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Espanha é uma estaca

segunda-feira, 16 de outubro de 2017

Conta o rei Juan Carlos que, dias antes de morrer, Franco o mandou chamar e lhe disse: «majestade, peço-lhe apenas que preserve a unidade de Espanha». Eis os dois nós que aguentavam todas as cordas da promessa de que deixava «tudo atado e bem atado». Desde a guerra de 36, as cordas da unidade de Espanha e da monarquia seguram o fascismo e o capitalismo.

Não surpreende portanto que quando democratas e fascistas se sentaram a mesa para negociar como seria a «transição», a unidade de Espanha e a monarquia tenham ficado constitucionalmente blindadas contra a democracia. A Constituição de 1978 não admite nenhum caminho democrático para a auto-determinação nem para a república.

Em catalão, diz-se llibertat

terça-feira, 3 de outubro de 2017

"A polícia espanhola chegou". Imediatamente, uma muralha de mulheres e homens dispõe-se para impedir que levem as urnas. Depois de uma violenta carga policial, as forças da repressão conseguem invadir a assembleia de voto de Sant Iscle. Quando entram no Casal de la Gent Gran deparam-se com um cenário que não esperavam. Dezenas de pessoas jogam dominó como se fosse um dia normal e continuam a fazê-lo entre cassetetes, escudos e capacetes. Não há urnas. Não as encontram em parte alguma e decidem partir. Os jogadores de dominó abraçam-se. Os habitantes de Sant Iscle abraçam-se. Meia hora antes, alguns deles haviam fugido com as urnas e os votos por uma porta secreta e esconderam-nos num nicho do cemitério. Depois, trouxeram todo o material de volta e o resto da população pôde votar. Pois é. Nenhuma brutalidade policial e nenhum Estado repressivo podem esmagar a vontade de um povo que decidiu o seu caminho.

Rayo digno [actualizado com um post-scriptum]

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

O barulho das luzes, o som dos euros em movimento e a doentia fixação das massas adeptas nos resultados das suas equipas, que lhes garantem periódico consolo para vidas de trabalho trucidadas pela desigualdade e pela exploração capitalista, impedem muitos de compreender que as "SAD" nasceram do seio dos clubes, e que os clubes nasceram no seio de comunidades, representando digníssimas formas de associativismo popular que se foram modificando e, de certa forma, corrompendo ao longo do tempo. É por isso com comoção que de tempos a tempos dou de caras com actos de profunda dignidade e regresso aos valores fundamentais dos emblemas, entretanto transfigurados em "marcas" e, nalguns casos, sociedades cotadas em bolsa.

O Rayo Vallecano é um pequeno clube madrileno, emblema maior do bairro de Vallecas, baluarte durante longos anos da orgulhosa classe operária da capital espanhola. Enfrentando as dificuldades reservadas aos pequenos clubes sediados em cidades onde gigantes comerciais e financeiros absorvem atenções, recursos e favores, o Rayo acabou por ser vendido em 2011 a um empresário que capturou, beneficiando das circunstâncias do emblema de Vallecas, a quase totalidade das suas acções. Acontece que, contrariamente ao que muitos previram, o Rayo não perdeu identidade. O povo de Vallecas tem resistido duramente a sucessivas tentativas de transformação do Rayo - a alteração do emblema do clube foi um dos exemplos mais simbólicos e significativos -, não deixando de manifestar permanentemente as suas posições sobre a vida da equipa de futebol profissional. É o que acontece nos dias que passam relativamente à contratação (por empréstimo) do ucraniano Roman Zozulya.