A música que não cabe nas televisões

terça-feira, 12 de janeiro de 2016


Tão longe dos holofotes dos media como dos top musicais, há quem faça da música parteira do mundo novo. São os netos de Woody Guthrie, de Victor Jara e de Zeca Afonso. Ao contrário da pop não é a forma que determina a eficácia do disparo e até o alvo é diferente. Da garganta e dos instrumentos, é o conteúdo que funciona como gatilho. Ninguém se importa com o penteado do 'O Zulù, uma das vozes dos 99 Posse, como ninguém se importa com o que veste o Alex dos Inadaptats. As ideias acima da estética. Não são alvo da histeria adolescente e a sua obra não caminha aos ombros da indústria discográfica.


Esta é uma realidade que se atravessa ao longo do espectro artístico. A pornografia dos valores está presente do cinema à música e da arquitectura à literatura. A arte como explicou Vladimir Maiakovski não é um espelho para reflectir o mundo. É antes um martelo para forjá-lo. É isto que não interessa aos que comandam os destinos das nossas vidas através do poder económico e financeiro. A ideologia dominante é a ideologia da classe dominante. Nada de novo. O estrelato está reservado para quem não questiona o sistema e, sobretudo, para quem o defende atacando as alternativas criadas. Para os outros, há o alçapão da história. Que é escrita pelos vencedores. Até começar a ser escrita por nós.

15 comentários:

  1. «O estrelato está reservado para quem não questiona o sistema e, sobretudo, para quem o defende atacando as alternativas criadas.» É bem notório o caso de David Bowie.

    A sua carreira é complexa, estranha e totalmente virada para o egoísmo. Não existem quaisquer dados sobre campanhas de David Bowie pelos direitos humanos ou por povos que fossem sujeitos à violência da guerra. Não existem declarações de Bowie sobre Gaza, Iémen, Iraque ou até mesmo o Vietname.

    Igual a Bowie, existe o exemplo do cantor irlandês Bono, dos U2. Este foi ao ponto de aparecer numa campanha de promoção de um jogo de computador, onde se bombardeava a Venezuela de Hugo Chávez. O próprio apareceu ao lado de Tony Blair e George W. Bush. Nada disse em relação ao crime da ocupação do Iraque.

    Onde estava o ídolo que cantou «In the name of love»? Talvez, o mais apropriado seria cantar, «In the name of war».

    Num concerto, em Hyde Park, no ano de 2014, os Black Sabbath, com o seu primeiro vocalista, Ozzy Osbourne, tocaram e cantaram a música «War Pigs». Antes do aparecimento deste grupo em palco, várias imagens foram projectadas para que o público pudesse distinguir quem eram os «porcos da guerra». Entre eles, Bin Laden, Hitler... até que apareceram imagens de Fidel Castro na Sierra Maestra. Os produtores deste espectáculo tentavam confundir o público, dando a entender que Fidel também era um senhor da guerra. Por ventura, Ozzy Osbourne também foi amigo de George W. Bush. O presidente americano terá sido um dos principais adeptos do «show» televisivo de Ozzy com a sua família.

    A morte de Bowie servirá para vender mais artigos e para iludir quem o não conheceu na realidade. Para os que o conheceram e sabem da miséria que Bowie significa na cultura britânica, fica a mensagem de pêsames de David Cameron no seu «twitter», tentando camuflar a desgraça que aquele país vive actualmente.

