A revolta dos cartões

sexta-feira, 15 de abril de 2016

O BE quer mudar o nome do cartão do cidadão para não utilizar termos “sexistas” e levanta-se um vendaval nas redes sociais sobre a intenção do agrupamento político. Ora se levanta a questão da oportunidade, ora a da prioridade, ambas frágeis pois que oportunidade é conceito subjectivo quanto baste para permitir que tudo quanto se queira seja inoportuno em todos os momentos. E prioridade é desculpa para adiar tudo quanto não se queira efectivamente debater.

Para o capital nunca é oportuno defender o aumento dos salários, por exemplo. E sobre oportunidade, por exemplo, que se dirá sobre o projecto do PCP para a suficiência do formato digital na entrega de teses para obtenção de grau académico? É uma prioridade? Tendo em conta que esse mesmo partido defende a gratuitidade total do ensino, não seria prioritário propor o fim das propinas? Portanto, no que às prioridades toca, uma coisa não impede a outra. Tal como o facto de o BE defender a mudança do nome do CC não impede o BE de defender o fim da discriminação salarial da mulher.

Portanto, sobre o cartão de cidadão, julgo que não podemos colocar a questão nem no pleno da oportunidade, nem da prioridade. A questão é mesmo sobre o acerto e justeza da posição política.

Há quem tenha embarcado com entusiasmo na moda da “@”, do “x” ou da repetição de termos. Vemos por aí “tod@s”, “todxs” e “todas e todos”, entre outras novas formas de inovar na oralidade e na escrita. Claro que, a manter-se esta prática, entrará nas normas da língua e da gramática, mas o que importa é compreender se faz algum sentido. Será o inglês uma língua menos machista porque não tem termos que distingam o feminino do masculino? Por exemplo com o correspondente “all”. Portanto a língua dos ingleses e dos americanos já ultrapassou as discriminações sexuais que julgamos ainda contaminarem a nossa? O facto de termos na nossa língua adjectivos, substantivos e pronomes com diferenciação de género torna-a machista? Por exemplo, os ingleses usam o “they” e nós temos o “eles” e o “elas” sendo que se convencionou o “eles” para uso unissexo sempre que necessário.

Ou seja, o género masculino é muitas vezes utilizado para substantivos e pronomes que remetem para colectivos, por mera convenção. Mas o contrário também sucede. Há substantivos colectivos e até individuais que são do género feminino e se aplicam indiscriminadamente a ambos os sexos (eis mais uma diferença entre género e sexo). Por exemplo: “gente”, “malta”, “massas”, “população”, “populações”, “plebe”, “corte”, “pessoa”.

Toda a gente perceberia o ridículo se eu, por ser do sexo masculino, me revoltasse por ser incluído nessa terminologia feminista que me dá por “pessoa”, ou que me inclui, para todos os efeitos nesse gigantesco gineceu que dá pelo nome de “república” e que assume a forma tão feminina de “democracia”.

E voltemos, então, à questão de género e igualdade - e agora é a Lúcia Gomes quem escreve: o Bloco também defende a paridade como forma de combater as desigualdades. E bem se viu o que a paridade fez pelas mulheres: a discriminação salarial persiste (e nuns casos até se agrava). O desemprego feminino aumenta (chamemos-lhe desempregue, para ser neutro), o acesso das mulheres à saúde sexual e reprodutiva é mais difícil porque as taxas moderadoras e o preço dos medicamentos sobe e, no entanto, há mais mulheres nas «lideranças» de partidos, há mais mulheres ministras, há mais mulheres deputadas, sem que isso tivesse qualquer reflexo na vida das mulheres trabalhadoras, por exemplo. Porque a sua política não deixa de ser de classe e não deixa de se submeter aos ditames de uma lógica patriarcal, a que também obedece a paridade: o poder.

