Ao sabor da brisa mediática

sábado, 26 de março de 2016

Até hoje, nas suas relações internacionais, jamais o BE havia tido um governo de um partido que coincidisse com a sua linha política. Timidamente e muito pontualmente, mostrou-se solidário com alguns governos que na América Latina avançavam com políticas progressistas. Nunca vimos este partido organizar actos contra o golpe na Venezuela, Equador ou Bolívia. Com Cuba jamais mostrou o mais pequeno gesto de empatia e não se sabe qual é a sua posição sobre o bloqueio contra a pátria de José Martí.

Nas suas posições sobre questões internacionais, o BE preferiu quase sempre deslizar ao sabor das marés imposta pelo mediatismo. Desde considerar simpática a candidatura de Barack Obama e de François Hollande, a não ter qualquer posição crítica sobre as manifestações em Kiev que levaram o fascismo ao poder com a consequente ilegalização do Partido Comunista da Ucrânia e a guerra contra a insurreição no Leste do país. Sobre a Líbia, é sobejamente conhecido o papel que tiveram os eurodeputados do BE na resolução que abriu as portas à agressão que conduziu aquele país à Idade Média e à brutalização das mulheres.

As críticas e o mal-estar gerado mudaram a sua postura em relação à Síria. Não apelou a uma intervenção externa e moderou o seu discurso em relação ao governo de Bashar al-Assad mas pouco ou nada ouvimos sobre o que pensa dos supostos rebeldes financiados e treinados pelos Estados Unidos, União Europeia, Turquia e Arábia Saudita. Entrevistou, há dias, em Lisboa, ao lado de um monumento com a estrela de David, uma investigadora síria que defende o derrube de Bashar al-Assad.

É curioso, pois, que quando chega ao poder, pela primeira vez, um partido da mesma família política do BE, se dá uma das maiores traições à esquerda das últimas décadas na Europa. O BE tinha apoiado e feito campanha pelo Syriza mas quando chegou ao governo e rasgou tudo o que havia prometido os portugueses tiveram de se retratar. Vários dirigentes que antes eram amigos de Alexis Tsipras fingiam distanciar-se. Os dirigentes do BE sentiram-se obrigados, por diversas vezes, a desmarcar-se das decisões políticas do Syriza mas, na verdade, nunca deixaram de estar ao lado do Syriza.

Esta semana, Marisa Matias voltou à Grécia para um encontro do Partido da Esquerda Europeia onde esteve presente o mesmo Alexis Tsipras que nos dias anteriores havia estado como observador num encontro dos socialistas europeus. O mesmo que aperta a mão ao genocida Nethanyau enquanto firma acordos com Israel. Uma vez mais, as palavras dizem uma coisa, as acções mostram outra. Foi assinado um documento conjunto contra a expulsão de refugiados da União Europeia ao mesmo tempo que Tsipras encabeça um dos governos que pede a deportação rápida de milhares de pessoas que fogem da guerra.

É certo que o BE não tem culpa pelo que decide ou não o Syriza mas este é o mesmo partido que tentou por diversas vezes obrigar o PCP a condenar o regime angolano. Quem conhece as posições do PCP sobre Angola sabe que nunca escondeu as diferenças que existem entre o que os comunistas portugueses defendem e aquilo que defende o governo angolano e o MPLA. Mas o respeito pela soberania do povo angolano sem ingerências externas é um princípio que o PCP defende de forma inquestionável.

Quando saltou o tema de Luaty Beirão para as manchetes dos jornais portugueses, o BE tentou aproveitar-se do caso e chegou a acusar uma vez mais o PCP de não estar à altura dos acontecimentos mesmo quando os comunistas haviam apresentados moções em defesa da salvaguarda dos direitos dos vários grevistas de fome. Sabendo que é forte a empatia ideológica entre o BE e o Syriza, a relação de proximidade de anos, os comícios conjuntos tanto na Grécia como em Portugal, a solidariedade mútua durante as campanhas eleitorais, sabendo de tudo isso, quando é que o BE vai condenar o regime grego pela expulsão de milhares de refugiados para a Turquia?

