Catorze anos sem Joe Strummer

quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

Escrevi-o há quatro anos e creio que continua actual. Há 14 anos, um ataque cardíaco roubou-nos a mais emblemática figura do punk. Quando Joe Strummer foi encontrado sem vida, poucos meses depois de cumprir 50 anos, houve quem arriscasse que havia sido vítima de overdose. Para os que não seguem este género musical, ele é sinónimo daquele niilismo violento que tem a destruição da sociedade como meta. Por isso, a imagem de Joe Strummer derrotado pela dependência seria a consequência lógica de um adereço com que se gosta de vestir o punk. Contudo, o vocalista dos The Clash foi um dos protagonistas do resgate político que vários grupos encetaram para derrubar os muros que separavam os jovens punks da capacidade de sonhar. O mérito de Joe Strummer foi o de dar sentido à violência anti-sistema como resposta a problemas sociais e com a visão de um futuro melhor. Os palcos onde tocavam os The Clash não eram mais do que a continuação da revolta por outros meios. Isto nos tempos de Margaret Thatcher.

O fenómeno teve repercussão mundial. Dos subúrbios de Londres às montanhas da Nicarágua e dos confrontos no País Basco aos guetos norte-americanos, ninguém ficou indiferente à mensagem dos The Clash. A única vez que tocaram em Lisboa foi, em 1981, depois dos Táxi, no Dramático, em Cascais. Estavam dez mil pessoas e, por esses dias, o álbum Sandinista andava pelos tops das rádios portuguesas. O jornalista António Duarte foi, dias depois, ao País Basco, entrevistá-los em Donostia. À revista Sete, Joe Strummer assumiu o direito da ETA de lutar pela independência, criticou severamente as Brigadas Vermelhas e revelou-se simpatizante do IRA. Perante a grave situação de Bobby Sands, em greve de fome, responde que o governo britânico é constituído por fascistas. Horas depois, morre o comandante do IRA na prisão de Maze.

As letras dos The Clash revelaram-se hinos autênticos de uma juventude amordaçada. Cantaram aos trabalhadores, aos imigrantes, aos que lutavam contra o fascismo e o imperialismo. De facto, o grupo de Joe, Mick Jones, Paul Simonon e ‘Topper’ não durou muito. Mas os dez anos de actividade dos The Clash foram o suficiente para incendiar um rastilho que ainda hoje perdura. Não são poucos os músicos que assumem as influências que Joe Strummer deixou. Billy Bragg destaca Joe como o “motor político dos The Clash”. Bono Vox define o grupo inglês como a “mais importante banda de rock and roll” e como o “guia dos U2”. Outros, como Manic Street Preachers, Green Day, Public Enemy, Fatboy Slim, John Squire, afirmaram a sua orfandade ante a morte de Joe Strummer.

O próprio Joe, que era filho de um diplomata, motivo que o levou a nascer em Ancara, assumia que havia sido, principalmente, Woody Guthrie a empurrá-lo para a música. Quando a notícia da sua morte irrompeu nos telejornais, soube-se que estava a preparar um concerto, na África do Sul, em homenagem a Nelson Mandela. Na calha estava também o terceiro álbum dos The Mescaleros. Depois do fim dos The Clash, Joe fizera parte dos The Latino Rockabilly War e cantou ao lado dos míticos The Pogues. Hoje, 14 anos depois da morte de Joe Strummer, a herança musical que persiste é bem maior do que tudo o que criou. Não é a linha dos Sex Pistols que predomina. Porque o punk já não é apenas dos que só querem a destruição desta sociedade. Dos que dizem não haver futuro. É, principalmente, de todos os que preferem puxar o gatilho a render-se de mãos na cabeça. Aqui e em Brixton.

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