Blocobuster

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

Há várias formas de atrair a atenção para vários assuntos. Normalmente, as melhores campanhas são as que não são consensuais, que geram aquilo a que se chama "buzz", que significa agitar, fazer com que se fale de um determinado produto. Ontem, o Bloco decidiu apresentar um cartaz em que afirma que Jesus também tinha dois pais. A imagem, feita a partir de um "meme" com 300 anos que circula na internet desde que há ficheiros JPG, pretende isso mesmo, criar "buzz", aproveitando o Bloco para surfar na crista da onda da sua mediatização. Sou ateu e comunista, creio que faz de mim insuspeito quanto a religiões e à simpatia que nutro por elas, que é nenhuma. Sejam elas quais forem.

No entanto, há vários disparates na iniciativa do Bloco, que começa por celebrar uma liberdade individual provocando outra. E isso não pode fazer-se. E mais grave ainda, não pode fazer-se apropriando-se de uma luta que foi tremenda e esteve longe, muito longe, de ser apenas uma luta que envolveu o Bloco: envolveu pessoas e o seu direito a fazerem o que bem entendem com a sua vida. Exactamente o mesmo que faz quem quer ou precisa de acreditar num ser espiritual.

A História, toda ela, demonstra-nos que não há direitos assegurados. Os povos lutam para consegui-los e têm uma tarefa ainda mais complicada, que é defendê-los, como vimos ainda recentemente em relação ao retrocesso civilizacional que era a nova lei da IVG, aprovada por PSD-CDS com a bênção de Cavaco.

Devíamos todos saber que as lutas pelas liberdades, sejam elas quais forem, não são um sprint, são corridas de fundo, longas e difíceis. O que o Bloco faz é festejar a vitória da passagem aos 5km nos mais de 42km que compõem uma maratona.

Depois, para quê trazer a religião, seja ela qual for, para esta discussão? Recordo-me muito bem de ter ido, com outros camaradas, distribuir panfletos a favor da despenalização da IVG - quando o Bloco ainda achava que os direitos fundamentais se referendam - à saída da igreja de Leça, depois da missa de domingo. E de sermos muito bem recebidos e de recolhermos apoios que seriam bem surpreendentes, se fossem revelados.

Isto para dizer que as igrejas, enquanto instituições, não me merecem o mínimo respeito. São, de facto, máquinas de manipulação e alienação das massas, como também a História nos demonstra. Mas, para lá das instituições estão as pessoas e não pergunto a alguém que esteja do meu lado na barricada se reza virado para Meca ou ajoelha para o terço. É o campo das liberdades invioláveis que cada um tem de ter. Tal como a sexualidade, também a espiritualidade diz respeito a cada um de nós.

Demonstrado que está o disparate, creio que é legítimo concluir que o Bloco conseguiu o que queria: criou o "buzz" e é falado. Se isso será bom ou mau para o Bloco, é-me indiferente; que não trouxe nada de bom à luta pelas liberdades individuais, pela igualdade e contra o preconceito, tenho a certeza.

8 comentários:

  1. Sou católico e comunista. Além disso, faço parte daquele grupo a que se resolveu (talvez por uma certa conveniência de acomodação das coisas) chamara de intelectuais. As questões de fé tal como as da sua absoluta negação, são por um lado de carácter dogmático (não se demonstra, pelo mero recurso às nossas ferramentas intelectuais, a existência ou inexistência de Deus como verdade insofismável) e, por conseguinte e resumindo, estamos no domínio da mais pura liberdade intelectual: um Estado que deve ser laico e um culto que deve ser de quem o pratica e nele se revê. A Igreja-instituição, é um produto humano que tem um rasto de comportamentos que vão do pouco dignificante ao abjecto em certos momento da sua história. Nada disto impede ou invalida, que milhões de pessoas professem uma fé religiosa que, como escreveu Cunhal já nos anos quarenta ou cinquenta (porque há sempre quem esteja um passinho à frente dos movimentos fracturantes) apenas tem que ser respeitada e ponto final. O cartaz do BE não é um cartaz contra coisa nenhuma: é um cartaz do vivaço da turma, do engraçadinho que gosta de dar nas vistas porque se julga assim mesmo: engraçadinho e com necessidade de ser visto. O tempo é que há-de selar o destino desta topa fandanga, que para lá do palavreado (oco, muitas vezes) é uma bela muleta do capital, por muito que alguns sectores possam ainda não ter reparado nisso.

