Desemprego hipnótico

sexta-feira, 19 de junho de 2015

Agora vais esquecer-te da realidade e deixar-te embalar pela minha voz. A cada palavra e a cada número, vais sentir-te descer, cada vez mais relaxado e sonolento até chegares a uma versão de Portugal em que o desemprego está a baixar. Agora vou contar de um a cinco. Quando chegar ao número cinco, vais entrar na realidade virtual do governo PSD-CDS-PP.

E assim eu digo: Um.

Uma estranha sensação de calma desce sobre ti como se o país estivesse melhor, mas as pessoas não. As pontas dos teus dedos estão a aquecer e as tuas mãos estão a tornar-se pesadas.

Dois

O calor está a estender-se aos teus braços, aos teus ombros e ao teu pescoço. Todos os trabalhadores desempregados estão desaparecer. As tuas pernas estão a tornar-se pesadas.

Três.

Todos os teus músculos estão completamente relaxados e sentes que o desemprego é uma oportunidade de mudar de vida e que só não trabalha não quem não quer.

Quatro.

Estás a afundar-te em estatísticas falsas como líquido espesso. Quando eu chegar ao número cinco, vais deixar de questionar o que o governo te diz e vais saber que por este andar, mais cinco anos e não há desemprego nenhum.

E eu digo, Cinco!

Está à vista de todos, o desemprego diminui a olhos vistos! Sob a liderança dos banqueiros, o PSD e o CDS-PP vão conduzir Portugal ao paraíso!

Mas será que o desemprego está mesmo a baixar? O que se passa por detrás desta sessão de hipnose estatística?

A verdade é que o desemprego não a diminuir. Na verdade, está a aumentar, muito. Sim, leu bem. A descida da taxa de desemprego é uma fraude. Uma enorme mentira criada para manipular os portugueses. Mas então, afinal porque é que o INE diz que a taxa de desemprego está a diminuir?

Simples: porque o governo passou a chamar outro nome aos desempregados. E toda a gente sabe que se mudarmos o nome a um problema, ele desaparece, não é verdade?

Nas estatísticas do governo não entram centenas de milhares de pessoas desempregadas.

Por exemplo, as pessoas que desistiram de procurar emprego ou que o governo não sabe que estão desempregadas, não contam para as estatísticas. E estamos a falar de muita gente. Cerca de 280 000 pessoas, um número que só nos últimos 5 anos aumentou 50%!

E depois há os desempregados obrigados a trabalhar precariamente, os chamados trabalhadores com «contratos de inserção», uma espécie de trabalho forçado e escravo, em que para não perder o subsídio se desempenha um trabalho precário durante 12 meses. Em 5 anos, o número de trabalhadores obrigados a aceitar estes contratos cresceu quase 40%! Hoje são mais de 32 000 trabalhadores!

Mas para a operação de manipulação do governo, isto nem é o mais importante… Vejamos, por exemplo, os trabalhadores abrangidos pela “formação profissional”. Pela lógica do governo, os trabalhadores obrigados a fazer estas formações não estão desempregados. E o número de formações externas aumentou mais de 1000%.
E eis que chegamos à melhor forma de reduzir o desemprego: estágios. Sim, o Estado paga salários de miséria a trabalhadores contratados por empresas privadas. As empresas adoram: mão-de-obra gratuita durante 12 meses e quando o «estágio» acaba, contratam outro «estagiário»! E não, não há limites ao número de vezes que uma empresa pode fazer isto.

Em 5 anos, o número de «estagiários» cresceu 1100% de pouco mais de 3000 para mais de 40000. E desengane-se quem acreditar que isto é um problema dos estagiários: é o trabalho de todos que está a ser desvalorizado: porquê contratar quando se pode arranjar a mesma coisa à borla?
No total, o governo está a esconder mais de 165 000 desempregados. E diminuindo o desemprego em estatísticas inventadas, o governo justifica a diminuição dos apoios necessários: nos últimos cinco anos, o número de desempregados a receber o subsídio diminuiu de 28% para 20%.

