Crónica dos dias negros

quinta-feira, 5 de novembro de 2015

As eleições foram há um mês e um dia. Falou o povo, o PS decidiu responder ao apelo da esquerda e, entretanto, meteram-se ao barulho o Cavaco, os banqueiros, a direita mais conservadora e saudosista, comentadores e opinadores, no Expresso e no Observador, com particular incidência, com as suas três mãos: duas agarradas à cabeça e uma a bater no peito, em defesa dos superiores interesses da nação.
Nas televisões, a generalidade dos comentadores avisa para a desgraça dos mercados, a fragilidade de um possível acordo do PS com a esquerda e meia-dúzia de maluquinhos criam eventos no facebook para darem as mãos e saírem à rua contra qualquer coisa que ninguém sabe muito bem o que é.

Cavaco entrou em pânico e convidou a minoria parlamentar a formar governo, mesmo sabendo que será chumbado, deixando de lado a estabilidade política e os mercados - outra vez os mercados. Paulo Rangel, de braço dado com o seu colega no Parlamento Europeu, Francisco Assis, vão lançando avisos para as tempestades que se avizinham.

Pelo meio, Cristas levanta-se e revela-nos que foi buscar inspiração a Jesus para ser ministra e Calvão da Silva - valha-me deus, que a chuva no Algarve é o criador a colocar-nos à prova - de fato completo e galochas. Foi obra do senhor, que ainda chamou um octogenário para a sua beirinha, tão bom e misericordioso, e o pé-de-meia para um segurozinho, talvez a piscar o olho à ala de ressabiados do PS, que devemos ter sempre algum de lado para uma necessidade, como se o nosso quotidiano não consumisse toda a nossa necessidade.

O dono dos jornais diários de Viseu, Leiria, Coimbra e Aveiro assina um editorial em que avisa para o perigo comunista e assume o combate aos vermelhos, que medo, que nos vêm tirar tudo. Bem vistas as coisas, só tem medo que lhe tire alguma quem tem alguma coisa para ser tirado. E a esmagadora maioria da população não tem.

A direita pinta os dias negros, a comunicação social faz-lhe eco, ou oco, como preferirem, contra tudo aquilo que devia ser o jornalismo. Ontem mesmo, lia-se por todo o lado que os refugiados que chegarão a Portugal terão médico de família e isenção de taxas moderadoras. Os jornalistas, sem conhecerem ou procurarem conhecer a lei de asilo e o estatuto do refugiado, e nós, o povo, pequeninos que somos, enchemos o peito de brio para os que são ainda mais pequenos que nós e dizemos que não pode ser, e os nossos, os nossos pobres, que ainda há uns dias eram os malandros que viviam à custa do rendimento mínimo, sem quererem trabalhar, malandros, a viver à custa de quem trabalha, como eu.

Sem percebermos que nós é que estamos mal, que aceitamos não ter médico de família como se fosse normal, e pagamos tudo e mais alguma coisa porque nos dizem que tem que ser assim, que pagamos ou temos o abismo, quando o Ricardo Salgado, coitado terá a sua reforma aumentada para o triplo. O mesmo Salgado a quem o agora ministro Calvão da Silva, valha-me deus, atestou a idoneidade.

Ao final do dia, o Expresso titulava que, caso o PS forme governo, os funcionários públicos seriam aumentados quatro vezes no próximo ano, quando o que deveria dizer é que os roubos nos salários de que foram vítimas seriam repostos, ainda que sem retroactivos.

Que PSD e CDS entrem em pânico por perderem os lugares, mesmo apesar das nomeações em catadupa que surgiram antes das eleições, para boys e girls de toda a espécie e feitio, é uma coisa; que haja órgãos de comunicação social que se prestem ao seu serviço, é vergonhoso, mas, ao que parece, também e coisa que não abunde por aqueles lados.

Que PSD e CDS pintem os dias de negro, é uma opção, que a comunicação social esteja, descaradamente ao seu serviço, é um negro diferente, um negro triste, um negro cinzento tão pobre, tão sem nada que faz lembrar os anos em que só à força do lápis azul era possível travar a verdade. Os tempos são outros, os lápis são cinzentos, como são cinzentos e negros os interesses que se movem em alguns meios dos nossos órgãos de comunicação.

5 comentários:

  1. Se esta vertigem política não nos trouxesse mais nada - mas trás - haveria elo menos um ganho que já ninguém nos tirava: muita ratazana foi obrigada a saltar do esgoto e guincha agora atarantada pela luz do Sol, disposta a ferrar o dente infeccioso em tudo que encontre. É preciso usar de todos os meios para garantir a esperança e isso passa, nesta luta desigual, por saber que não há quartel e que o combate só termina com a vitória.

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  2. Parabéns pelo artigo, de grande assertividade e clareza.

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  3. Este comentário foi removido por um gestor do blogue.

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  4. Julgo que este é o tempo de mudança, tal como foi em 25 de Abril de 1974.

    Pedro Passos Coelho e Cavaco Silva fazem parte do mesmo espírito que, em tempos, habitou dentro do invólucro de António de Oliveira Salazar (o mesmo cinismo e crueldade).

    Se o ambiente continuasse com PSD e CDS-PP no poder, a democracia teria os dias contados, pois esta foi feita por gente libertada de um pesadelo.

    As pessoas que se libertaram de um pesadelo tão grande, como foi aquilo que existiu no país, entre 1926 e 1974, foram capazes de bastante generosidade que resultou na democracia mais avançada da Europa. Esta mesma não pode estar nas mãos de gente cruel, cínica e hipócrita que todos os dias, através dos seus sorrisos fictícios, atentam contra a liberdade dos cidadãos e da paz pública.

    Não podemos voltar aos tempos da miséria que Salazar ditou neste país. Por isso, é tempo de mudança.

    Que estes novos tempos de mudança tragam um novo ritmo às nossas vidas e novas canções.

    Que haja novo teatro, nova música e literatura verdadeira.

    Que atirem para o rio esse fantasma reservado e fingido de Fernando Pessoa e, por favor, devolvam-nos Camilo Castelo Branco, Almeida Garrett, Alexandre Herculano, Aquilino Ribeiro e tanto outros escritores que foram esquecidos à conta de um só escritor que nada tem a ver com o nosso país e os nossos escritores.
    Que nos devolvam a poesia (sem Pessoa)!

    Que venham os tempos de mudança e que atirem com esta seita hipócrita bem para o fundo do Tejo.

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