A Europa será dos trabalhadores. Ou não será.

segunda-feira, 4 de julho de 2016

Discuto todos os dias comigo mesmo. A avalanche de informação contrária às minhas ideias é tão avassaladora que me faz reflectir uma e outra vez se não estarei errado. Tenho de provar a cada minuto que as minhas convicções não são um capricho desligado da realidade. Há um século, Lénine proclamava que a prática é o critério da verdade e nunca deixei de usá-la para medir a distância entre o que penso e o que existe. Ainda antes do génio da revolução bolchevique e antes da própria Comuna de Paris, os representantes políticos da esquerda francesa olhavam com desconfiança para os primeiros operários que tentavam candidatar-se. Advogados, médicos e escritores entendiam que sabiam melhor das reivindicações do que operariado e que não fazia qualquer sentido sentarem-se na mais importante câmara da política francesa. Hoje, como desde então, o preconceito persiste.

Os banqueiros, os empresários, e os advogados, economistas e engenheiros que os representam na Assembleia da República, são os mais capazes para dirigir os destinos do país. Mesmo que tenham deixado Portugal na miséria, que se afoguem em corrupção, que privatizem tudo para entregar ao capital estrangeiro, que falhem todas as previsões económicas, que roubem e assassinem idosas no Brasil, que falsifiquem licenciaturas, serão sempre mais capazes que o afinador de máquinas, que o electricista, que o motorista, que o estivador e que o operador de call center.

É este mesmo preconceito que aproxima intelectuais que se acham de esquerda - mesmo que filhos de operários - das teses de que a União Europeia é um espaço neutro mal conduzido por péssimos tecnocratas. Em primeiro lugar, nada é neutro. Em segundo lugar, os direitos sociais e as liberdades conquistadas a seguir à II Guerra Mundial e consagradas no contexto da construção da CEE devem-se ao reforço do prestígio do movimento operário europeu vinculado com a URSS, força decisiva para a derrota do nazi-fascismo. Em terceiro lugar, a progressiva perda de direitos, o avanço das ideias conservadoras e a crise financeira têm a mesma razão: o fim da URSS e a debilitação profunda dos sindicatos e da esquerda europeia.

A União Europeia não é um barco à deriva por culpa de timoneiros incapazes. É antes um barco que percorre um rumo bem definido, com timoneiros competentes que possam conduzir a Europa para o seu objectivo de sempre: o domínio da economia de mercado, dos grandes grupos financeiros e económicos das grandes potências. E os nossos intelectuais - os tais que se acham de esquerda - acreditam piamente que a livre circulação não serviu para estimular os movimentos migratórios da mão-de-obra barata do Sul da Europa para alimentar a economia do Norte.

Têm Toni Negri, Zizek e Habermas na ponta da língua e vivem num dilema inexistente: a UE é antifascista por ser a única solução para impedir o avanço das forças de extrema-direita. É por isso que se espumam quando trabalhadores de toda a Europa exigem a ruptura com a União Europeia pela esquerda. É que para nós, a UE representa o fascismo quando protagoniza a maior deportação massiva de seres humanos desde a II Guerra Mundial, quando permite governos fascistas no seu seio, quando patrocina governos como o ucraniano, quando chacina o povo líbio e, principalmente, quando destrói a soberania económica dos países do Sul da Europa para impor políticas de austeridade e roubar direitos sociais.

Façam uma União Europeia dos pequenitos e instalem lá os intelectuais eurófilos que teimam em atrelar-nos a Bruxelas e a Berlim no conforto da almofada académica e mediática. Tentam associar os comunistas à extrema-direita britânica e francesa e tentam esconder o óbvio. Farage, Le Pen, Merkel e Hollande defendem o mesmo sistema económico: o capitalismo. Portanto, a Europa será dos trabalhadores. Ou não será.

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