Brasil – Não existe pecado do lado de baixo do equador!

sexta-feira, 7 de outubro de 2016

Quando os colonizadores chegaram levavam consigo a moral hipócrita imposta por normas religiosas que vigoravam na Europa de então. Comportamentos que eram reprováveis à luz da moral de então na Europa mas que, nos trópicos, pela distância e condição dos povos colonizados, quase tudo se permitiam fazer.

Fruto ou não desse largo e marcante período histórico, a sociedade brasileira não só não conseguiu superar estas características negativas que alicerçam também a sua formação como nação, como as ampliou à gigantesca dimensão actual do país.

O Brasil vive hoje, a exemplo da maioria da América Latina, um processo de retrocesso político e comportamental.

As religiões mais conservadoras, dentro do largo espectro protestante, ganham as mentes e somam fiéis de maneira avassaladora. A própria igreja católica, para não perder “mercado”, vai se tornando cada vez mais reaccionária, marginalizando os sectores progressistas que já tiveram muito maior peso.

Este avanço dos chamados evangélicos, no Brasil, tem sido alcançado pela omissão de muitos dos movimentos e partidos de esquerda revolucionários.

Com a chegada do PT ao governo, muito do trabalho de sensibilização e agitação de base que se fazia junto às comunidades pobres, nos sindicatos, no campo e em todos os locais propícios à mobilização social foi abandonado. Por sua vez, uma parte significativa dos movimentos sociais atenuou a luta, tornou-a reformista, resignando-se frente às alianças inescrupulosas do PT com partidos e sectores reaccionários e corruptos da sociedade.

Ficou vazio um espaço enorme aproveitado pelas igrejas evangélicas, cuja mensagem, para quem nada tem, é muito mais eficaz por se tratar de acreditar em algo “sagrado” que trará a felicidade através da própria inacção política.

Uma parte significativa destas igrejas conseguiram atingir objectivos organizacionais e económicos impressionantes. São proprietárias de várias empresas de comunicação social, rádios, jornais e televisões. Possuem editoras de livros e discos, empresas de “moda” e confecção de vestuário, escolas e universidades, partidos políticos, etc. Ou seja, dominam parte substancial da comunicação social, ditam o que ler, ouvir e vestir, “educam” para os seus valores e estão presentes com muita força nos diversos poderes institucionais de estado, no governo anterior através de coligações e, no actual, integrando o próprio gabinete golpista de Temer.

Em termos económicos, para além de outras fontes de receita menos lícitas, praticam o que muitos movimentos de esquerda sempre almejaram: a retro-alimentação. Gerando actividade económica no seio dos milhões de seus fiéis, se auto-alimentam com os recursos aí gerados.

Outro pilar fundamental na estruturação da teia (anti)social no Brasil actual é o narcotráfico. Nalgumas cidades mais bem organizado que noutras, tornou-se uma actividade que face à ausência de um estado actuante e honesto, supre as necessidades básicas nas comunidades mais pobres. Refiro-me a medicamentos, livros, transporte e outros tipos de recursos. No caso do transporte, tive mesmo a oportunidade de verificar que as linhas de autocarro que passam por comunidades dominadas por um grupo ou outro, no Rio de Janeiro, oferecem transporte gratuito aos seus moradores. Condição imposta pelos chefes deste(s) grupo(s) junto às empresas de transportes.

A agregar a estes aspectos, a interpenetração do narcotráfico nas forças de (in)segurança como a Polícia Militar e outras, é fundamental para a manutenção e ampliação do seu poder territorial, económico e militar.

Cabe frisar que o narcotráfico existe, segundo uma óptica capitalista, porque há um mercado consumidor muito importante. No Brasil, esse mercado situa-se nas zonas mais ricas, nos bairros ditos “nobres”.

Por último, o terceiro pilar, a corrupção. Apesar de entranhada em todas as esferas, é ao nível de poder institucional que toma proporções gigantescas na apropriação dos recursos económicos do estado.

A exemplo dos colonizadores de 1500 e anos subsequentes, não há pudor nenhum quando se trata de espoliar, roubar. É norma para uma parte substancial dos “governantes” pedirem a sua parte para aprovação de um projecto ou obra junto a empresas, muitas ONGs, etc. E este factor, a corrupção, é transversal aos dois anteriores pilares, a religião no poder institucional e nas outras diversas esferas de domínio da sociedade, o narcotráfico e quem o sustenta e permite.

Com tudo isto, os movimentos sociais, populares e revolucionários, navegam num mar extremamente revolto. São rechaçados por uma parte substancial da pequena-burguesia que, por ignorância, fruto da manipulação nos meios de comunicação hegemónicos e da própria educação formal, além de outros factores, prefere prestar vassalagem ao opressor do que aliar-se aos seus semelhantes oprimidos. Levanta-se facilmente em arrufos de nacionalismo “ingénuo” contra o jornal New York Times, por exemplo, quando este escreve contra a gastronomia carioca. Vai para as manifestações reaccionárias vestida de verde e amarelo, mas nada diz e faz contra a entrega das empresas e recursos energéticos brasileiros ao capital transnacional.

Por outro lado, estes movimentos populares desenvolvem o seu trabalho heróico no campo e na cidade, tendo como base um cenário de ameaças, perseguições, sequestros e assassinatos. Com a chegada ao poder do actual governo golpista, os assassinatos selectivos a líderes rurais, políticos e comunitários tem aumentado substancialmente. E isto tem ocorrido em movimentos com cariz mais reformista até aos mais revolucionários.

Os movimentos sociais populares no Brasil são numerosos, diversos e, nalguns casos, extremamente bem organizados a nível de reflexões, teorias e práticas, características difíceis de se encontrar nos da Europa. Contudo, mesmo assim, estão longe de ser hegemónicos e, principalmente, difíceis de se coordenarem entre si de forma a estabelecerem plataformas de unidade e acção. A pulverização é grande, a ausência de estruturas políticas aglutinadoras, a própria dimensão do país e dificuldades na comunicação, fazem com que muitos desses movimentos permaneçam isolados nas suas próprias realidades locais e/ou regionais.

Os resultados das recentes eleições municipais confirmaram o que se esperava da “democracia” burguesa. Com raríssimas excepções, os/as candidatos/as dos partidos apoiantes do actual governo golpista venceram na esmagadora maioria das cidades brasileiras. Parte considerável das vítimas votaram nos seus carrascos.

Uma nova noite escura de retrocessos e aumento da repressão que chegou ao Brasil, pode ser o mote para muitos dos movimentos sociais que tinham afrouxado a acção, achando que o PT no poder os representaria, reactivarem a resistência, voltarem a radicalizar a luta e a acção de massas.

Afinal, um país tão grandioso em vários aspectos mas tão desigual e injusto, não poderá seguir eternamente a trocar espelhos pelas suas riquezas, como na canção do mexicano Gabino Palomares “la maldición de malinche”.

*Autor Convidado
Carlos Gomes

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