O Porto de um homem só

sexta-feira, 7 de outubro de 2016

Parece reinar hoje na cidade do Porto o unanimismo em torno da figura de Rui Moreira. O actual presidente da Câmara, conotado com as linhas de PSD e CDS, conseguiu esvaziar estes partidos na cidade e, ao que parece, acabou por agregar o PS, que já declarou o seu apoio ao menino da Foz. Rui Moreira, eleito como independente apoiado pelo CDS tem, no entanto, um problema que não é defeito, é feitio: acha que quem não concorda com ele ataca o Porto. E talvez na raiz desse problema esteja mesmo a tal quase unanimidade em torno do autarca. O Porto vai perdendo a capacidade crítica e a capacidade de pensar, de contrapor, de propor.

Assim, com o silenciamento do pensamento dissonante e o silêncio deliberado dos restantes actores políticos, Rui Moreira vai construindo uma cidade que não faz parte de um projecto político mas de uma visão pessoal, que vai transformando o Porto numa cidade qualquer. Uma cidade do Porto sem portuenses, para turistas. Mas é aqui que pode estar a nascer um enorme problema. O Porto tem de estar valorizado por ser o Porto, pelas pessoas do Porto, pelo nosso sotaque, por falarmos alto e termos interjeições que a sul fazem corar qualquer um. Um Porto para os turistas tem de ser Porto na mesma. De outro modo, quem visita o Porto dos Starbucks, do esvaziamento da população do centro da cidade, empurrada para as periferias, pode visitá-lo noutra cidade qualquer da Europa.

Quem vive no Porto conhece bem as duas cidades. A dos turistas e a dos portuenses. O Porto da movida e cosmopolita para inglês ver e o Porto da Pasteleira, do Rainha Dona Leonor, do Aleixo, do Cerco, dos moradores que ficaram sem ter onde estacionar. E, sobre este assunto, Rui Moreira terá dedicado largas horas no Facebook a responder aos munícipes. A resposta abaixo é um sintoma de quem vê o Porto através de umas lentes que estão longe da realidade.

A identidade do comentário está pública, porque também o comentário
é público e pode ser visto na página de Rui Moreira no Facebook
Para o presidente, gastar 35 euros de cada vez que é necessário alterar uma morada, são bagatelas. Para o Porto onde metade da população é pobre ou está em risco de sê-lo, não.

Esta questão assume - ou deveria assumir - especial relevo quando, em 2013, Rui Moreira elegeu o combate à pobreza como uma das suas bandeiras. No entanto, ninguém na opinião pública e publicada da cidade confronta o presidente com esta realidade. Ninguém na opinião pública e publicada da cidade confronta Rui Moreira com o que era o seu grande objectivo e com a realização do que prometeu. O escrutínio feito é apenas político e é feito pelos eleitos da CDU, dado que as restantes forças ou estão com o presidente ou estão confortáveis com bandeiras que os media vão levantando, de vez em quando.

A notícia de que mais de metade da população portuense é pobre ou está em risco de pobreza surgiu poucos dias depois da indignação de Rui Moreira com o suposto imposto para casas de luxo, que foram transformadas em casas para a classe média, seja isso o que for.

Ora, se o Porto é o terceiro concelho do país com maior poder de compra e metade da população é ou está em risco de ser pobre, é fácil verificar que o Porto é uma cidade cada vez mais desigual, com muito ricos e muito pobres, numa brasileirização de consequências imprevisíveis. No Porto não vai tudo bem. Só não há crítica para além dos que estão no terreno todos os dias, com a população e os trabalhadores.

3 comentários:

  1. Nao esquecer que um dos argumentos publicados no facebook, sobre os parquimetros era de que "quem tem dinheiro para ter carro, gasolina e pagar iuc, tem seguramente dinheiro para pagar o estacionamento" . Certo, excepto para os que de facto nao podem porque ja chegam ao fim do mes a zero.

    ResponderEliminar
  2. Varrer os "indigenas" para fora do seu ambiente é que é! E continue a dar-se lugar à cidade descartável, desmiolada, vazia, sem a cultura popular, as gentes, as raízes. A "revolução" faz-se com grana! atributo, que legitima a mão de obra barata, precária, a correr, a pensar no consumo de massas, nesse destino de especulação e de grandes negócios.
    Sendo do Porto, vivo-a e experimento-a mais fantasmagória e árida, sem a alma que foi e é sua vida. A vulgaridade, o mau gosto, a falta de gente à noite, e o abandono... apesar de inundada de gentes.
    Reconstrui-la com pessoas fazia mais sentido, seria questão de gosto apoiado em tantos exemplos pelo mundo fora. Mas não é modo de vida para os que se enojam com os nascidos e criados no Porto.

    ResponderEliminar
  3. Agora é que é!
    Umas "elites" que abocanham o centro, aproveitando os "vistos dourados", tributações reduzidas e isenções. Nada de novo: se o pilim não se multiplica por falta de lucros e de juros, sacam-se através da propriedade e de rendas imobiliárias, que fundos sanguessugas com capital acumulado de origem duvidosa (acumulados com o dumping laboral, a exploração e redução de salários) e beneplácito dos políticos de serviço não pagam impostos, mas orientam de forma mais rentável e segura os carcanhóis para o imobiliário.
    A cidade vista como uma estação de serviço onde se "abastece" e urina é uma indecência. A cidade são as pessoas e a sua cultura. Questões como a propriedade, uma profunda alteração da tributação do património que beneficiou nas ultimas décadas níveis de riqueza e de fortuna acumuladas sob a forma de imobiliário deve ser encarados com coragem. Isto sem esquecer a a tributação hereditária, coisa que seguramente por vontade do honesto Moreira, não se discutirá.

    ResponderEliminar