Ser escritora no país da austeridade, por Ana Margarida de Carvalho

segunda-feira, 15 de junho de 2015

9 Série "Ser no país da austeridade"


Escrever em tempos de cóleras e outras pestilências

Parece que, na Grécia antiga, ir ao teatro era tão importante como um dever de cidadania. Por isso o estado atribuía subsídios para que ninguém faltasse. Dizia-se que os professores ensinam as crianças e os poetas os adultos.


Hoje o Estado facilita imenso o estado a que isto chegou. Esta tendência para a carneirada, para o seguidismo, esta cultura do facilzinho, da imitação, da repetição, da réplica, da náusea, da recapitulação, do volta atrás e toca o mesmo, do lugar-comum, do óbvio, do estafado, das descobertas da pólvora…

Mais uma corrida, mais uma viagem. Instituiu-se o «temos de dar ao povo, aquilo que o povo quer». Ouçam as massas. Sejam democráticos. Sejam indulgentes, acolham a apatia, nivelem por baixo, escrevam coisas que toda a gente perceba, com o vocabulário corrente, tricotem frases, alinhavem parágrafos, alinhem palavras, falem sobre amor e pores-de-sol, sobre areais imensos e águas retemperadoras, sobre gins à beira da piscina e sushis (a malta gosta imenso de ler sobre comida), e que não lhes falte o paraíso tropical. Não compliquem, que o povo não pode ser incomodado, nem sobressaltado, e na volta ainda acorda alvoroçado, como quem desperta de um pesadelo do qual não pediu para sair.

Por isso cuidado, muito cuidado para não acordar a malta, que ainda vos acusam de arrogância ou, muito pior, de elitismo. Ah, as piedosas intenções, pois é. Aquela ideia repugnante do «explica-me como se eu tivesse 5 anos». Infantilizem-nos, pois, que eles gostam. E tem óptimas repercussões eleitorais. Não vale a pena, são palavras difíceis, construções frásicas elaboradas, é muito complicado, faz dores de cabeça, dá trabalho, eles não vão perceber, não captam as referências, não têm bagagem intelectuais, os pobres.

Façam finais felizes, que para tristezas já bastam as da vida. Descubram mistérios, códigos, doenças, escrevam romances históricos, boa!, histórias de príncipes e princesas. Façam livros sexys, com pessoas bonitas e bem vestidas. As pessoas gostam é de histórias que acabem bem, de pares que se reencontram no alto do Empire State Building, e têm muito filhinhos para sempre…

Tentem perceber o que se vai usar literariamente na próxima estação. Façam capas vibrantes de cor e, viva a alegria, títulos com palavras românticas como «paixão» e «pétala», embrulhinhos de gaze e laçarotes. Já agora, se pudessem pôr um pouco de néon nas capas, ficava tão bem nas nossas montras, nos nossos escaparates.

E vocês, mulheres escritoras, não se esqueçam, escrevam sobre sexo, com muitos palavrões, não desiludam a gente. E andem aos grupinhos, escolham a vossa tribo, elejam bem os vossos rivais, auto-protejam-se, excluam-se, que o sistema gosta de vos ver assim engavetados, tudo no seu devido lugar, para não haver confusões, encolerizados, roídos pela traça das invejas, cóleras e outras pestilências.

O nosso bem faz-vos tão mal. Vejam como, se a gente quiser, é possível ser escritor uma vida inteira na ausência total de talento, vejam os clubinhos, os lobizinhos, isto funciona tudo bem, é tudo tão conveniente...

E, depois, lá vem complacênciazinha. E os escritores que escrevem umas banalidades, tão medíocres como quaisquer outras, e são apaparicados, convidados, palmadinhas nas costas, milho aos pombos... E, quem sabe, assim, sejam aceites, como um cão tolerado pela gerência por não ser demasiado agressivo.

