Sem alternativa à economia de mercado? por Maurício Castro

quarta-feira, 15 de julho de 2015

Assim de contundente foi o líder da alternativa eleitoral ao bipartidarismo espanhol vigorante, em declaraçons recentes ao The Wall Street Journal. Num ataque de sinceridade que deveríamos agradecer, Pablo Iglesias afirmou que “nom há umha verdadeira alternativa à economia de mercado”.
Umha sentença que dá continuidade a um pensamento constante nas diversas correntes de pensamento defensoras do sistema em vigor. Talvez a mais conhecida e divulgada tenha sido nas últimas décadas a do filósofo japonês Francis Fukuyama, pensador da direita neoliberal, no seu best seller do fim dos anos 80: “O fim da história”. Eram os tempos da queda do chamado campo socialista no leste da Europa. Lembram?

Porém, na verdade, a origem desse pensamento remonta nada menos que ao maior filósofo do pensamento burguês nascente, a cavalo entre os séculos XVIII e XIX: Georg Wilhelm Friedrich Hegel, que o formulou, inspirando-se na ascensom das ideias de progresso trazidas primeiro pola Revoluçom Francesa e depois pola extensom do império napoleónico frente ao esmorecimento do Antigo Regime. O genial filósofo idealista alemám afirmava que a monarquia liberal e democrática traria o equilíbrio final em que a civilizaçom mais avançada, a europeia e burguesa, atingiria o fim da história sob um Estado situado por cima das classes e representativo de todas elas.

Bebendo da inesgotável fonte hegeliana, mas também ultrapassando o seu idealismo, outro alemám, Karl Marx, conseguiu desmontar, com base no rigor analítico e na evidência histórica, essa tese do velho Hegel, situando o Estado burguês e o modo de produçom capitalista nos termos reais que lhes correspondem, como mais um entre os diferentes que já tenhem existido na história da humanidade, sempre ao serviço da classe dominante em cada modo de produçom.

Como as anteriores, a conceçom do mundo burguesa carateriza-se pola autoconsideraçom como a melhor, a definitiva e a única possível. Tal como no interior das sociedades escravistas ninguém tinha dúvidas sobre o seu caráter universal e eterno, também o feudalismo se caraterizou por idêntica autoconsideraçom, até um e outro serem ultrapassados polo desenvolvimento das suas contradiçons internas num desenrolar histórico das capacidades e necessidades humanas por cima dos espartilhos impostos polas relaçons sociais de cada época.

Umha versom espanhola e vulgarizada da mesma ideia de Hegel e Fukuyama foi também formulada, como sabemos, polo presidente Felipe González: “Vivemos no melhor dos mundos possíveis”, afirmou o principal artífice da incorporaçom do Estado espanhol a um neoliberalismo cujas conseqüências padecemos em toda a sua crueza.

Sintomaticamente, Pablo Iglesias, o líder carismático que está a encarreirar os indignados para o rego da institucionalidade pró-sistema, também afirma agora o seu compromisso com a conceçom do mundo burguesa-capitalista, que como todas as anteriores é considerada a única possível, universal e eterna, mesmo em plena crise terminal como a que vivemos.

A importáncia dessa afirmaçom nom está na curiosa equiparaçom com os dous antecedentes referidos: Fukuyama e González. O verdadeiramente relevante é o significado dessa leitura da realidade política sobre a qual operam Pablo Iglesias e o seu novo partido: o capitalismo é insuperável e, portanto, só cabem políticas compensatórias das suas intrínsecas desigualdades e injustiças. A redistribuiçom da riqueza, os subsídios aos setores excluídos e a “democratizaçom” de um sistema de exploraçom inevitável.

É essa, no fundo, umha aberta identificaçom com os restos do que historicamente foi a social-democracia. Um movimento que a inícios do século XX aspirou a um progresso linear que conduzisse ao socialismo através do desenvolvimento progressivo e mundial do próprio capitalismo. Que mais tarde deixou atrás o objetivo socialista para se conformar com umha razoável democratizaçom e distribuiçom da riqueza no centro capitalista, numha miragem que pareceu real durante as décadas de Estado de Bem-Estar a cujo fim agora assistimos.