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    1. Falando contra a possibilidade do ex-canceonetista David Bowie ter sido um génio revolucionário apraz dois ou três juízos que não são de anódinos dada a projeção da figura em si. Convém então salientar que Bowie, nos seus diversos panoramas musicais (atenção que Bowie nunca foi musico) – concebe atmosferas que ultrapassam em muito as dúbias interpretações sobre misticismo ou os seus incoerentes pretextos de absolvição à posterior. Não tenho formação musical, contudo alimentar a aura sopeira da natividade jornalística que lhe foi amanhando a carreira com epítetos revolucionários é de tal modo impositivo para os verdadeiros revolucionários que fizeram musica na justa correspondência que tem a produção artística com a vida, opções pessoais e posições politicas tomadas pelos mesmos. Em Bowie as colações com a superestrutura do consumo e exaltação do uso de estupefacientes é já em si o retrato decadente de uma juventude alienada, subproduto da mediocracia musical contra revolucionária ocidental do final dos anos 70 que haveria de levar Bowie (o neo-nazi) aos tops comerciais (do mais comercial possível) já na década de 80 (e olha como eu me lembro tão bem das coisas – sem desculpas). Foi Bowie que foi detido em Berlim Oriental com memorabilia nazi, não Zeca Afonso (esse um génio) ou Carlos Puebla que cantaram a liberdade . Foi Bowie que afirmou que "a Grã-Bretanha bem que poderia de beneficiar de um líder fascista”, não José Dias Coelho pintor comunista que caiu às mãos da PIDE. Foi Bowie que fez com as suas mãos a saudação nazi, não Victor Jara, a quem cortaram as mãos e assassinaram, curiosamente oficiais Chilenos, muitos, que saudavam da mesma forma Augusto Pinochet. Na tentativa de defesa de Bowie os argumentos pautam-se pela desculpabilização da pessoa dado o génio da obra. Ora no caso: a pessoa não é desculpável nem a obra tão genial. Fazer crer que as drogas e a produção artística são salvatério para uma personalidade que: por um lado conseguia composições musicais (ditas de altor teor filosófico e cultural – revolucionárias) associadas ao nazismo e à extrema-direita, que afirmou que as fez, que foi julgado por tal é ilibar um pária que poderia ter optado precisamente pelo contrário sem a covardia de se mascarar imputável atrás dos seus alter-egos. Não há qualquer conteúdo de classe na música de Bowie. David Bowie, a horda órfã da sempre mui burguesa e retratada geração de 68 ( que haveria de repercutir hábitos e costumes tão nefastos nas gerações futuras) é a antítese do porte e da desova ideológica-revolucionária produzida tanto por artistas estrangeiros e nacionais que nunca tiveram direito a homenagens. Que nunca por fascistas se fizeram conhecidos.

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    2. Muito bem, Vlad!
      Gostei muito de ler o seu texto.
      Na verdade, Bowie foi conhecido por achar que Hitler era um «pop star». Poucos conhecem o episódio com a «groupie» Lora, ex-namorada de Jimmie Page, bem como a estranha morte do irmão, Terry.
      Há muitas dúvidas em relação a Bowie, mas estou de acordo consigo e felizmente o Vlad aparece com um texto genuíno e rico.
      Os meus parabéns!

      JN

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    3. Este comentário foi removido pelo autor.

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  2. Na verdade é muito arrogante vir desdenhar um músico pelas suas posições políticas. "Não tenho formação musical" - está dito! Eu não conheço o trabalho todo do Bowie, mas o pouco que conheço posso garantir que: se no contexto actual o fraco fosse Bowie estaria a dar pulos de contente, era sinal que estávamos muito desenvolvidos.
    Desenganem-se! Apesar de atitudes ou não-atitudes relativamente a questões políticas isso é uma questão dele. E facho há muito na música! Mas a música que ele faz é arte...e a arte eleva-nos o pensamento, estimula-nos - claramente uma ferramenta de esquerda. Já do pimba não podemos dizer isso...

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  3. O Bowie não era um activista político, mas era certamente um activista social: naquela Inglaterra cinzenta, onde os Beatles tinham cabelo comprido, a sua colorida e exuberante presença causou um choque de mentalidades que abriu precedentes a toda a cultura pop que se seguia.
    A estética é também uma arma e aquela, naquela época, nada tinha de mainstream - a androgenia, a aura de homossexualidade e a sexualidade livre nunca foram do agrado da burguesia. No entanto, os putos gostavam, e sentiam-se livres, e a liberdade será sempre a melhor arma de luta. Não foi o Bansky que disse que assim que libertaram um campo de concentração houve presas a pedir baton, como força da sua vida, da sua individualidade, vaidade a amor-próprio?
    O penteado desse gajo de que falas é um statement daquilo em que ele acredita, o que só reforça a minha posição: a estética é fortíssima! Vale imenso e diz um mundo.
    E já agora convenhamos, um mundo onde só vale a teoria e a luta de classes é um mundo cinzento e repressor, profundamente chato, onde não há lugar para igualdade, nem para a liberdade, nem para a felicidade. No fundo, é o triunfo da burguesia - Pensa nisso ;)

