Se eu fosse a Joana Vasconcelos levava uma vergonha infinita

quinta-feira, 7 de abril de 2016

Se eu fosse a Joana Vasconcelos e fugisse da morte, não levava "todas as minhas jóias portuguesas" nem "os meus óclos de sol". Não, se eu fosse a Joana Vasconcelos procurava antes ajudar esta gente a fazer as malas. Porque eles obviamente não sabem.



Dir-lhes-ia que se é para viajar assim, sem ler as críticas dos hotéis, sem "o meu caderno para poder fazer os desenhos", sem dinheiro no cartão para gastar em Paris, mais valia ficar em casa.

Se eu fosse a Joana Vasconcelos e visse, como no poema de António Gedeão, "o sangue gorgolejar das artérias abertas e correr pelos interstícios das pedras, pressuroso e vivo como vermelhas minhocas despertas" e visse "as crianças de olhos lívidos e redondos como luas, órfãs de pais e de mães, andarem acossadas pelas ruas como matilhas de cães" e visse "o grande pássaro de fogo e alumínio cobrir o mundo com a sombra escaldante das suas asas amassando na mesma lama de extermínio os ossos dos homens e as traves das suas casas", eu agarraria "nas lã e na agulha, para qualquer eventualidade" e faria uma obra de arte inócua: qualquer coisa não tivesse nada a ver com os vivos; qualquer coisa estéril e senil, como um naperom gigante ou um cacilheiro em filigrana ou uma pirâmide de plástico ou qualquer coisa que dissesse, assim bem alto "o meu reino não é deste mundo" ou, simplesmente, "estou-me a cagar".


É que se eu fosse a coqueluche travestida de artista da direita neoliberal, não poderia, mesmo que quisesse, saber como é. Se a minha carreira artística tivesse sido um passeio de mãos dadas com os responsáveis pela destruição dos países de onde vêm os refugiados (que nem turistas sabem ser), eu levaria comigo uma absoluta indiferença pela vida de quem é obrigado a deixar tudo: a família, a casa, a segurança, e também os "óclos" de sol, "as lãs" e o i-pad, para saber o que se passa no mundo.

Se eu fosse a Joana Vasconcelos não poderia parecer solidária mesmo que o piano na música de fundo mo exigisse. Porque, se eu fosse a Joana Vasconcelos e fugisse da morte, saberia que só se pode ser solidário com quem partilha, por mais ínfima que seja a partilha, da nossa condição.

É que se eu fosse a Joana Vasconcelos nunca, nunca (!) estaria naquela condição porque estaria sempre do outro lado: do outro lado das jaulas de arame farpado onde dormem as crianças que não podem passar; do outro lado da linha mediática que separa, por classes, os refugiados, migrantes, os viajantes e os turistas; do outro lado da Europa fortaleza; do outro lado da Comissão Europeia; do outro lado da arte, com o bricolage anabolizante e hiperbolizante; do outro lado da barricada.

Se eu fosse a Joana Vasconcelos não valeria a pena pedir-me para, como no poema, "lutar até ao desespero da agonia" nem para escrever "com alcatrão nos muros da cidade ABAIXO O MISTÉRIO DA POESIA". Mas, se eu fosse a Joana Vasconcelos e fugisse da morte, como, de uma certa forma mais demorada, todos nós fugimos, teria que levar comigo, para o resto da vida, uma vergonha infitina.

28 comentários:

  1. Se todos fossemos capazes, fugíamos da presença da Joana Vasconcelos.

    Se o país fosse país, fugia da arte de Joana Vasconcelos.

    Se Botero fosse capaz disso, pintaria uma Joana Vasconcelos a fugir de Portugal, com os seus «óclos» de sol.

    JN

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  2. Que merda é esta? Que misturada de grelos é esta? Vocês iam com a mochila vazia? Não, levávamos umas faixas e uns folhetos, paus e pedras e acrescentamos miséria à miseria. E claro é muito fácil colocarmo nos no lugar deles.. claro, claro . Por isso fazem estas perguntas sem nexo as pessoas. E a mulher que por acaso é uma artista de renome é sincera e escolhe 4 ou 5 items entre todo o conforto que tem, como eu e todos que comentam estas merdas.. o Humberto eco é que tinha razão.e claro o que a joana devia ter dito é que levava uma sandes de coirato é um cobertor é porque sim, isso é que era politicamente correto... mas está tudo burro ou quê?