Com aquela social-democracia convertida definitivamente em social-liberal, as lideranças neo-reformistas do movimento indignado levantam o punho para reclamar o retorno a 2007, antes do rebentamento da atual crise. Eis o programa de Podemos e, no nosso país, das candidaturas cidadanistas que tam bons resultados obtivérom nas recentes eleiçons municipais.

Nom som relevantes as diversas doses de boa vontade ou oportunismo que podam alimentar essas iniciativas críticas de esquerda reformista. O relevante está na declaraçom de parte que agora Pablo Iglesias verbaliza com a sua frase: “nom há alternativa à economia de mercado”.

Podemos e o chamado cidadanismo, tal como o seu referente grego, Syriza, assumem a conceçom de vida burguesa e a impossibilidade material de quebrar a lógica mercantil-capitalista, hoje representada para nós, como galegos/as, polos poderes institucionalizados na Uniom Europeia, na NATO, na uniom monetária e no Estado espanhol.

Com essa limitaçom autoimposta, nada de substancialmente diferente à decadente barbárie capitalista poderá vir, como nunca véu, da mao de quem nom aspira a ser nada mais que a sua consciência crítica.

*Autor Convidado
Maurício Castro, membro do Colectivo Editor do Diário Liberdade e militante da esquerda independentista galega

15 comentários:

  1. Não há alternativa ao modo de produção capitalista?
    Claro que há. O exemplo da Coreia do Norte está aí para comprovar existir alternativas.
    O que seria justo é dizer que a alternativa não vale o papel em que é descrita.

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    1. Ano passado Cuba estava a três posições de ultrapassar Portugal no Índice de Desenvolvimento Humano das Nações Unidas, esse bastião de propaganda pró-comunista. Há dias, titulava o jornal online dos liberais apaniguados do "Compre-me isso, Portugal" (lembram-se?): «Cuba: o primeiro país a eliminar a transmissão do VIH de mães para filhos» - http://observador.pt/2015/06/30/cuba-eliminou-transmissao-vih-maes-filhos/

      Poderia falar nas experiências na URSS de Lenine e Estaline, que merecem ser melhor investigadas, estudadas e criticadas, e que conduziram a grandes avanços a que só o retomar e aprofundar das relações mercantis puseram termo, pós-"Problemas Econômicos do Socialismo na URSS", com Khrushchev - https://www.marxists.org/portugues/stalin/1952/problemas/

      Mas os Joses preferem continuar a falar da Coreia do Norte, ocultando o facto de que na "democrática" Coreia do Sul a ideologia comunista está proibida e de que vai para cinco décadas que o sul da península está sob ocupação, perdão, auxílio norte-americano :')

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    2. Cuba é também um bom exemplo do modo de produção não capitalista; mas tem demasiados 'ses' de vitimização para merecer uma referência objectiva.
      De objectivo tem a miséria generalizada com um padrão de saúde e literacia notável. Chega?
      Quanto aos sucessivios desastres da economia soviética basta-me o horror associado à sua implementação. a perene ficção estatística que a serviu e a continuada paranóia militarista que a todo tempo a informou.

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    3. Os PIBs de alguns países da União Europeia que agora também "estimam" o contributo de negócios (ainda que ilícitos) como a prostituição e o tráfico para o "crescimento económico" incluem-se também na categoria «perene ficção estatística»?

      A ida da primeira mulher ao espaço incluiu-se também na categoria «perene ficção estatística»?

      A queda brutal do nível de vida das camadas mais baixas após a dissolução (contra a vontade manifesta da maioria dos povos soviéticos no referendo de 17 de março de 1991 que, dizem os "entendidos" das agências "não-governamentais" de promoção dos valores da democracia e direitos humanos, a saldo dos EUA, apenas em certas regiões do globo quando bem interessa, foi o "primeiro comprovadamente livre") da URSS, inclui-se também na categoria «perene ficção estatística»?