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    1. "que para lá do palavreado (oco, muitas vezes) é uma bela muleta do capital"

      É por isso que o BE, ao contrário do PCP, decidiu viabilizar um governo do PS.

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  2. Sim, o cartaz do Bloco pode ter sido uma ajuda para o capital, mas também fez reagir o que há de mais conservador na sociedade portuguesa, desde Negrão do PSD, a Pedro Mota Soares do CDS-PP (irritado com o cartaz, e assim branqueando a sua passagem pelo poder, como ministro).
    A nossa sociedade precisa de romper com o seu passado católico, apostólico e hipócrita; com a herança histórica da inquisição, essa instituição que oprimiu e reprimiu sexualmente as pessoas. A inquisição e a sua mentalidade, defendida e encarnada por seres tão complexos e obscuros, como Pina Manique, Dom Miguel, o próprio António de Oliveira Salazar que governou o país durante quarenta anos.
    Esta mentalidade castradora que, hoje, passou para o lado daqueles que defendem e impuseram a austeridade no país, do PSD e CDS-PP, os maiores hipócritas da nação.
    É necessário romper com esta sociedade católica, inquisidora e castradora que reprime a sexualidade no homem, na mulher, no casal; que vai ao ponto de ir ao subconsciente do ser humano, de modo a que o próprio extinga a sua sexualidade e, com isso, extinga a sua vontade de ser.

    Por mim, o cartaz foi importante para que os répteis desta sociedade, tais como Negrão e Pedro Mota Soares, viessem cá para fora, para mostrar a face.

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    1. Pois isso é que gente como o criminoso Negrão ou o falso beato Mota Soares gosta, uma história da treta para desviar as atenções das barbaridades que a direita cometeu.

      Este acto do BE só demonstra a pouca confiança que esta organização merece.

      A.Silva

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  3. Amigos, concordo em absoluto, com o priemiro comentário, do camarada - comunista e cat+olico. Na sociedade, cada um deve assumir o que de mais intímo tem, nomeadamente, nas suas dúvdas e na sua fé, Afirmo aqui, peremptoriamente, que sou ateu e não acredito na existência de Deus. Não tenho é o direito de ferir os sentimentos de cada um, brincando com patetices e criando celeumes artificiais que, ao invés de trazer gente para a luta, a desvia, sentindo-se ofendido nos seu sentimentos. Discutir a igreja, nesta altura é estar a arranjar um inimigo e a dar razão aos que nos combatem. É minha convicção que jamais se conseguirá acabar com a fé religiosa de quem a tem, atenta a natureza finita do homem e a sua fragilidade perante a vida.
    Cartazes como o que aquela gente publicou só ajuda a desviar a atenção dos problemas fulcrais, pondo na agenda mediática questões laterais.
    Mais teria a dizer, mas evito para não acirrar uma discussão estéril que gente que se convence dona da verdade precisa, tentando, por outro lado, minar o equilíbrio que tentamos manter num momento tão delicado da nossa vida política.

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  4. Para além da reacção da direita representada por Negrão e Pedro Mota Soares ao cartaz, temos também aqui:

    http://henricartoon.pt/catarina-arrependida-987844?view=6598596#t6598596

    Um cartoon da autoria de Henrique Monteiro (da Sapo), desenhando Catarina Martins no papel de Maria Madalena (possivelmente, chamando um nome sujo a Catarina Martins, sabe-se lá...)

    De resto, os desenhos desta personagem estranha chamada Henrique Monteiro (e que censura os comentários que não gosta), são sempre contra o novo governo de António Costa (Henrique Monteiro, desenha-o com lábios grandes, à semelhança do que faziam ilustradores racistas norte-americanos, belgas e franceses), contra Jerónimo e Catarina Martins.

    Eu sei que o BE tem falhas, mas o que dizer das reacções de uma direita capaz de actos absolutamente desprezíveis?

    JN

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  5. Esta campanha do BE feriu as susceptibilidades dos hipócritas deste país que vêem na imagem de Jesus uma espécie de salvação suprema.
    Não toleram o sentido de humor, nem a crítica.
    Atrofiam, reprimem, castram sexualmente os seres humanos, desde muito cedo, em prol de uma imagem beatífica que não existe.
    Os herdeiros da inquisição desgostaram desta campanha e estão lívidos.
    Podem até vender imagens com sexo, ou com mulheres nuas nos cartazes, mas tocar em Jesus? É sacrilégio, como dizem eles.

    Aceito a campanha e não me ofendo diante dela.

    JN

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