A empresa portuguesa que promove o arremesso de anões

quinta-feira, 9 de junho de 2016

E se uma empresa de eventos oferecesse para as despedidas de solteiro, jantares de negócios e festas de colegas de trabalho actividades que envolvessem o arremesso de ciganos, amputados ou cegos? É isso mesmo que a Mundial Eventos faz. A empresa de Cascais cujo proprietário é Pedro Raposo propõe pacotes que incluem o lançamento de anões, o bowling com anões e striptease com anões. Este negócio que promove a barbaridade e a humilhação como diversão foi denunciado pela Confederação Nacional dos Organismos de Deficientes e pela Associação Nacional de Displasias Ósseas. Ambas as organizações consideram que esta prática configura um profundo retrocesso, promove a humilhação, atenta contra a dignidade humana e viola os direitos das pessoas com deficiência. O arremesso de anões foi já proibido noutros países e mereceu a condenação da ONU.

Após duras críticas na sua página no facebook, a Mundial Eventos tenta escudar-se no facto de ser uma pessoa adulta com nanismo que voluntariamente se ofereceu para este trabalho que é pago. Não será certamente difícil compreender todos os constrangimentos que a maioria das pessoas com deficiência têm para se integrarem na sociedade e, sobretudo, para conseguirem emprego. Portanto, também não me é difícil imaginar que para lá dos limites da dignidade humana o salário pese mais quando se tem de comer. Mas importa dizer que o que está em causa não é a liberdade individual de determinada pessoa se deixar arremessar e ser objecto de gozo. Está em causa permitir que na nossa sociedade haja caminho para promover o preconceito e a humilhação como forma de divertimento.

Durante o fascismo, as pessoas com deficiência viviam clausuradas em asilos ou escondidas em casa. Eram pessoas inválidas. Sem validade. Incapacitadas. Ou seja, sem capacidade. No fundo, eram consideradas inferiores e assim eram tratadas. Mas ao longo da história, as pessoas com deficiência, principalmente, as que tinham nanismo, eram figuras de atracção nas feiras, bobos da corte e palhaços no circo. A sua função era serem objecto de escárnio, de chacota e de humilhação. Foi a revolução de Abril que abriu caminho às conquistas pelas quais as pessoas com deficiência e as suas associações lutaram. Não podemos permitir o retrocesso.

Por exemplo, o striptease com anões proposto pela Mundial Eventos não é uma actividade erótica porque ela não procura suscitar qualquer vontade sexual por parte de quem contrata este serviço numa despedida de solteiro. É como a própria empresa descreve uma actividade cómica. No fundo, a própria empresa sabe que não é um serviço normal e foi por isso que decidiu fechar a correr as páginas do seu site que referiam o arremesso e o bowling com anões. A indignação é possível, urgente e necessária para que na nossa sociedade caibamos todos sem lugar para a exploração, a desigualdade e a exclusão.

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