Contra o alarmismo, pensar, pensar

quarta-feira, 30 de março de 2016

Ontem houve um tiroteio na Ameixoeira. Certamente estarão a par da coisa, abstenho-me de a explicar. Duas famílias, caçadeiras, tiros e a PSP. Os directos televisivos não tardaram, as análises especulativas rapidamente se iniciaram e quando os factos foram chegando, as análises mantiveram a especulação utilizando a extrapolação, essencial ao preenchimento de 24 horas de informação repetida, mastigada, escarrada e com poucos minutos de verdadeira informação.

Detenho-me em dois momentos a que assisti.

José Alberto Carvalho, na TVI24, mesmo antes do intervalo, lança a seguinte pergunta (transcrição de memória): "Será que este episódio poderá levar a uma escalada de violência? É esta resposta que vamos tentar dar depois do intervalo."
Fica o espectador a matutar no assunto, a preocupar-se com esta hipótese, a aumentar na sua cabeça a necessidade do aumento de segurança, de polícia nas ruas, etc, etc...

Francisco Moita Flores, na CMTV (a primeira a chegar em directo ao local, claro), diz o seguinte (de memória novamente): "Não quero fazer qualquer tipo de comparação com o acto terrorista a que assistimos na semana passada, porque isto não tem nada que ver com terrorismo... Mas a verdade é que a composição social deste bairro tem muitos pontos de contacto com os bairros belgas onde há terroristas."
Francisco, quando não se quer comparar uma coisa com outra porque se acha que uma coisa não tem relação com a outra, é simples, não se compara.

Estas frases, estas situações, estas análises e interrogações servem para quê? E servem a quem? Não servem para nada que não seja ocupar tempo de antena com bacoquices, com especulações de café que alimentem um mercado televisivo notoriamente exagerado para o país que temos e altamente degradado pela concorrência da informação-espectáculo em que o "quase" de "vale quase tudo" já está muito esbatido.

Vivemos um período delicado que necessita de mais calma e distanciamento de análise do que uma vontade imensa de colocar todos os cenários em cima da mesa, principalmente os mais catastróficos. Toda a gente sabe que a paz e a tranquilidade são menos mediáticas que a violência, as guerras e o terror psicológico. Toda a gente sabe que, "o drama, a desgraça, o horror" (Albarran, onde andas?), vendem mais.

Outra prova disto é a estreia de ontem de "Aqui tão longe", série da RTP que tem como mote um atentado terrorista a um avião que partiu de Lisboa com destino a Londres. A RTP, e bem, parece querer apostar na produção de séries nacionais de ficção e menos em novelas, mas não deixa de ser paradigmático que uma das primeiras séries desta aposta seja esta, especulando sobre um cenário alarmista.

Seleccionemos a informação e respiremos fundo. Contra o alarmismo, pensar, pensar.

3 comentários:

  1. "Aqui tão longe" é anunciado ao mesmo tempo que os ataques (produzidos por CIA e Mossad) de Bruxelas.

    Partida de futebol entre Portugal e Bélgica é transferido para Leiria, devido à eventualidade de outro ataque terrorista.

    Entretanto, um soldado da IDF abate a sangue frio um ferido palestiniano. Palmira é reconquistada pelo exército sírio. Estas duas últimas notícias não são dadas ou relegadas para segundo plano.

    Fica o cartaz de «Aqui Tão Longe» colocado na rua e o aviso: O Terrorismo vende.

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  2. correção: Albarran dizia, o drama, a tragédia, o horror. tudo o resto. completamente de acordo :)

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  3. Depois do tiroteio na Ameixoeira, é a vez de meter medo a todos aqueles que ainda não preencheram o IRS. O medo e mais o medo ao medo.
    Não haverá por aí uma campanha que ataque, com unhas e dentes o jornal e a televisão do «Correio da Manhã»? Ou até mesmo que denigra e horrorize o trabalho de ser «pivot» de uma televisão portuguesa, seja ela «RTP», «SIC», «TVI» ou «CMTV»? De modo, que esse trabalho tão indigno (que é ser pivot) fosse tido como «não desejável», tal como é o de coveiro ou cantoneiro (trabalhos esses bem mais dignos do que ser mentiroso e charlatão e papagaio armado em bom, que é esse, de ser pivot e jornalista para o grande capital).
    Teria o todo o interesse fazer um trabalho colectivo (e subterrâneo) contra as máscaras que dão o rosto ao grande capital, seja ela na televisão ou nos jornais, dado que a comunicação social portuguesa entrou hoje na sua fase mais parcial de sempre, abandonando a investigação e deixando-se render à vergonha da notícia vendida, baralhada e mentirosa.

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