Se Trump atacar a Coreia do Norte, de que lado estás?

domingo, 5 de março de 2017

Para quem ainda não tenha reparado nas gaivotas em terra, vivemos o início da mais profunda crise do capitalismo em um século. Não sei se será a última, mas será certamente a pior. Os sintomas mais óbvios são os sinais exteriores da nossa decadência moral, cultural e política. Não é preciso ser marxista para entender que há aqui algo novo.

Um exemplo pessoal: há poucos anos trabalhava na redacção de um jornal em que me pediam para publicar uma notícia a cada 20 minutos. Quando fiz notar ao meu director que esse tempo não bastava para conhecer a realidade, verificar a informação, contrastar fontes, ler, pensar e escrever uma peça com cabeça tronco e membros, ele, um jornalista conhecido das televisões com décadas de experiência, riu-se: «Essa merda era há cinquenta anos!». Afinal, o meu trabalho era roubar notícias às agências e às redes sociais, dar uma volta ao texto para que não se notasse a origem (citar a Lusa custa dinheiro) e inventar títulos provocadores de cliques. Não durei muito tempo no posto, mas percebi que aquele director, ao contrário de mim, entendia o espírito da época.

A famigerada crise do jornalismo é somente o arrasto de outra grande crise: da mesma forma que a comunicação social é arrastada pela rapidez da Internet, pelo algoritmo do Facebook ou pela impaciência dos accionistas, também a obscenidade de Trump e a desumanidade com que a União Europeia trata os refugiados são o efeito de arrasto de algo maior. Algo mais profundo. Da mesma forma que, 500 anos antes de o Império Romano desabar, já era notória a sua decadência artística e moral, também nós nos devemos questionar com intrépida insistência o que sucederia se amanhã chegassem os Hunos.
Estamos em 2017 e a Lena das Cartas vende conselhos jurídicos, consultas de psicologia e poções mágicas contra todas as maleitas aos idosos que queiram marcar o 760 760 760

A nossa cultura caminha a passos largos para uma barbárie a que somos cada vez mais insensíveis. Estamos em 2017 e a Lena das Cartas vende conselhos jurídicos, consultas de psicologia e poções mágicas contra todas as maleitas aos idosos que queiram marcar o 760 760 760. Estamos em 2017 e o PSD e o CDS-PP juram estar preocupados com os baixos salários, a precariedade e o valor das rendas das casas. Estamos em 2017 e alguém acaba de partilhar, com dolorosa credulidade, uma notícia sobre um indiano que, bebendo só água, viveu até aos 265 anos. Estamos em 2017 e um patrão pode despedir um trabalhador só porque sim, só porque não. Estamos em 2017 e um deputado ao Parlamento Europeu acaba de defender que as mulheres devem ganhar menos do que os homens. Estamos em 2017 e o Canal História está e emitir um documentário sobre a ligação dos nazis aos extraterrestres. Estamos em 2017 e há sacos-cama a 2000 euros em Fátima para celebrar a aparição de um fantasma com poderes mágicos. Estamos em 2017 e o imperialismo derruba Estados soberanos na Síria, na Ucrânia, na Líbia, nas Honduras, sem que ninguém saiba lá muito bem o que se passou mesmo. Estamos em 2017 e o nosso feed de Facebook está cheio de gatinhos. Estamos em 2017 e, apesar do desenvolvimento exponencial da produtividade do trabalho, da ciência e da tecnologia, o salário mínimo não chega a 600 euros.

Pergunto novamente: o que aconteceria se os Hunos chegassem amanhã? A decadência moral e política da nossa sociedade não revelam somente a fragilidade do sistema económico e político em que vivemos, são um testemunho vivo de que, quebrando-se os frágeis fios que sustentam a bizarria, regressamos facilmente a um estado de violência endémica, em que se mata um tipo por dá cá aquela palha. Rápida e implacavelmente, como a cegueira inexplicável que Saramago imaginou.

Nos EUA, vanguarda da cultura mundial e respectiva decadência, a chegada dos Hunos é, há muito tempo, um topos literário. Mas, ao contrário de Saramago, a obsessão contemporânea com o fim do mundo, com o colapso da civilização e com a sobrevivência no estado de natureza, reveste-se de um carácter individualista, reaccionário e ultra-conservador. Séries de televisão como The Walking Dead, e reality shows como Os Últimos Habitantes do Alasca ou Aventura à Flor da Pele ilustram o fascínio popular pelo mais que inevitável fim do mundo com a ideia de um recomeço idílico: uma vida mais simples mas violenta; um mundo mais verdadeiro mas de dolorosos retrocessos civilizacionais.

Quem são os Hunos? A cada dia que passa, torna-se mais claro que a crise do capitalismo é tão profunda que qualquer espantalho pode fazer as vezes de Alarico. O capital não tem, pura e simplesmente, soluções novas para os velhos problemas. Resta-lhe, portanto, a velha receita: destruir a produção, aumentar a exploração e fazer a guerra. Num tempo em que as bombas nucleares nas mãos de Trump têm uma capacidade de destruição mil vezes superior às de Hiroxima e Nagasaki, é urgente que não acreditemos que o Império só vai ruir por causa dos Hunos. Não nos deixarmos manipular pela propaganda de guerra é o primeiro passo para evitar uma guerra de consequência imprevisíveis.

É urgente que todos nos comprometamos que, por mais ou menos que gostemos dos Hunos em questão, não admitiremos a guerra por quaisquer pretextos. Seja na Coreia do Norte, no Irão, na Bielorrússia, no Zimbábue, ou na Argélia, estaremos contra a guerra imperialista e do lado da resistência.

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