A escolha de Hobson

quinta-feira, 4 de maio de 2017

O capitalismo reduz a democracia a um debate entre Macron e Le Pen, entre Merkel e Le Pen, entre Macron e Schäuble, entre um corte salarial ou o desemprego, entre levar um murro no estômago ou um pontapé na cara, entre o neo-liberalismo e o fascismo.

O derradeiro debate antes da segunda volta das eleições presidenciais em França foi o último acto de uma farsa grotesca: Macron, que alguns queriam que fosse a alternativa ao fascismo, assumiu-se como o banqueiro que é e cantou loas à austeridade e à destruição das funções sociais do Estado; já Le Pen, não precisou de se assumir como a fascista que é: bastou-lhe recordar os franceses de que duas décadas a evitar a Frente Nacional votando no neo-liberalismo foram duas décadas a ir de mal para pior.

A estratégia de votar à direita (seja ela qual for) para evitar a extrema-direita tem sido o passaporte da Frente Nacional para o poder, o que pode acontecer já nestas presidenciais ou nas próximas legislativas. De eleição para eleição, à medida que o mal menor é cada vez pior, o mal maior vai parecendo menos mau do que parecia há 20, 70 anos.

E se não for desta que o fascismo ganha, que hipócrita se poderá espantar quando, em 2022, uma França exausta de viver cada vez pior decida não votar no próximo Macron? É que a responsabilidade por essa tragédia estará bem distribuída entre todos os que mantêm a lata de, uma e outra vez, apelar a que se escolha o murro no estômago para evitar o pontapé na cara. Como Hillary Clinton não pôde travar Trump, é uma questão de tempo até um Macron não conseguir travar esta ou outra Le Pen.

A tarefa histórica dos que verdadeiramente querem evitar o fascismo é recusar intransigentemente aquilo a que os ingleses chamam uma «escolha de Hobson»: a liberdade de escolher algo mau para evitar algo equivalentemente tão mau que, no fundo, não há escolha coisíssima nenhuma. A democracia não se salva travestindo-a de «escolha de Hobson» e o fascismo só se trava com uma alternativa que, para ser credível, não pode ser patrocinadora dos mesmos governantes de sempre e já sem qualquer credibilidade. Em França, a luta dos trabalhadores é a terceira volta. Os seus interesses não cabem nas urnas da segunda.

3 comentários:

  1. Sem reformas o Estado Social e as Conquistas vão pelo cano.
    Tão simples e tão falsamente ignorado.
    É claro que o socialismo...blá, blá...é o melhor dos sistemas para os camaradas dirigentes.

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  2. "O Fascismo Global, raivosamente elitista e supremacista, utiliza (supostos ou reais) fascistas menores (desde Trump até à Aurora Dourada, passando pela FN) como cortinas de fumo e bodes expiatórios." http://investigandoonovoimperialismo.blogs.sapo.pt/le-pen-macron-e-o-fascismo-global-63852

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