Depoimento de Marcelo à Comissão de Inquérito do PSD*

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

O que as pessoas mais me perguntam é se sou mesmo como na televisão. Pode escrever aí que sim. Costumo dizer que o que nasce torto não se endireita. Bom, tenho esta memória de estar a brincar na quinta com os filhos da criadagem e vem de lá o papá apavorado, a levar-me dali ao colo, como se me resgatasse do cativeiro de canibais africanos, a dar-me um raspanete dos antigos, «Marcelo Nuno, não volte a enxovalhar a família, cada macaco no seu galho, percebeu?», a sacudir-me uma sujidade invisível da camisa, a explicar-me que o meu nome não é por acaso, a repetir-me «Marcelo Nuno, não volte a enxovalhar a família, cada macaco no seu galho, percebeu?». E não percebi. Mas percebi outra coisa mais importante: há mais do que um tipo de poder neste mundo.

Imaginam o que vale para um pobre diabo que nem a quarta classe tem, chegar o filho do Sr. Ministro, afilhado do Marcelo Caetano que manda na Nação e nos pretos e que agarra no telefone e é «Sr. General, arranque-me as unhas de fulano» ou «Sr. Comandante, mande beltrano para o Tarrafal» olhar para baixo, com cândida bondade, e perguntar assim: «como é que está a pneumonia, Sr. José?». Eu, a pedir-lhes a eles, a gente a que só se pedem mordomias e limpezas, a gentileza de nos deixar brincar com o filho? Bom, claro que isto nos confere um poder diferente, no meu entender maior, que a chibatada e a ameaça. Mas oiça, escreva isto: não é teatro. É genuíno. Sempre foi. Íamos jogar bridge ao Estoril com os filhos dos Ulrich e os irmãos Mello, com condes, baronesas, milionários, latifundiários e os criados que a eles baixavam a cabeça, subjugados, a mim respeitavam, sorriam. É isso que me dá prazer, sentir-me um anjo descido à terra, condescendente, misericordioso, tão simples, tão humilde e tão bom, apesar de tão poderoso que as pessoas nem acreditam.

Bom, uns anos mais tarde mandavam os desgraçados pequeninos, que entretanto se fizeram desgraçados crescidos, matar pretos em África e eu, que sendo filho de quem era nem precisava de me incomodar com uma palavrinha lá no Ministério, fazia questão de ir às despedidas, tristíssimas, sem jeito nenhum, dar um abraço aos desgraçados. E eles lá iam matar pretos mais consolados, cheios de orgulho nacional e brio civilizador por terem abraçado o filho do ministro, o afilhado do Presidente do Conselho. Isto ainda você não era vivo! Acha mesmo que é agora o Conselho de Jurisdição Nacional do PSD que me vai ensinar a ficar quietinho no meu galho? Escreva isto: não me basta o meu galho, eu quero a árvore inteira.

Bom, só com grande falta de visão é que o PSD pode achar que não sirvo os interesses do partido. Quem vota no PSD são os pobres diabos. Muitos nunca se sentaram numa cadeira de dentista, você sabe lá os hálitos, não ponha aí isso. Ninguém dá nada por eles, tratam-nos a pontapé em todo o lado. Sempre em filas, com um ar muito amarfanhado para receber o subsídio, a pensão, a senha para qualquer porcaria, até que chega a comitiva… e eles pasmam. Pasmam! Ficam a ver o cortejo, as bandeirolas, a GNR, os cavalinhos… o pobre sempre gostou de cortejos, há séculos! E de repente saímos do carro e eles, já prontos para se desfazerem em vénias ou receberem da GNR uma paulada na cabeça por estarem demasiado perto, mas não, é para lhes dar um abraço, uma palmadinha nas costas, brincar às brincadeiras deles nos cabeleireiros muito possidónios, às tabernas com copos mal lavados. É que eu venho cá abaixo, sabe? Nem sempre é fácil… com os pobres sempre a falar muito alto, a babar pus de pústulas infectadas, a cuspir esses na conjugação dos verbos, sem saúde, sem trabalho, sem casa, sem nada a não ser o nosso muito merecido afecto. Merecido afecto. Ponha isso aí. Porque eu sei o que vale para aquela gente poder dizer que ao menos um dia abraçou o Presidente, ou poder mostrar uma fotografia comigo. E o PSD também devia saber.

