Exaustão médica: Realpolitik VS. A Puta da Realidade

quinta-feira, 30 de junho de 2016

Quando vamos ao médico queremos ser atendidos bem, rapidamente e de preferência sair de lá curados. Calculo que todos os profissionais que nos atendem no SNS e no privado desejem o mesmo, Hipócrates assim obriga. Certamente que, como em todas as profissões, haverá melhores e piores profissionais, é o que é, não há grande volta a dar. Mas no caso dos médicos e médicas, quando há um erro é grave, é mais grave do que em quase todas as outras profissões. E não são poucas as notícias que nos chegam de possíveis negligências médicas ou de consultas que demoraram meses a acontecer e depois foram despachadas em minutos.

E se devemos continuar a exigir que principalmente no SNS a excelência, a paciência, a simpatia, o profissionalismo, a dedicação, sejam as únicas bitolas possíveis, o que fazer quando nos deparamos com um clínico que não dorme há mais de um dia inteiro? Que tem o cansaço de anos totalmente estampado no rosto? Que é obrigado a fazer horas extraordinárias sem fim e sem pagamento? Que aceita tudo isto porque Hipócrates assim obriga e porque o SNS tem de fazer tudo para ser eficaz, para combater as listas de espera, para combater a desorganização provocada pela falta de médicos, enfermeiros, auxiliares e administrativos.

E de repente ficamos a saber que "quase metade dos médicos da zona centro do país apresenta sinais de exaustão emocional, um fenómeno também conhecido por burnout. Um estudo agora divulgado pela secção centro da Ordem dos Médicos revela que um em cada quatro clínicos sofre de depressão. Os médicos mais jovens e os do sexo feminino são os mais afectados."

É ver a reportagem e perceber que na verdade toda a gente sabe disto. Nós, utentes, nós, profissionais de saúde, nós, directores hospitais e regionais de saúde, nós, governantes que tutelamos a saúde, nós, governos. Nós, todos nós, sem excepção sabemos desta realidade, nós, todos nós, sem excepção somos responsáveis por ela. Seja por convicção, por decisão, por escolha ou por omissão.

Devemos começar a aceitar os erros e a negligência médica propositada ou involuntária? Claro que não, devemos continuar vigilantes e denunciar todo e qualquer caso que se configure como tal.
O que não podemos é continuar a fingir que os cortes na saúde - o tal racionamento...- não têm consequências dramáticas, não colocam utentes e profissionais do SNS em risco. Não podemos continuar a fingir que o corte é de dinheiro, é de vidas que falamos.

Aqueles de nós que querem destruir o SNS para beneficiar o privado estão no seu direito, é uma escolha ideológica ou simplesmente uma escolha que trará aos próprios benefícios financeiros. Aos outros de nós, aos que não aceitam a destruição do SNS nem dos direitos laborais dos seus profissionais, contribuindo para a degradação do atendimento, é que cabe fazer de contra-peso, fazer toda a força para que a balança penda para o nosso lado.

Realpolitik vs. A Puta da Realidade

É o não há dinheiro, é o é preciso fazer cortes para não salvar o que ainda temos, é o a banca não pode colapsar porque senão vem aí o apocalipse. É a realpolitik dos números, das percentagens, das novas e belas teorias económicas que brincam com a tua fome, com o teu desemprego, com a tua mente insana em corpo doente.

E a puta da realidade? É a tua, a de todos os dias. A do teu pai que morreu à espera de ser observado, da tua mãe que podia ter sobrevivido se houvesse mais uma ambulância do INEM, da tua filha que se tivesse sido observada por médico bem acordado não tinha piorado o seu estado, dos teus dias de médico ou enfermeiro que te fazem falhar mesmo quando fazes todo o esforço para que isso não aconteça.

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