20 comentários:

  1. Sem dúvida, tudo o que está aqui escrito é verdade, mas (no presente momento) é melhor estabelecer pontes à esquerda, do que criar divisões.
    É preciso não esquecer que, nesta altura, temos uma direita radical na oposição que precisa de ser combatida. Pela entrevista dada por Luís Montenegro à rádio, procuram o apoio presidencial para mais uma tentativa de assalto ao poder. Por isso, é preciso procurar a união entre as esquerdas.
    Não esquecer que esta direita é agressiva, violenta, descarada, mentirosa e ainda tem a comunicação social do seu lado. Caso existisse um desentendimento no acordo parlamentar em vigor, a comunicação social apoiaria o regresso de Passos Coelho ao poder.
    Sabemos o que isso custou ao país nos últimos 4 anos.

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  2. O problema já é de índole psiquiátrica. O PCP sempre muito preocupado com o BE (os votinhos e mais nada!) em detrimento da direita. Eu dispenso patrões da classe operária. Tanto mais quando trazem a reboque coisas como o centralismo democrático. Que bom a pluralidade à esquerda! Enquanto não resolverem assuntos complicados como a Coreia do Norte, não vejo como possuam autoridade moral para abrirem a boca. É preciso ter alguma autoridade moral no domínio das relações internacionais, coisa que o PCP manifestamente não possui.

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    1. tal e qual o filho do meu patrão quando quer fugir à conversa quando lhe digo que o sifão da casa de banho está emtupido ou avariado ou quê. fala de tudo menos do assunto em causa
      alias, o gajo fala tambem no estaline. esqueces-te ou ainda estás a tirar o curso?

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    2. *entupido
      esqueceste-te

      (assim não perdes tempo a chamar-me de analfabeto)

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    3. Existem muitos pontos que unem o PCP ao BE. Talvez, fosse melhor discutir esses pontos que nos unem, em vez de criar mais atritos. Não esquecer que a direita avança sempre que a esquerda encolhe.

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    4. "Enquanto não resolverem assuntos complicados como a Coreia do Norte,"

      Ó badameco, quem tem um assunto complicado para resolver com a Coreia do Norte é o imperialismo, que quer entrar e não consegue.

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    5. Caríssimo, ser filho do patrão é, como se comprova acima, o teu caso. Para discorrer sobre esta e sobre outras temáticas é necessário primeiro possuir autoridade moral e política, coisa que o PCP não tem. Exemplo mais recente: «Luaty Beirão: Parlamento rejeita condenação da prisão de ativistas. PSD, CDS e PCP votaram contra. Votos dos socialistas, bloquistas, ecologistas e do deputado do PAN não foram suficientes» - DN, 31/3/2016. Aqui: http://www.dn.pt/portugal/interior/caso-luaty-beirao-parlamento-rejeita-votos-de-condenacao-da-prisao-de-ativistas-5103292.html

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    6. (continuas sem falar no estaline,só por isso me mereces algum respeito, no resto és um artolas)
      sabes nada ou o teu mundo não é o meu. tricas partidárias não me interessam nada , a prática política essa sim.chegados aqui o que tenho observado é que o tempo tem dado sempre razão às posições do pc mesmo quando eu não as entendi na primeira hora, o resto é foguetório para enganar os ingénuos.
      cumprimentos ao siryza, ou lá o que é

      ía esquecendo o filho do meu patrão até é um tipo porreiro. defende os seus interesses, eu defend os meus. é por isso nos damos bem
      já libertaste a síria?

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  3. Tanto rancor traz água no bico. O BE é cócó reformista das classes intermédias, certo. Mas o que é o PCP?

    O objectivo deste texto é apenas um: voltar a meter verniz no PCP, esse "férreo" e """""comunista""""" partido que está agora a apoiar o PS. "Isto está a perder a cor vermelha pá!!!" e lá vai o Bruno pôr verniz para compor o folclore. No fim não haverá verniz que esconda a dura realidade, e o Bruno acabará a militar num BE chamado PCP.

    Procurar nas coisas triviais da luta legalista, qualquer coisa que distinga esta malta dos social-democratas do BE? Boa tentativa! A verdade é que o PCP é um partido tão reformista, legalista e pacifista como o BE.