      A vitória do Exército Vermelho, apetrechado apenas graças ao esforço dos povos soviéticos na tão vilipendiada industrialização acelerada (sem auxílio de nenhuma espécie das potências "liberais-democráticas".antes pelo contrário), sobre as hordas nazis inclui-se também na categoria «continuada paranóia militarista»?

      «Miséria generalizada» e «padrão de saúde e literacia notável» não são uma antinomia?

      Poderia continuar com as perguntas, mas, como é "esforçado", "meritocrático" e dinheiro não lhe falta para pagar explicações e propinas, já sei que teve aprovação no teste :')

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    4. Entretanto o capitalismo foi substituir o Socialismo e resolveu tudo de mal que por lá existia ?

      A efemera fição das suas estaticas caiem num sopro porque só sabem mentir.

      A paranóia militarista destroi uns e revigora outros. É isso que pretende dizer?

      Face ao desastre (A TODOS OS NIVEIS) provocado com a reintrodução do capitalismo nos países do Leste da Europa , nem precisou uma década para demonstrar a superioridade do Socialismo.

      Todos os padrões sociais e de desenvolvimento estagnaram ou regrediram.
      Em alguns desses países uma percentagem significativa da população as condições de vida mergulharam para niveis Terceiro Mundista.

      Esta é logo uma das principais razões que legitima a superioridade do Socialismo em relação ao capitalismo.









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  2. Este comentário foi removido pelo autor.

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  3. A mais esclarecedora resposta foi dada pela vergonhosa chantagem e humilhação que a dita "economia de mercado" impôs à Grécia, mostrando a verdadeira face de uma Europa dominada e controlada pelo capital financeiro parasitário e decadente.

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  4. José e «J.» num pequeno número de circo ou de teatro. «José» e «J.» são a mesma coisa reaccionária. Um e o outro fazem parte apenas de um cérebro nazi, adorador do holocausto e até admirador de Pinochet e de Pétain.
    «José» e «J.»... ou uma fraude que tenta sempre vender neste blog do manifesto.

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    1. Acho que sim. Os IPs são os mesmos, etc., ou se não são o anónimo com certeza desencantará uma nova teoria informática inspirada na teoria política dos dois extremos, etc.

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    2. «J.» ou «José» são a mesma coisa ranhosa, deficiente e porca de direita atrasada mental.

      Vai dar banho ao cão!

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  5. ... voltemos ao que interessa: REVOLUÇÃO!!!

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    1. Viseu: https://soundcloud.com/r-dio-rebolux-o

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  6. 2% do PIB da UE em crise cria 98% de expectativas de que se arruine a UE. Notável!

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    1. É tão infantil a mente que está por detrás dos comentários de «J.» e «José».

      Escreveu um comentário às 19:50. Depois, esperou 44 minutos para escrever outro comentário, desta vez, em nome de «José», só para que os leitores deste blog não viessem pensar que um e outro são a mesma coisa...

      ...a mesma coisa estúpida, paranóica e parva que teima em escrever num blog que não lhe diz respeito nenhum.

      Tenho impressão que este imbecil que dá pelo nome de «José» ou «J.» também está no «you tube»... um infantil, idiota, parvo que não tem ideias nenhumas.

      Aliás, nunca vi idiota tão grande que desperdiçasse tanto do seu tempo a escrever num site que não lhe diz respeito. O tipo deve «sado-maso» ou completamente invertido.

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  7. O diálogo entre «J.» e «José» ( a mesma pessoa ), é das coisas mais patéticas e ridículas desta caixa de comentários. A mesma mente perversa e medíocre diz mal de Cuba e o mesmo, após alguns momentos, reforça igual posição.
    Às 16:08, a mente por detrás do diálogo, deixa ficar um comentário. Deixa o computador por 15 minutos, para fumar um cigarro, para depois deixar outro comentário às 16:23.

    Simplesmente, ridículo e patético.

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