A poesia que arde

quinta-feira, 15 de junho de 2017

Agora que a poesia não alimenta escaparates e se esconde nas velhas estantes dos alfarrabistas onde se refugiam também os livros daquelas revoluções de que falam os nossos pais talvez seja tempo de alumiar a madrugada. No tempo em que a verdade se vestia de sombras, Bertolt Brecht disparava sem medo demonstrando que às vezes a poesia é de facto uma arma. O dramaturgo e poeta comunista alemão escreveu que a «arte não é um espelho para reflectir a realidade mas antes um martelo para dar-lhe forma».

Os mesmos que queimaram o Reichstag, em 1933, pegaram fogo aos seus livros numa iniciativa pública. E às vezes os versos acertam no futuro como a melhor das balas. «Então, de que serve dizer a verdade sobre o fascismo que se condena se não se diz nada contra o capitalismo que o origina?», perguntou o autor de A Ópera dos Três Vinténs. Depois da derrota do nazi-fascismo, as autoridades da República Federal da Alemanha trataram de lhe responder proibindo-lhe a entrada no seu próprio país.

Mas se a poesia não é mais do que gatafunhar meia dúzia de palavras por que foi objecto da mais violenta das perseguições? Quando a poesia era apenas outro nome para coragem, houve mulheres e homens que deram voz aos que semeavam o futuro. Viver tempos em que é fácil opinar sobre o passado sem se ter a coragem de estar do lado certo no presente deve fazer-nos odiar os muros em que outros se sentam à espera de saltar para o lado do vencedor.

Pablo Neruda atravessou clandestinamente a cordilheira andina para fugir às autoridades chilenas quando podia ter escolhido o caminho mais fácil. Miguel Hernández escreveu a Josefina Manresa da masmorra franquista onde viria a morrer: «Tu risa me hace libre,/me pone alas./Soledades me quita,/cárcel me arranca». Em papel higiénico, o poeta comunista de Orihuela escreveu alguns dos contos que quis deixar ao seu filho.

Quem tampouco escolheu ficar em cima do muro foi Nazim Hikmet. Ancara, que todavia renega Nazim Hikmet, fez o favor de lhe dar a conhecer várias prisões. Entre viagens clandestinas e fugas espectaculares, alguns dos mais conhecidos poemas do mais importante escritor turco do século XX tiveram as grades do cárcere como companhia. E o que dizer de Joseba Sarrionandia, preso político que se escapou da prisão dentro de um amplificador e que viveu escondido em Cuba durante mais de três décadas? «Cada coisa com a sua dificuldade,/às vezes dar um beijo é mais difícil/que pôr uma bomba no quartel-general do inimigo», escreveu o independentista basco.

A prova de que a poesia às vezes é mais combustível do que a gasolina são os versos que correram de boca em boca entre camponeses analfabetos nas zonas mais pobres da Nicarágua quando já a injustiça tremia ante o passo dos combatentes sandinistas. O analfabetismo nem sempre é uma fortaleza indestrutível. Do mesmo lado das Caraíbas, em El Salvador, o poeta e guerrilheiro Roque Dalton dava corpo às balas e afirmava que «o comunismo será, entre outras coisas,/uma aspirina do tamanho do sol». E durante a longa noite de pedra franquista, o poeta galego Celso Emilio Ferreiro cantou a liberdade sonhada na língua que nos é comum, que há séculos dá voz aos oprimidos de ambos os lados da fronteira.

«Nós queríamos libremente
comer o pan de cada día. Libremente
mordelo, masticalo, dixerilo sin medo,
libremente falando, cantando nas orelas
dos ríos que camiñam para o mar libre.
Libremente, libremente
nós queríamos somente
ser libremente homes, ser estrelas,
ser faíscas da grande fogueira do mundo,
ser formigas, paxaros, miniños».

O comunista português Ary dos Santos semeou versos na barriga do «mais infeliz dos povos à beira-terra» que um dia voltará a abrir as portas que Abril abriu também para que o lugar da poesia incendiária não sejam as poeirentas caves em que se encontram mas nessa luta «onde não seja permitido respirar» e «onde nasça o silêncio» para ouvir «os passos do tirano que parte» de que falava a nicaraguense Gioconda Belli. No tempo da pós-verdade só há lugar para a mentira. Se o que arde cura e se a poesia dói porque arde, que falta nos faz o incêndio.

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