    Outro problema é que o BE apenas demosntra jogar melhor em termos institucionais e mediáticos na democracia burguesa. Ó Bruno, isso não é um problema, isso são os dados de partida. O que pode afinal distinguir o PCP, se este aceita as regras dum jogo que não pode ganhar? A pressão será sempre para adaptar o partido às próprias necessidades do jogo burguês.Sendo que este é o único jogo que o PCP quer jogar. Estás a queixar-te de quê?

    Estás a fazer birrinha porque apareceu no bairro um jogador melhor. Neste caso concreto, o menino amuado nem tem a possibilidade de pegar na bola e levá-la para casa. Estás-te a queixar de ti próprio.

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    1. Eis um texto que exemplifica o carácter reformista de quem o escreve. Misturado com o paleio exaltante sobre o cócó e sobre a trampa, assume nas entrelinhas a sua admiração pelo jogo do BE na democracia burguesa.
      Está no fundo a fazer uma birrinha e qual miúdo amuado avança incontido contra quem não lhe recolhe os dotes de futebolista da treta e quem não lhe respeita o emblema do clube que venera. Adivinha-se mais. Adivinha-se o ódio burguês de classe.

      Aqui há dias um coitado duma espécie de provocador tentava fazer chicana usando nomes duma forma que fazia lembrar os delactores de outrora e de sempre. Como se estivesse a jogar esse tal jogo burguês na companhia dos media que admirava e referia. Como se assumisse para si a garganta funda dos pescadores de águas turvas em processo de birra.Isso mesmo daquela birra que agora esconjura.

      Terão semelhanças curiosas. Um diz que vive em Paio Pires. O outro em...Pires Paio?


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  4. Só mais uma achega:

    "Quem conhece as posições do PCP sobre Angola sabe que nunca escondeu as diferenças que existem entre o que os comunistas portugueses defendem e aquilo que defende o governo angolano e o MPLA. Mas o respeito pela soberania do povo angolano sem ingerências externas é um princípio que o PCP defende de forma inquestionável."

    Bruno, isto é cócó contra-revolucionário. Senão, por extensão de argumento, qualquer discussão sobre política internacional seria "ingerência", O próprio internacionalismo proletário é ingerencista.

    É óbvio que os comunistas vão ingerir-se na vida política dos diferentes países. A luta revolucionária a isso exige. Ou se tu condenares a deportação de refugiados na Grécia não estás a cometer a maldita ingerência?

    A relação do PCP com o MPLA é de outra natureza...

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  5. Cuba é uma ditadura, a esperança que despertou em toda a ESQUERDA a revolução cubana, há muito que se esvaiu. Angola é o que todos sabemos, e o BE é o ÚNICO partido português que põe os pontos nos is. Sobre a América do Sul no caso concreto da Venezuela, não é exemplo para nenhuma esquerda, um regime caudilhista, com algumas preocupações sociais , e com um presidente meio tonto. Sobre o Brasil e o golpe em preparação pela direita aí não há dúvida. Sobre a Ucrania, tanto é grave o que se passou em Kiev como o que se está a passar na Crimeia, mas isso é difícil de entender para quem tem talinhas. E agora sobre o Syriza, é lógico que qualquer cidadão de ESQUERDA, não sectário, se entusiasmou com vitória do Syriza nas eleições gregas, como depois se indignou com a chantagem da Uniao Europeia sobre o governo Grego, e se desiludiu com a capitulação do governo grego, coisa que é difícil de entender para o PCP, que está sempre disposto a defender invasões, ditaduras, desde que os regimes sejam amigos, vide China, Coreia do Norte, Cuba , Angola ou a Rússia , mas ser de ESQUERDA não é isso. Como não é de ESQUERDA, afirmar que o denominado estado islâmico, e os seus actos terroristas, são fruto das políticas de direita dos governos europeus, em suma o PCP e o BE têm duas visões distintas do que é a ESQUERDA.

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    1. «no caso concreto da Venezuela, não é exemplo para nenhuma esquerda, um regime caudilhista, com algumas preocupações sociais , e com um presidente meio tonto»

      Interessante, porque esta é precisamente a visão da direita sul-americana.

      Quando não se tem coisas para dizer, normalmente faz-se o papel de tonto e o Augusto conseguiu-o com perfeição.

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    2. O BE é o único partido patati-patata.