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    1. Claro que uma pessoa sobre a pressão de uma crise, levaria o seu ipad para comer enquanto fugia. Bem, a maioria da comida que ingerimos é plástica, podia ser que o sabor fosse idêntico. Artista de renome...? Em que é que isso lhe dá direito de ser parva? Politicamente correcto??? Ela é protegida politicamente sem dúvida, por pessoas como você que alimentam atitudes fúteis como esta. Não é ser politicamente correcto criticar estas atitudes! É SER HUMANO. Um ser humano com a mínima noção do que é respeitar outro ser humano, não diz estas barbaridades. Isto não tem que ver com comportamento cívico. Repito, tem que ver com comportamento humanitário e de respeito para com o sofrimento dos outros.

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    2. Se ela queria levar as suas tecnologias, que no mínimo argumentasse melhor as escolhas.

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    3. Basta perguntar a uma criança o que ela levaria na mala sr Huncho. Com certeza ela será mais sincera e menos fútil que essa "renomada" alma. Sabe, eu acho que ela deveria levar um cavalo também, mas em cima dela feito a sua mochila cheia de (f)utilidades

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    4. O "senhor" não passa de um besta burguesa, bem instalado na vida, insensível à miséria alheia. Leve a sua querida Joana para bem longe daqui, e não se esqueça de encher a mala com as suas merdas

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  3. Que merda é esta? Que misturada de grelos é esta? Vocês iam com a mochila vazia? Não, levávamos umas faixas e uns folhetos, paus e pedras e acrescentamos miséria à miseria. E claro é muito fácil colocarmo nos no lugar deles.. claro, claro . Por isso fazem estas perguntas sem nexo as pessoas. E a mulher que por acaso é uma artista de renome é sincera e escolhe 4 ou 5 items entre todo o conforto que tem, como eu e todos que comentam estas merdas.. o Humberto eco é que tinha razão.e claro o que a joana devia ter dito é que levava uma sandes de coirato é um cobertor é porque sim, isso é que era politicamente correto... mas está tudo burro ou quê?

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    1. Ó Hungho, não te esqueças, tu também de levar os «óclos» de sol.

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    2. Um burro sempre pode aprender alguma coisa...já um fútil não sei se quer!!

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  4. Eu não abdicaria do meu telefone. Talvez levasse memórias, talvez uma pen com algumas fotos. Levaria os meus animais com toda a certeza deste mundo. Ando de mochila às costas muitas vezes e nunca me lembrei de levar as minhas jóias. É que nem uma muda de roupa lhe passou pela ideia. Nem nenhum produto de higiene.. ela pensa que no campo tem todos os confortos? Dão.lhe um roupão e uns chinelos? Quem não vê mal na reposta dela é igual a ela, apático e sem a mínima noção do mundo em que vive e do mundo em que outros vivem.

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  5. Mas que mal vos fez a Joana?
    Apesar de todas as subjetividades artísticas e preferências políticas que lhe queiram apontar, dá a Portugal visibilidade em meios internacionais artísticos.
    O "manifesto 74" não ganha nada com publicações odiosas como esta que parecem escritas por algum artista menos bem sucedido.

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    1. Artista menos sucedido do que quem, a Joana?

      Se não fosse uma "artista" do regime, estaria era em casa a fazer croché.

      Mas esta gente, acredita em tudo o que lhe impingem, nem têm sentido critico.

      Joana a artista da futilidade, da banalidade, do vazio, da miséria a que o sistema capitalista chegou.

      A.Silva

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    2. Pelos visto a visibilidade dela é igual um balão. Bonito e vistoso e por dentro... Quantos artistas produzem melhor arte do que está senhora plasticina (sem ofender a plasticina) e não tem oportunidade de mostrar a sua arte, quantos?

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    3. Pelos visto a visibilidade dela é igual um balão. Bonito e vistoso e por dentro... Quantos artistas produzem melhor arte do que está senhora plasticina (sem ofender a plasticina) e não tem oportunidade de mostrar a sua arte, quantos?