À medida que na realidade virtual do governo o desemprego diminui, a miséria aumenta.

A realidade é que a taxa de desemprego é hoje muito superior aos 20%. E o caminho de destruição do emprego, dos direitos dos trabalhadores e da economia só pode continuar aprofundar este estado de coisas.
E se tivermos em conta os 110 000 trabalhadores que emigram anualmente, chegamos à conclusão de que a situação do desemprego em Portugal é completamente insustentável. Por este ritmo vamos perder metade da população ativa em 20 anos.

E este governo, porque está ao serviço dos capitalistas, dos patrões e dos banqueiros, não está interessado em diminuir o desemprego: quanto maior for o desemprego, menores serão os salários. O capital sabe que pode até pagar até 200€ por qualquer trabalho, porque desde que haja fome, haverá sempre alguém a aceitar.

Mas é possível sair deste pesadelo. A luta dos trabalhadores pode impor uma política patriótica e de esquerda, que crie emprego e ponha a economia ao serviço do povo.

Acorda da hipnose do governo. Junta-te à luta.

7 comentários:

  1. Imagine-se num mundo diferente.
    Sem máquinas milagrosas; com polícias e arame farpado nas fronteiras; com alfândegas; com planos de fomento regidos por decreto; com moeda que só circula dentro das fronteiras.
    Se começa a sentir um frio na espinha, é sinal que a hipnose não aconteceu.

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  2. Imagine-se num mundo em que os povos querendo tomar outro rumo que não a canga, são tratados como ameaça impondo-se-lhe a democracia do mercado

    José, és um nojo!

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  3. Imagine-se que os mercados com hipervigilância e autivigilância (quais policias e arame farpado, qual carapuça) se tornam na mais perniciosa das forma do controlo da tão apregoada liberdade individual, impondo a mais eficaz das ditaduras

    José, porque não te calas?

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  4. Imagine-se extinção da democracia trabalhando-se a indiferença, se detém o poder de informar, de distrair, de manipular, de tratar, de ensinar e orientar, de decidir e acumular; que passem à história os ideais de justiça e os direitos do homem, tudo coisa obsoleta e luxo do passado e se enfraquece os Estados

    José, és um fdp

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  5. Imagine-se que o conjunto dos elementos naturais e culturais que tornam a vida possível, o clima, o ar, a água, a língua, a cultura, os saberes passem a ser integralmente mercantilizados; que o contrato vale mais que a lei. que os serviços públicos passem a ser integralmente pagos pelos utilizadores, sonho húmido do José, que penalizará os mais pobres

    José, vai tratar dos desgostos salazarentos

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  6. Este post deve ser o mais profusamente espalhado, sempre que a este respeito ouçamos a propaganda miserável e abjecta da governança e seus acólitos.

    Nunca é demais sublinhar a importância de dados objectivos e concretos que desmontem a vulgata do capital.Ainda por cima com a originalidade do autor do post

    E é precisamente isto que deixa *à beira da histeria" este tal jose, que perante a impossibilidade de os desmentir, arrota estas "pérolas" tão bem respondidas desta forma por Mário Reis.

    (Ainda ecoam os berros deste "jose" contra o salário mínimo nacional e pelo direito à livre política da promoção do desemprego, para segundo ele, domar o "trabalho". Antes a serventia à governação do capital financeiro, no eufemisticamente designado estado novo. Hoje ao serviço dos monopólios e oligopólios, fazendo estas figuras de capo maior em que mal esconde a barbárie que traz no ventre atulhado

    De

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  7. O subserviente e lampeiro editorial do Público de 16 de junho, http://www.publico.pt/politica/noticia/o-desemprego-e-a-etica-politica-1699194, sobre o tema do desemprego, é um vomito de um avençado. É um "jornalismo" medíocre e de submissão.
    Bem podem dispor dos meios, convidar apenas os que lhes vão comer à mão, deturpar e mentir compulsivamente sobre a realidade que ela não se altera por isso, como se demonstra na curta análise que o António Santos faz neste importante post.
    Pois que seja divulgado e auxilie a ver quem não consegue ou não quer ver.

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