Bom, ainda no outro dia, estava um frio de rachar, fui alimentar pobres. Deviam ter visto: eu a querer levá-los para o abrigo, como se leva um gatinho para o gatil, preocupado com o frio dos bichanos, e eles, valha-nos Deus, nem isso percebem. É preciso chamá-los com um ensopado sofrível (disse que estava óptimo) para se virem aquecer um bocadinho ao pé das câmaras. O PSD tem que entender uma coisa, se as pessoas não vão ter dinheiro para se aquecerem no Inverno, convém aconselhá-las a se aquecerem bem: «vista muitas camadas de roupa e proteja-se do frio!», compreende a lógica? Ou então acabamos todos numa salgalhada como em 74. Bom, é este o meu condão, dom e vocação: dar abrigo aos sem-abrigo para que não sejam gente a querer casas. Dar os restos dos restaurantes que podiam ir para o lixo com igual prejuízo aos pobrezinhos, para nunca sejam trabalhadores a querer dignidade. O meu lema é: todos os sem abrigo merecem um abrigo, todos os pobres merecem uma sopa, todos os portugueses merecem um abracinho. Enxergam a diferença? Tratam as pessoas a pontapé e elas andam para aí aos gritos a exigir habitação, direitos, trabalho e o diabo a sete quando no fundo bastava serem um bocadinho simpáticos e andavam os Zés e as Marias todos contentes, com abrigos, restos e abraços.

E a prova de que tenho razão é que saí limpinho do Estado Novo. E agora vêm uns miúdos, dizer-me, a mim, que estou a fazer o jogo da esquerda? Porque, ao contrário deles, tenho dois dedos de testa e sei construir o momento? A mim, que era criança e descobri que não me chamava «menino» no dia em que me começaram a tratar por «sua excelência». A mim, que aos doze anos jogava ténis com oficiais franquistas no chalé do Estoril e aos catorze brincava com a pistola que o Hitler deu ao duque de Windsor, que deu aos Espírito Santo? A mim, que ao longo da minha vida política só vos dei benesses, cortes salariais, isenções fiscais, privatizações, revisões constitucionais? A mim, que durante anos andei praticamente sozinho a preparar a presidência, a fazer a propaganda que o possidónio de Massamá (coitado, nisso é como os pobres) nunca teve jeitinho nenhum para fazer?

O Passos nunca poderá compreender isto. Esta liderança trata com o povo como o papá tratava com os pretos: acha que dando-se-lhes a mão a beijar e eles querem lambuzar o braço todo. Confundem afectos com bolchevismo. Mas logo a seguir ao 25 de Abril e foram todos para o chilindró ou para o exílio, era eu que ia fazer visitinhas aos Espírito Santo na prisão, era eu que andava a arriscar o couro, a pedir aos amigos estrangeiros para darem um jeitinho lá no banco, de embaixada em embaixada a diligenciar pelo futuro deles. E agora chamam-me esquerdista… A mim, que trocava cartinhas com o chefe da Nação para ver como se havia de fazer com os comunistas? A mim, que sou presidente vitalício da Casa de Bragança porque a direita charmosa é toda monárquica, só o possidónio de Massamá é que não percebe isto. A mim, que faço mais pela direita sozinho que PSD e CDS juntos, ou acham que quando quiserem fazer a revisão constitucional é ao Santana Lopes que vão pedir ajuda? Deixem-me rir. A mim, que passo a vida no meio de gente a tresandar a chulé para no final do dia vos promulgar o descontozinho da TSU? A mim, eleito com 50% dos votos de 50% dos portugueses? A mim, que se gozavam com a Santa Madre Igreja era eu que vinha logo pedir censuras, cabeças e flagelações? A mim, que em 69 não traí o Américo, Deus o tenha, quando foi de pregar um susto aos estudantes? Não escreva esta parte. A mim, que passava férias explêndidas com o Salgado no Brasil e tratava por tu a alta finança até eles começarem a fazer asneiras vistosas? A mim, que depois de dez anos com o Cavaco moribundo e comatoso dei mais uma presidência ao partido?

Os senhores da Comissão de Inquérito perguntem lá ao Conselho de Jurisdição, à Comissão Política, a quem quiserem: não querem partir a espinha aos sindicatos? Então ajudem-me a sarar as feridas sociais de tanta greve e tanta manifestação. Não querem privatizar a Saúde? Então parem de fazer cara de mau e venham vender rifas comigo para ajudar os leprosos. Não querem baixar os salários? Então preparem-se para se sujarem, que os afectos trazem piolhos. Não escreva isso, escreva antes isto: esbanjem nos afectos e poupem nos salários.

Atentamente,
Marcelo Rebelo de Sousa
Militante n.28051928 do PPD-PSD

*Este texto é improvavelmente fictício

5 comentários:

  1. Estupendo! Uma forma de escrever influenciada pelo António Lobo Antunes, tão bom! E é mesmo isso, este gajo é um exemplar do mais perigoso que há: o filho-da-puta simpático, agradável, suave! Tipo Obama,,,

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  2. Caramba... custa a acreditar depois de ouvir alguns alienígenas na AR e nos noticiários que esta brisa alguma vez os toque! A existência humana acontece no equilíbrio do gume de uma afiada e perigosa lamina onde ora se corta ou se tomba para um ou outro lado. Não podemos ser outra coisa além do que determina a Magna Mater e ainda menos prevê-la... Como Sísifo, tentar, sempre, sempre, sempre.

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