O estrebuchar bafiento de Cavaco

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

Estrebuchando até ao último suspiro ao sabor de antigas amizades, embalado e motivado por afinidades partidárias e ideológicas, e fazendo tudo isto com aquele seu típico travozinho de pessoa vingativa e provocatória, Cavaco Silva continua a distribuir umas quantas honrarias públicas por uma casta de gente que nada de positivo deu ou trouxe à democracia ou ao país. Muito pelo contrário. Há poucos dias, assistimos à entrega de medalhas a ex-ministros dos governos de Passos Coelho e Paulo Portas, não nos poupando Cavaco ao desprazer e nojo, para não dizer pior, que foi vermos um suposto “garante” da Constituição premiar aqueles que, nos últimos anos e de forma sucessiva e reiterada, mais atentaram contra a lei fundamental do Portugal democrático.


O 25 de Abril foi apenas ontem, e aquilo que o 25 de Abril matou demora a enterrar
Como se isso por si só não tivesse bastado, e porque ainda vai havendo tempo para Cavaco continuar a distribuir mordomiazinhas e rebuçados pelos amigalhaços de ontem e de hoje, o país foi agora confrontado com a condecoração dessa patusca e fantasmagórica figura de nome António de Sousa Lara. Alguém que a própria sociedade, de uma maneira geral, se encarregou – e bem – de desvalorizar e esquecer, a que o próprio correspondeu com um muito proveitoso e higiénico exílio público, aliás de salutar, é agora trazido desde as profundezas do obscurantismo cavaquista, do que de pior o cavaquismo teve, sendo recuperado à luz do dia – e sem vergonha alguma – das gavetas cerradas de um acto de censura que envergonhara, envergonha e envergonhará o país sempre que se fale de José Saramago.

O 25 de Abril foi apenas ontem, e aquilo que o 25 de Abril matou demora a enterrar. Até que a necessária inumação se faça, e se faça de vez, o cadáver continuará por aí, sob vários nomes, títulos e cargos, a infestar o ar da democracia. Cada pazada de terra será sempre pouca e leve para o mal que nos fizeram. Cada minuto que passa sem o enterro do “antigamente” é uma hora de avanço no regresso a esse passado abjecto de dor e miséria. Vivemos e enaltecemos aquela bela madrugada, mas urge, urge muito, o “dia inteiro e limpo” que está ainda por nascer.

6 comentários:

  1. Depois do inefável Guterres de má memória ir perorar para umas jornadas do PSD, Costa, que foi ostracizado por Cavaco e vilipendiado pelo PáF, resolve dar uma mãozinha ao actual PR para presidir a um Conselho de Ministros suportado pela chamada "geringonça". A não ser que tal convite tenha o sabor da vingança servida fria.

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  2. Folgo em saber que vivemos em democracia, fora senão vivêssemos.

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  3. A cerimónia onde Cavaco condecorou Gaspar Castelo Branco, vítima das FP-25 de Abril, foi igualmente obscura.
    Cavaco Silva é hoje a maior figura da contra-revolução do 25 de Abril de 1974.

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  4. Brilhante texto do Ivo Rafael Silva. Vou reproduzi-lo.

    Cristiano Ribeiro

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  5. Ainda hoje, na antena 1, ouvi uma fulana chamada Helena Garrido, a propósito do tema orçamento, dizer que o Costa estava em campanha eleitoral: Pasmei; ela, porém, esclareceu que, face aos apoios paralamentares actuais, o Costa tem que se preparar para novas eleições! Não queria acreditar, mas tudo isto denota que estamos perante uma teia conspirativa que chega a todo o lado: até à bafienta directora do Económico.

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  6. Bom texto!
    Apenas duas observações: 1) Para inumar algo, é necessário e conveniente que a coisa esteja realmente morta e bem morta - e este neofascismo passeia-se por aí, impante, muito por conivências sujas e de proveniências várias (domésticas e europeias); 2) O PR há pouco eleito não deverá convocar novas eleições "assim, às primeiras" - antes disso e já desde a noite eleitoral que trabalha para a reaproximação dos irmãos desavindos, PDS e PS, com assinalável sucesso, diga-se, se atendermos aos posicionamentos parlamentares recentes do primeiro e às presentes declarações reconciliatórias e de apelo "ao diálogo" por parte do segundo.

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