Podemos ainda perguntar-nos porque é que o Bloco não coloca ênfase em propostas sobre o fim das discriminações salariais, mas nos cartões de cidadão. (E digo eu que sempre escrevi cartão de cidadã em peças processuais e requerimentos quando se trata de mulheres e nunca me passou pela cabeça ser um «problema» fazê-lo). Lembro-me, por exemplo, quando afirmou que a discriminação salarial na cortiça acontecia porque o Sindicato dos Operários Corticeiros tinha assinado um contrato colectivo que previa essa diferença salarial (esquecendo-se de referir que previa aumentos para todos os trabalhadores e melhores condições), pretendendo culpar o sindicato por essa discriminação.

Podemos perguntar porque é que o Bloco recusa a ligação entre tráfico de mulheres e exploração na prostituição e insiste na tentativa de profissionalização da prostituição e na transformação dos proxenetas em empresários ou das redes de tráfico em clusters empresariais (a consequência directa da profissionalização por mais que tentem pintá-la com os pós-modernismos e os insultos a quem defende a posição contrária).

E, portanto, podemos perceber que a política do soundbyte em nome da «igualdade» (já que as outras bandeiras já caíram, resultado da mobilização popular e das lutas de muitos anos de vários quadrantes políticos) tem dado resultado, pelo menos eleitoral.

Não será antes de perguntar: a revolta das redes sociais tem depois consequência? Ou é instantânea como as redes que a suportam?

Este texto foi escrito pelo pistoleiro Miguel Tiago e pela estalinista Lúcia Gomes. Epítetos agraciados pelos queridos e nada sectários bloquistas e bloquistos.

6 comentários:

  1. Porque é que a legalização da prostituição implicaria necessariamente a transformação dos proxenetas em empresários ou das redes de tráfico em clusters empresariais? É isso que acontece nos países onde as prostitutas foram reconhecidas enquanto trabalhadoras do sexo e passaram a poder descontar para a segurança social, entre outras coisas?

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    1. Sim, Ricardo, é precisamente isso que acontece na Holanda onde, por exemplo, o tráfico de crianças aumentou de 5000 para 15000 e onde se estima que mais de 80% das pessoas prostituídas são traficadas. Ou em Vitória, onde a prostituição chamada «ilegal» aumentou para 300%.

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  2. O próximo passo é corrigir os textos de ciências naturais para que refiram correctamente os Dinossaurios e Dinossaurias, e claro discutir se a sua extinção foi causada ou causado por um Meteorito ou Meteorita.

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  3. há algum mal no querer distinguir os indivíduos das indivíduas?

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  4. Porque é que se insiste em lançar confusão para a discussão com o género de substantivos e pronomes? A questão aqui é de um cartão individualizado (não interessa nada discutir o sexo dos anjos ou dos cartões, não se distraiam) que cada pessoa usa na carteira (também não interessa nada se a carteira é feminino ou masculino, isso é muito engraçado para anglófonos mas nós vivemos bem com isso) e que tem uma designação individual - cidadão - que não concorda com metade dos sujeitos (aqui posso usar masculino pois é plural, até porque, que eu saiba, o substantivo sujeita não existe) que o usam quotidianamente como documento de identificação burocrático. O cartão do cidadão da Lúcia não faz sentido. A gramática é machista mas a frase anterior viola-a. Ainda por cima quando sabemos que a palavra cidadão tem alguns milénios e a inclusão das mulheres na cidadania conta-se por décadas. A questão do cartão de cidadão é uma coisa pequena que poderia facilmente ser mudada. Parte do problema claro é a individualização, que assinala a pulverização da identidade na subjectificação neo-liberal. Falo da transformação da cidadania em relações de consumo e o cartão de identidade em cartão dos identificados. Isso tornou as coisas um pouco mais confusas. Mesmo assim não consigo ver razões para esta reacção a uma proposta bastante modesta e sensata.

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    1. E que tal a :cartona da cidadona(ou da cidadã!).Foda-se! não há cu(eh pá!não devia haver género para cu????).

      Post Scriptum:aqui está um Não Assunto que só pode excitar a p+equena burguesia do BE.

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