A honra de um banqueiro não serve como garantia.

terça-feira, 15 de setembro de 2015

Exercício:

o Estado português pede 10 milhões emprestados aos bancos portugueses, com juros de 2%. Ao mesmo tempo, e para que a economia tenha financiamento num contexto em que o país não emite moeda, o Estado português assume-se como fiador dos bancos portugueses em mais 10 milhões. Os bancos portugueses conseguem assim, junto da banca alemã e francesa, obter 20 milhões de euros com juros abaixo dos 1%.

Desses, 10 milhões são para comprar dívida pública portuguesa e os restantes 10 milhões são para empréstimos a privados. Ora, desses 10 milhões, a banca empresta aos seus accionistas e empresas associadas cerca de 7. Esses accionistas e essas empresas consomem o capital e não pagam. Contudo, os juros cobrados pelos 10 emprestados ao Estado e às famílias e PME a quem emprestaram os 3 milhões restantes são suficientes para gerar um fluxo de liquidez que assegura o pagamento.

Isto passou-se assim anos a fio até que o crédito vencido na banca portuguesa atingiu mais de 30 mil milhões de euros. Nesse contexto, os bancos estrangeiros aumentaram brutalmente os juros da dívida pública. Aqui é que a operação não é compreendida por muitos.
Então vejamos: a banca privada é que se endividou acima das suas capacidades e consumiu capital com os seus próprios accionistas e empresas em seu nome, a maior parte sedeada em paraísos fiscais. No entanto, os bancos que emprestaram dinheiro aos bancos portugueses sabem que os bancos portugueses andaram a esbanjar e que não vão poder pagar o que pediram emprestado, apesar de as famílias, PME e Estado pagarem ou terem as dívidas contra garantias (casas, propriedades, obrigações, garantias pessoais do Estado, etc.). Como o fiador dos bancos, quer através da dívida pública colocada, quer através das garantias dadas à banca, é o Estado, o Estado por essa via sofre directamente os custos do risco de financiamento da banca privada.

Mas mesmo nos casos em que a dívida não esteja garantida pelo Estado, ou em que não haja dívida pública colocada, os bancos estrangeiros sabem que o Estado não pode permitir uma falência bancária e, como tal, faz reflectir nos juros do financiamento do Estado a possibilidade de o Estado ter de financiar bancos privados. Ou seja, quando os bancos estrangeiros vierem cobrar as prestações, querem a totalidade. Se não estiver na banca privada, está no Estado. É um investimento seguro e faz disparar juros da dívida pública apenas porque ela engloba o risco do privado.

Genial, não é?

O Estado não está a honrar os seus compromissos, está a honrar o dos banqueiros. E da honra de um banqueiro não há fiador que aguente os custos.

5 comentários:

  1. Não percebo o primeiro parágrafo. Onde é que os bancos arranjam 20 milhões de euros? 10 tomam de empréstimo a bancos estrangeiros, fiado pelo Estado português. Mas e os outros 10? O que se diz na primeira frase é que emprestam ao Estado, não que tomam de empréstimo. Podia esclarecer? Gostava mesmo de perceber.

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    1. Li melhor, já percebi, acho eu. Obtêm 20 milhões dos bancos estrangeiros, dos quais o Estado português fiou 10.

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    2. Como é que um estado pode criar riqueza, desta maneira?
      Parece tudo um jogo de casino. Estes tipos (do género Portas e Coelho) já entram para o estado, com via a mexer no dinheiro e que acaba por para nas mãos dos banqueiros.
      Se fosse em 1793, Teixeira dos Santos, Catroga, Gaspar e Maria Luis de Albuquerque, já tinham o seu lugar reservado na guilhotina.

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  2. «Esses accionistas e essas empresas consomem o capital e não pagam», eis o pressuposto de um chorrilho de asneiras.
    Onde está a luta para levantar a suspensão do artigo 35º da Lei das Sociedades?
    E os défices do Estado e das empresas públicas? E a promoção da casa própria? Não são esses os motores do crédito e do casino que pode associae-se-lhe?

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    1. E como não poderia deixar de ser, o comentário do habitual «Jose». O homem(ou mulher) não para.
      E como não podia deixar de ser, também, a iliteracia (e não ileteracia) do costume. Desta vez, espalha-se ao comprido com «associae-se-lhe».

      O «associae-se-lhe» é de ver muitas vezes o filme «High Society». De tanto ver, cada vez que tenta conjugar o verbo associar, diz «associ-high» e não «associar».

      Infelizmente, é assim, com o «Jose».

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