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Os lugares onde Marcelo não vai

segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

O dom de Marcelo é ir a todo o lado sem nunca estar em lado nenhum. Omnipresente na comunicação social, falta à chamada sempre que o interesse nacional coincide com os interesses da classe trabalhadora. Onde está Marcelo quando as populações se batem pelos correios do povo? Porque não dá os seus «afectos» às quase 500 trabalhadoras da Gramax? Meio milhar de operárias com meses de salário em atraso defendem a dignidade e os postos de trabalho de um processo fraudulento de insolvência. Quando, em piquetes de 24 horas, à chuva e ao frio, desafiando a fome, a incerteza e muitos dramas familiares, as operárias da antiga Triumph impedem o roubo da maquinaria estão também a impedir a destruição do aparelho produtivo português. Porque será que Marcelo, sempre tão palavroso sobre moda, jogos de futebol, restaurantes e exercício físico, nada tem a dizer sobre esta matéria? Porque será que o Presidente, incansável na sua digressão afectiva, não vai a Sacavém?

O mui ferido orgulho nacional

segunda-feira, 20 de novembro de 2017

Vós, que vos indignais pelas pedras ofendidas do Panteão Nacional e que me ledes com o orgulho, também ele nacional, ferido de morte porque vos profanaram a Bandeira Nacional num tapete de hotel, respirai fundo. O que me diríeis se soubésseis que a dignidade nacional de 500 mil crianças nacionais é diariamente desrespeitada? São 500 mil crianças a viver numa pobreza mais abjecta para a Nação do que mil tapetes de hotéis do Porto a que os ímpios apólidas limpam a merda dos sapatos.

Mas não é tudo, ilustres compatriotas: mesmo enquanto me ledes, os nossos egrégios avós, desesperados de dores, pulseira amarela, com sorte vermelha, atravancam os corredores dos serviços de urgência deitados em macas (porque não há camas), nove horas à espera (porque não há médicos), a pagar a taxinha moderadora à saída (se a família não os deixar lá).

O discreto Caracazo haitiano*

sexta-feira, 3 de novembro de 2017

Dois meses. A revolta do povo haitiano estalou há dois meses e na comunicação social da classe dominante nem uma notícia. Talvez o critério editorial seja uma escala tanatológica de um para mil em que, para o Haiti ser notícia, é necessário mil haitianos mortos por cada morto estado-unidense. Mas hoje não há terramotos no Haiti e os rodapés dos telejornais voltarão a desfilar fait divers sobre celebridades, futebol, curiosidades avulsas, a grande questão nacional Santana versus Rio e um restaurante em Manchester que dá os restos aos pobres.

Entretanto, por todo o Haiti, o povo desafia nas ruas a proibição de manifestações contra o regime cleptocrata de Jovenel Moïse. O movimento que começou, em Setembro, quando foi apresentado o orçamento do Estado, como um protesto contra o aumento dos impostos e taxas sobre o trabalho transformou-se em mobilização nacional contra a doutrina neo-liberal, clamor pela soberania e exigência de demissão do governo de Moïse.