      Infelizmente o dito sobre o posicionamento oportunista do BE na arena internacional é a mais pura da verdades.
      Infelizmente o BE contribuiu para o abate da Líbia e para a situação presente que nos encontramos.
      Infelizmente o AUGUSTO debruça-se sobre tretas e replica o ódio que a direita tem para com a Venezuela ou Cuba. Mas silencia oportunamente as atrocidades dos seus amigos no médio oriente e no norte de África.
      Sobre a Rússia e a China falaremos depois,embora se adivinhe que AUGUSTO subscreva a posição do governo americano de condenação da tomada de Palmira ao EA pelos sírios.

      As "talinhas" têm destas coisas.
      Mas por agora basta

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  6. E essa é também a visão de qualquer cidadão de ESQUERDA, que não tem talinhas. A INCOMPETENCIA, do Maduro, não pode nem deve ser escamoteada, a situação que hoje vive a Venezuela não pode servir de exemplo a nenhum cidadão que aspire a uma sociedade mais justa. Mas enfim , como já escrevi , para certa gente, a China , Cuba , Coreia do Norte, a Angola, Venezuela , e porque não o Irão e a Russia, são exemplos de sociedades a caminho do " socialismo" se a tontice pagasse imposto.....

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    1. Homem, os seus textos dariam sucesso na imprensa mais retrógrada venezuelana, senão mesmo cubana, chinesa, angolana e russa.
      Direi mesmo que mais perfeito como literatura contra-revolucionária e tonta, não existe.
      Já tentou publicar os seus textos na «Nova Arrancada»?

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  7. «A INCOMPETENCIA, do Maduro, não pode nem deve ser escamoteada, a situação que hoje vive a Venezuela não pode servir de exemplo a nenhum cidadão que aspire a uma sociedade mais justa»

    Precisamente, o contrário do que pensam os cerca de seis milhões de venezuelanos que apoiam Maduro.
    Se o «choné» do Augusto estivesse com atenção às notícias e lesse sobre a Venzuela pelos canais alternativos (e não pela imprensa contaminada, ex: Público e afins), outro galo cantaria.

    Infelizmente, pessoas como o Augusto adoram este pequeno sentimento patético de pensarem que estão a dizer «grandes» verdades, quando (sem saberem), apenas são meros papagaios dos donos da comunicação social (quase todos amigos de Portas e Passos Coelho).

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  8. Seria útil um entendimento entre o PCP e o BE, com via a fazer cartazes políticos contra a direita.
    Os dois partidos têm mais em comum do que aquilo que os divide.
    Na verdade, aquilo que os divide são apenas conceitos de política internacional e meras palavras.

    Esta direita portuguesa é uma ameaça às vidas de muitos portugueses. Basta ver o que fizeram nos últimos 4 anos.
    São muitos os casos de suicídio e de gente que (por falta de cuidados de saúde), estão hoje com cancro. Basta fazer uma visita ao IPO e constatar a desgraça em que nos encontramos, fruto das políticas desse patife, chamado Passos Coelho.
    Na verdade, deveria ser Passos Coelho e todo o seu bando, a ser perseguido pela comunicação social. Em dele e do seu «gang», falam de Sócrates e Lula da Silva.
    Uma vez mais, a direita esconde-se dos seus crimes, tal como fez durante o governo de Durão Barroso e Santana Lopes.

    Daí, a necessidade de entendimentos à esquerda.

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  9. Depois de ouvir o que Eduardo Agualusa disse onte, no canal (comprado) da SIC Notícias...

    Se o PCP vive em estado de negação, tu, ó Eduardo Agualusa, vives em estado de aldrabão.

    Seria bom ouvir a opinião do BE acerca dos comunistas que estão preso na Ucrânia, ou dos presos por direitos humanos nos Estados Unidos da América, de Leonard Peltier, de tantos outros que estão presos (por direitos humanos)... Porquê tanta revolta acerca de Angola? Será que a opinião do Bloco é igual àquela que teve no caso da Líbia, em que condenou Kaddafi, mas não condenou o bombardeamento criminoso de Sirte?

    Infelizmente, o BE parece-me uma casa de oportunistas e carreiristas, tal como é o PSD, tudo numa onda de «esquerda».

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