*Autora Convidada
Ana Margarida de Carvalho, escritora

Nota de referência:
A luta de classes é o motor da História, e por isso é preciso ir oleando a engrenagem. A luta do Manifesto74 é feita com palavras. É por isso que aqui não há colaboradores, empreendedores e empregadores. Escrevemos trabalhadores, empresários e patrões. Nesta luta temos o nosso lado bem definido. Estamos com os trabalhadores e as suas famílias, com os explorados e oprimidos. É para estas pessoas que escrevemos. São estas pessoas que queremos escutar. Publicaremos aqui uma série de textos de profissionais de várias áreas onde simplesmente lhes pedimos que nos falassem da sua profissão, do seu trabalho, do seu dia a dia. As palavras, as reflexões, as propostas, as denúncias, as exigências são de quem as escreve. Que os seus testemunhos sirvam para esclarecer e alimentar o debate. Que as palavras acrescentem força à luta e com eles se fortaleça.

7 comentários:

  1. Precisamos de gente que luta contra as adversidades e de gente que busca soluções com sentido de justiça e dignidade da pessoa humana.
    Ao revelar sensibilidade, coragem e sabedoria este texto merece ser lido e divulgado.
    A partilha com Gente assim vale a pena.

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  2. Não sei ao que vem o Estado envolvido nesta conversa.
    Não me consta que a literatura pimba esteja na escola pública.
    Agora me pergunio: se toda a acção política é dirigida a estabelecer o direito às facilidades - grande conquista de Abril - quem se pode queixar que as gentes se desviem do que sejam dificuldades?

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    Respostas
    1. Um disparate acéfalo.

      O Estado está envolvido na conversa porque é o mesmo estado qiue conduz ao que isto chegou. "O Estado pode determinar como a riqueza é criada, tributada e distribuída. O Estado decide quem paga, e está a fazê-lo, simplesmente, não a favor do povo, mas da oligarquia. "

      O estado que fez o que fez à TAP. O estado que a vendeu por 10 milhões e em que alguns ( desta vez não acéfalos mas canalhas) acharam muito e não se coibiram de levantar as vozes e as beiças de satisfação

      Regressando ao tema:
      "Hoje o Estado facilita imenso o estado a que isto chegou.Esta tendência para a carneirada, para o seguidismo, esta cultura do facilzinho, da imitação, da repetição, da réplica, da náusea, da recapitulação, do volta atrás e toca o mesmo, do lugar-comum, do óbvio, do estafado, das descobertas da pólvora"

      Temos assim as perguntas deslocadas face a um "não consta" prenhe de ignorância.

      O resto ,...o resto mais não é do que o ódio a Abril e às suas conquistas. E a posição de classe de quem viu ser colocadas em causa as suas facilidades de explorador da mão-de-obra alheia. Ainda por cima ressabiado com a derrota do fascismo.


      Pedindo desculpa à autora por este necessário esclarecimento...
      "...que importa a fúria do mar"... que venham mais destes, como deste aí em cima. Como diz Mário Reis, assim vale a pena.
      Obrigado

      De.

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    2. É como diz José. As sociedades mais desenvolvidas triunfaram sempre com populações analfabetas.

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    3. É evidente que não disse nada disso, anónimo das 01:26.
      Aliás estou certo que o sucedido sucesso da sociedade soviética se deveu não ao analfabetismo do seu povo mas sim ao analfabetismo dos seus dirigentes.

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    4. Já que se escudou na sociedade Soviética para não dizer nada.

      Então diga o que sabe desse país? Julga que os dirigentes Soviéticos eram invasores vindos de outro planeta?

      O sarilho é que o que veio a seguir não só não conseguiu melhorar absolutamente nada daquilo que diziam de mal existir, como agravou tudo sem exceção a todos os níveis.

      É esta a grande "virtude" do capitalismo levar miséria, atraso e subdesenvolvimento onde não existe.

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  3. Se esta escritora seguir as pisadas do avô (Domingos Carvalho) e do bisavô (lavrador Alfredo) temos garantida uma combatente por as causas da liberdade e justiça .

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