Requiem por Cavaco

terça-feira, 24 de novembro de 2015

O anúncio da morte política de Aníbal Cavaco Silva não é nitidamente exagerado. Cavaco teve hoje, dia 24 de Novembro de 2015, a poucos meses da sua saída formal e com a indigitação de António Costa como primeiro-ministro, o seu último acto de relevo enquanto agente político neste país. E há que acentuar isto mesmo, a sua faceta enquanto político, de que ele tanto hipocritamente se quis afastar nos últimos anos e da qual nunca obviamente poderia fugir. Foram vinte anos de Cavaco, e vinte anos de Cavaco é muito tempo. Dez anos como primeiro-ministro, dez anos como presidente da República e, todavia, nenhum como estadista, nenhum como digno e imparcial representante do povo português. Foi, isso sim, um fiel serventuário do capital e um intrépido defensor do primado do poder económico e financeiro sobre a democracia e sobre os valores nascidos de Abril. Cavaco foi a lança de todo um histórico frentismo empresarial e institucional – que começa no PSD e acaba nos banqueiros e empresários monopolistas – que sempre logrou ajustar contas com um passado que, "tenebrosamente", ameaçava não dar tréguas ao sistema de exploração, repressão e indignidade que sempre deu tanto a uma dúzia de privilegiados e tão pouco à esmagadora maioria do povo.

Dos grandes desperdícios de fundos à criminosa liquidação produtiva nacional, tudo constituiu um longo e doloroso desastre económico e social do país
Cavaco personificou um certo regresso ao passado e uma certa esperança de que tudo voltasse a ser como o «bom velho antigamente». Foi a inspiração – e daí a explicação para muitos dos votos que foi tendo – de todos quantos desejavam o renascimento, ou o regresso, da figura austera de mandante supremo e sagrado de um Portugal «à deriva». O soturno “professor de Coimbra”, o “economista” de ar grave e disciplinado – e disciplinador, se pudesse – que veio espevitar em muito boas almas, finalmente, esse fascismo contido, guardado a sete chaves, desde aquela malvada madrugada de Abril de 1974.

Foram vinte anos de Cavaco, e vinte anos de Cavaco é muito tempo. Dos grandes desperdícios de fundos à criminosa liquidação produtiva nacional, tudo constituiu um longo e doloroso desastre económico e social do país, que faz de Portugal hoje um pobre cão-de-fila do capitalismo e do imperialismo, domesticado, obediente, subjugado, ainda vergado a blocos militaristas e a desastrosos ditames da banca europeia e mundial.

Ainda que consciente de que por morrer esta andorinha não se acaba a primavera do capital, nem sequer aquilo que Cavaco personificou ou personifica, longe disso, permito-me hoje, ainda assim, partilhar um sentimento que é de profunda satisfação. Esperava-o e desejava-o há muito. A ira que, assumo, sempre senti face a Cavaco Silva em particular, aprofundada e radicalizada – se quiserem – com o tratamento mesquinho e vingativo em tempos dado a homens como Salgueiro Maia ou José Saramago, aos próprios e à sua memória post-mortem, foi crescendo de dia para dia, acompanhando toda a escalada de cinismo que a esse propósito Cavaco não deixou de pôr em prática sobretudo enquanto presidente da república.

O desaparecimento político de Cavaco, a sua retirada de todo e qualquer poder institucional, é para mim sinónimo de sincera satisfação. Não para festejos, até porque o rasto de destruição é demasiado largo para tal. Mas hoje é de assinalar e de ter presente que pelo menos “este” já não faz mais mossa. Adeus! Cavaquismo, nunca mais!

3 comentários:

  1. Um reles ser abjecto, digno representante da direita portuguesa, medíocre e mesquinha.

    A.Silva

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  2. Realmente 20 anos de cavaco é demais!!! sempre cinico e oportunista. mas, parece-me, que não vai ficar por aqui!
    acho mesmo que vai vetar tudo o que represente progressismo.

    a ver vamos...

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  3. Dos três qual deles o mais bandido? Mais oportunista? Mais ladrão? Pois até que enfim chegou a hora de por fim ao Cavaquismo e seus lacaios? Viva Portugal viva a democracia portuguesa Viva a Liberdade!

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