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Na encruzilhada da paz

quinta-feira, 30 de março de 2017

Cerca de 19 dias foi quanto tardaram os cerca de sete mil guerrilheiros das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia – Exército do Povo (FARC-EP) a percorrer a pé, em veículos e embarcações os 8700 quilómetros que os separavam das 26 zonas de transição acordadas com o governo colombiano. Um formigueiro de mulheres e homens que abandonaram a selva profunda e desceram das montanhas para uma das mais difíceis batalhas da história da mais antiga e maior guerrilha da América Latina. Depois de 53 anos de conflito, as FARC estão decididas a entregar as armas e a construir ao lado da população uma Colômbia de paz e justiça social.

La Guajira, o inferno colombiano

A estrada que separa Valledupar de Fonseca, o município onde se encontra o acampamento das FARC de Pondores, é o espelho dos contrastes da região de La Guajira. Um dos passageiros que se atreve a entoar algumas das letras mais conhecidas de vallenato entre os solavancos da camioneta queixa-se do avançado estado de degradação do piso e não compreende para onde vai o dinheiro cobrado pelos portageiros numa das zonas mais pobres da Colômbia. Depois de sucessivos postos de controlo do exército, surge uma ciclovia e uma pista de jogging de intermináveis quilómetros num departamento nas mãos da corrupção. Nos últimos dez anos, nenhum governador chegou ao fim do mandato e três encontram-se presos por desvio de dinheiro e favorecimento.

Catorze anos sem Joe Strummer

quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

Escrevi-o há quatro anos e creio que continua actual. Há 14 anos, um ataque cardíaco roubou-nos a mais emblemática figura do punk. Quando Joe Strummer foi encontrado sem vida, poucos meses depois de cumprir 50 anos, houve quem arriscasse que havia sido vítima de overdose. Para os que não seguem este género musical, ele é sinónimo daquele niilismo violento que tem a destruição da sociedade como meta. Por isso, a imagem de Joe Strummer derrotado pela dependência seria a consequência lógica de um adereço com que se gosta de vestir o punk. Contudo, o vocalista dos The Clash foi um dos protagonistas do resgate político que vários grupos encetaram para derrubar os muros que separavam os jovens punks da capacidade de sonhar. O mérito de Joe Strummer foi o de dar sentido à violência anti-sistema como resposta a problemas sociais e com a visão de um futuro melhor. Os palcos onde tocavam os The Clash não eram mais do que a continuação da revolta por outros meios. Isto nos tempos de Margaret Thatcher.

Nem uma menos

quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

A revolta invadiu o bairro Bosque Calderón, uma das zonas mais pobres de Bogotá, onde vivia Yuliana Samboní. Esta menina colombiana de sete anos foi raptada por um abastado arquitecto. Depois, Rafael Uribe Noguera torturou-a, violou-a e matou-a. Há quatro anos, também na capital colombiana, Rosa Elvira Cely havia sido brutalmente violada num parque por dois homens. Morreu quatro dias depois nas urgências do hospital com os órgãos internos destruídos pelos ramos de árvore que usaram para a violar.

«Esta ciudad es la propriedad del Señor Matanza» cantavam os Mano Negra nos anos mais duros da guerra que regou de sangue as montanhas e cidades da Colômbia. Desde que em 1949 a oligarquia decidiu assassinar o candidato presidencial Jorge Eliecer Gaitán, os trabalhadores e o povo levantaram-se em armas. Primeiro como vingança, depois como forma de resistência. Desse processo nasceram as diferentes guerrilhas que deram voz aos condenados daquela terra.