O Estado da Nação

quarta-feira, 8 de julho de 2015

O país recuou mais de uma década. O poder de compra dos portugueses regrediu a níveis comparáveis com o dos anos 90. Os direitos laborais degradaram-se e mais de um milhão e duzentos mil portugueses estão no desemprego, mesmo após o êxodo forçado de cerca de meio milhão, principalmente de jovens qualificados.

A produção cultural contraiu-se num fechado núcleo de estruturas que tiveram condições para fazer frente à asfixia financeira ou que ainda conseguem obter uma das migalhas que sai do bolso da DGArtes. O apoio do Estado à produção cultural nunca foi tão baixo em democracia.

A cultura cada vez mais se resume ao papel de adorno social e estético de uma pequena-burguesia que, apesar de tudo, está em decadência.

O emprego nunca foi tão precário. Ou melhor, precário sempre foi, mas nunca houve tão pouca compensação pela precariedade do vínculo.

Os salários representam a menor fatia do rendimento nacional de que há memória, sendo apenas comparável a sua proporção ao que se viveu nos tempos do fascismo.

A Ciência e a Tecnologia venderam-se ao mercado das publicações ao quilo, e os laboratórios do estado foram substituídos por unidades que disputam projectos atrás de projectos como se de projectos e financiamento concorrencial vivesse o progresso.

A Universidade e o Ensino, em poucos anos, abandonaram a formação da cultura integral dos indivíduos e passaram a ser espaços de treino onde se formam as peças da engrenagem capitalista, dotadas de aguçadas competências e rombos conhecimentos.

O aparelho produtivo converteu-se num nichozinho de exportações, onde não há lugar para a agricultura familiar, as pescas e a produção industrial.

As empresas públicas foram entregues para posterior desmantelamento, empacotamento e remessa para o estrangeiro.

Milhares de portugueses alinham nas filas para as sopas e a lata de conserva pagas por outros portugueses no supermercado com sede no paraíso fiscal.

Os corredores dos hospitais têm número de cama atribuído nos sistemas de gestão hospitalar e os velhos encostam a solidão nas paredes das alas de urgências, paga a devida taxa moderadora.

O ambiente e as nossas riquezas naturais são lavrados gananciosamente por quem tenha dinheiro para seduzir o governo, seja chinês ou canadiano. De resto, os aerogeradores inflam a factura da electricidade que paga IVA à taxa normal e decoram a paisagem abandonada das reservas e parques naturais.

Os pobres não pagam. Não pagam mas também não andam. Com a agravante de ser o Governo dos ricos a ditar quem é pobre, fixando o limiar da miséria cada vez mais abaixo da linha da sobrevivência.

Os trabalhadores portugueses, já sem horários e pagamentos extraordinários, empobrecem a trabalhar ao invés de poupar.

Os tribunais despacham em catadupa os processos dos ricos enquanto fecham as portas a quem não qualifica como isento na taxa de justiça.

As forças policiais caem lestas sobre os trabalhadores em greve, mas não os protegem nos seus bairros nem nas suas ruas.

Os portugueses suportam cerca de 8 mil milhões anuais com gastos do serviço da dívida e mais 20 mil milhões de amortizações de capital. O Governo corre a substituir esses pagamentos por nova dívida e apresenta-se contente por ter conseguido comprar mais produtos financeiros no mercado dos abutres.

A pátria dos governantes resume-se à bandeira nacional que usam na lapela como marca registada do produto que vendem aos seus donos.

Independentemente da retórica que hoje faça sorrir os títeres parlamentares do capitalismo, independentemente da troca de palavras e ideias e de quem "ganhe" o debate e convença mais portugueses da sua bondade, a prática é o critério da verdade. E este é o estado da nação.

É o Estado construído à imagem dos caprichos da agiotagem e da usura, um Estado repressivo e opressor, que usa a força e a lei para desviar a riqueza dos portugueses para os manipuladores de marionetas que riem de bandeiras nacionais à lapela e do folclore das democracias. É esse Estado que Abril proibiu e eles reconstroem que nos põe, a 8 de Julho de 2015, no estado a que isto chegou.

5 comentários:

  1. "A pátria dos governantes resume-se à bandeira nacional que usam na lapela como marca registada do produto que vendem aos seus donos."

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  2. O pin que usam na lapela diz o seguinte: Queres vender o país? Pergunta-me como.

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  3. Que horror!
    Que pavor!
    Que despautério!
    Isto de os credores quererem cobrar os créditos é inadmissível!
    Capitalistas obscenos que se recusam a financiar um tão auspicioso 'rumo ao socialismo'.

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    1. Que trabalho este de "jose" /JgMenos.Que pieguice esta pelos agiotas e usurários agora amigadamente chamados de"credores".Que ternura pelos abutres e pelos seus dejectos que avidamente disputa para uso pessoal
      Quando jose defendia a fuga aos impostos por parte do soares dos santos e companhia.Quando JgMenos se ufanava que o rombo do BPN era de pouca monta.Quando justificava as acções de Salgado por este ter sido previamente roubado. Quando aplaudia os Swap do cavaco, da canalhada em geral , da sua albuquerque porque eram "negócios necessários"Quando defendia o relvas por este estar a a ser enxovalhado Quando resfolegava com os negócios do colonialismo em Angola justificando o saque pelo direito do branco a dominar... em todas estas ocasiões onde estava a pieguice do jose ?

      Mais: Quando se rouba o salário, as pensões, as reformas,onde pára a sua pieguice perante as dívidas que estes são credores?

      A luta de classes , pois

      De

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  4. ... às vezes tenho pena de não poder votar mais que uma vez!!!
    a confiança no projecto social que o PCP defende deve ser divulgado de todas as formas. Os carros devem andar na rua divulgando esse projecto!! nos meios de comunicação social não podemos/devemos confiar, daí vamos à Rua!!
    estamos em campanha!!!

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