As regras do jogo

terça-feira, 26 de janeiro de 2016

Se aceitarmos fazer uma partida de xadrez a jogar com 16 peões de pedras pretas contra um adversário que joga com o conjunto regular de pedras brancas, não podemos gritar surpreendidos "ah, mas tu tens uma dama!" quando os nossos peões tombarem às investidas da táctica adversária.

Assim é connosco, comunistas, que aceitámos participar numa luta nas conhecidas e não fáceis condições que o domínio dos grandes grupos económicos nos impõe. Quando decidimos, cada um, individualmente, iniciar o nosso percurso nesta marcha pelo futuro, já sabíamos que o presente não nos daria tréguas, já sabíamos que as forças do colectivo a que nos estávamos a ligar não tinham amparo nos jornais, nem nas televisões, nem nas rádios. Quando nos comprometemos com a luta dos comunistas, já sabemos que dependemos estritamente das forças do nosso colectivo.

Os comunistas não se queixam da falta de atenção que a comunicação social lhes dá. Os comunistas denunciam a propriedade e a missão da comunicação social, não para justificar as insuficiências do seu colectivo partidário, mas para ilustrar o quão poderosas são as forças do inimigo.

Os comunistas também não se iludem quanto à "inteligência" colectiva do povo e dos eleitores. Não se trata de haver gente que anda a dormir. Pelo contrário, o sinal de que os portugueses estão acordados é o facto de responderem aos estímulos que recebem. Quinze anos de estímulos a entrar pelas nossas casas adentro, fazendo de um líder do PSD, repentinamente, o Sr. Professor. Muitas horas de estímulos a menorizar e secundarizar outros candidatos, entre os quais, o comunista Edgar Silva.

A questão é relativamente simples: algum de nós seria comunista se em algum momento das nossas vidas não tivéssemos conhecido o Partido? Se em algum momento não nos tivéssemos cruzado com o PCP, ou com os seus militantes ou materiais de difusão e divulgação, teríamos desse partido a imagem que nos é oferecida por terceiros. Isso faria de nós "gente adormecida", "burra", menos inteligente?

Não, faria de nós gente. Gente como toda a gente. Que é o que somos.

Tivemos a "sorte", a vida permitiu-nos, o Partido conseguiu, no nosso caso, romper as barreiras, furar o cerco, e chegar a nós. De uma forma ou de outra.

São assim as regras do jogo em que decidimos participar, voluntariamente porque a vida nos mostrou um caminho que entendemos como compulsivo por força da consciência social. E nessas regras, somos os peões de pedras pretas contra todo um arsenal. Não dependemos de convencer o adversário da nossa bondade, mas de redobrar os nossos esforços, melhorar a táctica, defender sem cedência a estratégia, unir as forças. Levar o Avante! a quem nunca o viu. Organizar na defesa dos seus interesses quem nunca lutou. Levantar primeiro a cara perante as injustiças. Ser o exemplo junto dos colegas de trabalho.

Romper o cerco, com as regras que aceitámos à partida. Até que pelos trabalhadores sejam feitas novas regras. Até que a ditadura dissimulada dos monopólios seja suplantada pela democracia dos trabalhadores.

9 comentários:

  1. Aonde o Edgar Silva era conhecido quase chegou a 20% dos votos, logo a seguir ao candidato mais conhecido de todos. Na Madeira Edgar teve muito mais votos que a CDU.

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  2. Amigos, sem embargo de entender não ser de menosprezar a tribuna mediática que os inimigos dos trabalhadores nos cedem no período eleitoral, o nosso trabalho é muito mais valioso do que o que aparece no voto.

    Não vou concorrer com o artigo, mas quero-vos deixar algumas reflexões que não são despiciendas.


    A nossa inserção social - autarquias, sindicatos, comissões de tranbalhadores e outras intervenções políticas e sociais têm um efeito e uma importância que nenhuma carinha "laroca" (sabonete ou detergente, perfume ou outro qualquer produto de marketing)apaga.

    O trabalho abnegado a semneteira que todos os dias e aos poucos vamos lançando nas mentes, vão colhendo frutos e só alguma tempestadae mediática, de vez em quando, prejudica a colheita, mas a espécie, o trabalho árduo, sério, empenhado e constante, mantém-se e vivifica a cada curva da vida - despedimentos colectivos, injustiças sociais, ataques sexistas e xenófobos, guerras imperialistas que cinicamente encontram espaço para o "ter pena". Fazem os refugiados e depois, tenham pena deles.

    O Edgar - permita-me o amigo que assim o trate - demosntrou ser um homem corajoso, inteligente e sério. O trabalho e a vida deste homem, em prol dos outros não se compara a nenhum dos outros candidatos. A sua vitória é a nossa vitória que não se mede em número de votos.

    Muito mais teria a dizer, mas há algo que mostra a nossa força e razão, bem como a nossa implantação: O silêncio que os inimigos nos votam, a promoção publicitária dos "esquerdas" de aviário, o que não quer dizer que no momento actual não sejam úteis, porém, é só medir o tempo de antena que têm, a promoção que têm e até o espaço televisivo que é dado ao Louçã, para percebermos o medo que têm de nós.

    Só a nossa razão e capacidade colectiva ainda nos mantém vivos e a grande história não se faz num ano, nem numa vida.

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  3. Penso q n podemos comparar resultados eleitorais. A forca do pcp assusta pois e a unica forca que pretende mudar o sistema.
    Toda esta conversa dos resultados para pr, e uma (das muitas) armadilhas q nos irao estender...
    Pergunto mais uma vez pq nao foi a esquerda com 1 so candidato???? Pq se esperava pela 2a volta?????
    Houveram muitos votos que em legislativas vao pra pcp e que agora foram para sampaio da novoa!
    Sabem que mais,camaradas! Nao lhes liguem e continuem a fazer o trabalho colectivo na ar conjuntamente com os outros partidos!!!!
    Boa sorte, coragem e sabedori!!!! O que eles querem sabemos nos...

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  4. Há outro aspecto que temos que os deixa sempre inquieto (quando me refiro a «eles», são os nossos adversários, é claro): nós temos a força interior e a auto-estima suficiente de continuar com a luta - sempre!
    Podemos tombar num dia, mas no outro estamos de pé e vivos, sempre alerta.
    Somos participativos e temos esperança na humanidade.

    Ao contrário, quando «eles» tombam é sempre muito tarde que se endireitam. Ficam remoídos, indecisos, comidos e fingidos.

    Nós somos a luz que eles não conseguem apagar.

    JN

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  5. Boa, Miguel. Com este texto e o comentário na AR do outro dia tas a fazer uma boa semana:
    "[···] até quando é que os senhores diputados vão andar de comissão de inquêrito em comissão de inquêrito a esconder que o problema é o capitalismo."

    Mas é preciso coragem interna dos quadros. É preciso mudar o arriscado rumo da colaboração de classe em nome do interesse nacional. Honestamente estou a ter medo de que em Portugal aconteça mesma coisa do que aconteceu na Espanha, Itália, França... Porque isto de apoiar à socialdemocracia contra a "direita" não é novo, e sabes disso.

    Álvaro Trabanco

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  6. "Romper o cerco, com as regras que aceitámos à partida."

    Aceitámos quem? Eu não aceitei porra nenhuma.

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    1. Este comentário foi removido pelo autor.

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    2. Sim. O facto de vocês se quererem prostrar perante a legalidade burguesa e recusar que todas as formas de luta estão em cima da mesa.. isso é problema vosso.

      Isso são mais do que questões subjectivas. São questão materiais de classe.

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  7. Sem contar com o circo mediático à volta do Tino de Rans, não é?

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