uma hora, Isabelle Clarke dedica o seu «documentário» a convencer-nos de que Estaline foi o que o título diz: um demónio. Veja-se: «Lénine e um punhado de homens lançaram a Rússia no caos. (...) Como os cavaleiros do Apocalipse, os bolcheviques semeiam morte e destruição para se manterem no poder. Continuarão durante 20 anos, até os alemães chegarem às portas de Moscovo». Estaline surge como um «louco», «sexualmente insaciável» e com uma «mentalidade próxima dos tiranos do Médio Oriente» [sic] que só Hitler pode parar. Num frenesim anacrónico, o espectador é levado de «facto» em «facto» sem direito a perguntas nem a explicações. Para trás e para a frente, dos anos quarenta para o final do século XIX, de 10 milhões de mortos na guerra civil russa para 5 milhões de mortos no «holodomor: a fome organizada por Estaline», o puzzle está feito para ser impossível de montar. Ao narrador basta descrever o que, a julgar pelas imagens de arquivo, é aparentemente indesmentível: «os camponeses ucranianos, vítimas das fomes estalinistas abençoam os invasores alemães. Mais tarde serão enforcados pelos estalinistas. As conjugação das imagens de arquivo colorizadas é tão brutal e convincente que somos tentados a concordar com as palavras do narrador: «Estaline declarou guerra ao seu próprio povo». São os «factos alternativos» de Trump aplicados à História.

Longos Corredores

quarta-feira, 30 de abril de 2014

Comecemos pelas boas notícias! Jorge Coelho aparenta boa saúde e ainda afecta o estilo que lhe é característico: algo espontâneo, um pouco inflamado, muito trauliteiro e olimpicamente bronco. É bom saber! Porque Jorge Coelho esteve tanto tempo longe das luzes da ribalta que começámos a nos perguntar se não lhe teria acontecido alguma coisa... O que nunca esperaria do desaparecido dirigente do PS que quatro vezes foi ministro, é que usasse a homenagem aos antigos presidentes Federação da Área Urbana de Lisboa do PS para cometer um atentado contra a História e a inteligência de todos nós. Discursando sobre o 25 de Abril, Jorge Coelho declarou, perante a incendiada ovação de José Seguro, Ferro Rodrigues, João Soares, João Proença, Edite Estrela e Joaquim Raposo, que (pasmem-se!) «Foi o Partido Socialista que liderou a luta pela liberdade antes do 25 de Abril». Sim, ele disse mesmo isto. E mais! Foi o PS que, depois de nos dar o 25 de Abril «evitou que Portugal caísse noutro regime totalitário», lembrando ainda, jocoso, uma entrevista de Álvaro Cunhal em que este dizia que não queria uma «democracia burguesa». «Não há democracias burguesas!» concluiu Coelho.

Longos corredores em trevas percorremos (...) é assim que começa uma canção que o meu pai, um ex-preso político do PCP, costumava cantar. Por mais que Jorge Coelho berre, não poderá falsificar a história: o PS não liderou ninguém para liberdade nenhuma. Os seus militantes não tiveram as unhas arrancadas nem as pernas inchadas de sangue durante a estátua. Os seus dirigentes não morreram no campo de concentração do Tarrafal. E a sua organização não suportou nem conheceu ditadura nenhuma.