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  6. A joana nao nos fez mal nenhum... É apenas parva e fútil coitada, de resto... ( ah e ridicula? talvez...) :/

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  7. Excelente texto. Subscrevo na totalidade, só sublinhando talvez a inadequação e completa futilidade desta triste série de videos de iniciativa estatal.

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  8. Explicaram à senhora o porquê destes "pobres", que, sinceramente,se fosse eu.... Concerteza não iria querer aparecer na televisão sem ter pelo menos tomado um banhinho... Mas ele há gente que, bem... Enfim(ironia) .... Explicaram que eles estão a fugir a um massacre??a um extermínio patrocinado por todos nós??? Que Na volta levavam só algo para se tentarem aquecer e talvez alguma recordação da vida que perderam.... Tipo.... Mesmo à pobrepobre!!! .... Estas pessoas como a "senhora" Joana não se preocupam minimamente com os "outros".... Mas infelizmente existem tantos,mas tantos a pensar como ela, infelizmente.

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  9. Explicaram à senhora o porquê destes "pobres", que, sinceramente,se fosse eu.... Concerteza não iria querer aparecer na televisão sem ter pelo menos tomado um banhinho... Mas ele há gente que, bem... Enfim(ironia) .... Explicaram que eles estão a fugir a um massacre??a um extermínio patrocinado por todos nós??? Que Na volta levavam só algo para se tentarem aquecer e talvez alguma recordação da vida que perderam.... Tipo.... Mesmo à pobrepobre!!! .... Estas pessoas como a "senhora" Joana não se preocupam minimamente com os "outros".... Mas infelizmente existem tantos,mas tantos a pensar como ela, infelizmente.

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  10. "Barriga cheia de tudo, cabeça cheia de nada" (causa/consequência?)

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  11. ...E que tal umas latinhas de conservas, umas roupas e agua? ...talvez...digo eu com os nervos !!!

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  12. Até no meio de um campo de refugiados, ela já está a pensar numa nova obra de arte!! Fantástico... Isto, se tivesse conseguido sobreviver, porque o objectivo desta iniciativa era imaginar o que levar em caso de uma suposta partida repentina da terra onde viveria. Nem sei como a "organização" desta iniciativa deixou isto ir avante...triste.

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  13. vejamos pelo lado positivo: se a fome apertasse a joana seria a primeira a marchar

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  14. "Artista de direita neoliberal..." Se fosse a Mortagua a dizer a mesma merda de certeza que o blogueiro escreveria "cool". FK

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  15. Cada um leva o que tem. Simples.

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  16. Alguns dos objectos que ela refere acabariam por desaparecer durante a viagem, provavelmente seriam roubados, perdidos ou mesmo serviriam de pagamento de favores!

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  17. governo como a triste idiota que profere estas palavras.
    A questão a discutir ou a exigir, aproveitando o "boom"... o ruído da moda, do tique do momento...
    Que os pais, professores, demonstrem a sua contestação, educando os filhos/alunos que não participem ou que escrevam textos a afirmar que NÃO queremos um mundo com refugiados, nem económicos, nem de guerra!
    Que não queremos pobrezinhos de estimação!
    Que queremos um mundo próspero, sem guerras ou assaltos, sem ingerências... com países soberanos e fraternidade entre os povos.
    Quanta à rapariga paga para distrair... pois ... tenho pena da dita por ser uma alucinada do sonho, uma refugiada na prostituição da arte
    A questão, a questão... o Mote...
    Que o mote não será ser ou não ser refugiado(a)... mas sim independente, livre, progressista... PARA TODOS.
    Vergonhosa a ideia!

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  18. Este comentário foi removido pelo autor.

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  19. A Joana pode aparentemente ter escolhido objetos que parecem futeis,mas existe duas questoes aqui,é que nem todos os que estão nos campos sao pobres,a maior parte deles estão em mas condiçoes no campo porque eram pessoas com dinheiro.por isso comseguiram pagar para chegar aos campos.a segunda questao é que dentro de um campo um trlemovel e um ipad pode dar mais jeito do que um cobertor,apesar de ela levar las tambem para fazer se for precisoas um cobertor é mais facil de arranjar njmcampo do que um telemovel.nos campos ra negocios e dinheiro,ou voces acham que não? Quando so Judeus foram para os campos acham que eles nao levavam ouro e riqueza.o dinheiro cpra tudo,por vezes até mais um dia de vida.

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