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    1. Quem escreve este tipo de texto, é porque não conhece o verdadeiro David Bowie.
      E depois, quem escreve coisas como: «um mundo onde só vale a teoria e a luta de classes é um mundo cinzento e repressor»...
      Mais se assenta num mundo de ilusão do que num mundo de realidades, compreensíveis... ou não.

      Enfim, a tristeza e a miséria de textos como a de «Unknown» ou «ZéBroas» é a imediata contraposição ao excelente texto de «Vlad».
      Por mais que a mediocridade tente, nunca será capaz de ultrapassar a excelência.


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    2. Bowie um activista social? Em que aspecto? Pode dar exemplos?

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  4. «...a sua colorida e exuberante presença causou um choque de mentalidades que abriu precedentes a toda a cultura pop que se seguia. »

    Um enorme exagero.

    É pena que este «Unknown» medíocre não venha aqui responder por estas afirmações que são do mais absurdo já alguma vez escrito sobre David Bowie.

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  5. Um enorme exagero é colocar as coisas com duas cores...o sim e o não. Por esse pronto de vista Wagner ou de Messiaen eram uma porcaria. Wagner porque era um defensor dos ideias nazis e Messiaen porque era extremamente religioso. Não, recuso-me a aceitar isso, recuso-me a dar rótulos às pessoas dessa forma. Era melhor se fosse o Zeca, Um Lopes-Graça, ou uma Brigada, ou um Rage? Não... simplesmente cada um teve a sua função e fê-la de uma forma muito meritória. Para mim problema social é educacional e cultural. Isso não se resolve só com artistas de opinião política interventiva... resolve-se com todos, incluindo a irreverência do Bowie.

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    1. "Wagner porque era um defensor dos ideias nazis"


      Richard Wagner

      22 May 1813 – 13 February 1883



      Mein Kampf 1925-26

      Hitler sobe ao poder: 31/01/1933

      Broas e das grandes

      Abel pereira da Fonseca não...


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  6. Hitler was born tchannnnnnnnn

    1889

    Portanto Wagner o musico "zandinga" defendia o nazismo muito antes de Hitler nascer, um bom dado histórico sem duvida

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  7. Zé Broas, no seu melhor.

    Fica a dúvida se Zé Broas faz parte dos apoiantes de Vitorino Silva... «Ka p'ra mim, o Wagner era um defensor das ideias nazis. Pimba!»

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  8. Espetacular!!!! Palminhas!!!

    A questão é tão simples como isto: eu até podia estar enganado com um facto histórico, que não estou, mas, mesmo que estivesse, merecia respeito pela minha opinião. Esse respeito passa por contra-argumentar a ideia imposta. No entanto o Vald prefere vir com chico-espertices e o anónimo porta-se como um cãozito todo contente atrás do dono a abanar a cauda e mandar uns latidos para receber a festa.

    Gostava de ter ouvido uma coisa realmente nova face ao que disse, porque a discutir é que a gente se entende, e tal não aconteceu. Deixa-me triste! Deixa-me triste porque no nosso partido não é assim que as pessoas se comportam. Toda a pessoa tem o direito a discordar e a fazer com que tal ser discutido! Gosto de ler este blog mas duvido que volte a comentar... não estou para isto!

    Ah, já agora, larguem a matemática (porque sim, o 3 vem depois do 2 e antes do 4) e agarrem-se à história e à cultura para perceberem o que disse:

    http://www.dw.com/pt/pesquisadores-apontam-proximidade-ineg%C3%A1vel-de-wagner-com-hitler/a-3512777

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  9. E Zé Broas amuou e disse: «Já não brinco mais com vocês!»
    Pronto.
    Ainda por cima, ficou triste. Muito triste.
    Dá para assoar o nariz?
    Talvez.



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