De pequenino se torce o bastão extensível

terça-feira, 2 de junho de 2015

A esmagadora maioria dos fenómenos sociais, económicos, culturais e até pessoais, são mais claros e mais bem explicados quando analisados à luz da luta de classes. Mas há alguns que saem desta esfera de análise e pertencem a algo milenar: a estupidez humana.

Isto a propósito da celebração do Dia Mundial da Criança em Portalegre. Achou por bem a câmara municipal, presidida por Adelaide Teixeira, independente do movimento CLIP - os independentes, esse milagre da evolução democrática -, e a PSP local integrar a simulação de uma manifestação nas comemorações da data. Um mini-corpo de intervenção contra um mini-grupo de manifestantes. Crianças armadas com pequenos escudos e bastões a serem atingidas por bolas de papel que simulam pedras da calçada arremessadas por outras crianças.

Parece que não mas estamos no séc. XXI. Parece que não mas estamos num país onde a discussão em torno das cargas policiais tem existido frequentemente, e onde, apesar de muitos tentarem escondê-lo, a violência policial é mesmo um problema. Parece que não mas esta actividade foi aprovada e/ou assistida por oficiais da PSP, autarcas, professores, auxiliares da acção educativa e provavelmente pais.

Esta é daquelas que mói a cabeça e me deixa sem palavras. Por isso mesmo, e porque diz tudo o que é preciso, cito o pequeno texto que o meu camarada de blog, Bruno Carvalho, escreveu no seu mural de Facebook:

"Há 68 anos, em plena ocupação nazi-fascista, um grupo de crianças napolitanas não pôde brincar aos polícias de choque e aos manifestantes. Os «scugnizzi», meninos de rua, órfãos e miseráveis, pegaram em armas e juntaram-se à insurreição que o povo napolitano protagonizou e que expulsou pela primeira vez as forças ocupantes de uma grande cidade italiana. 
Há 58 anos, durante a ocupação francesa, o pequeno Omar foi assassinado pelas tropas paraquedistas, em Argel, quando o combatente da FLN, Ali La Pointe, o tentava proteger. Catarina Eufémia estava grávida e tinha um filho ao colo quando a assassinaram. 
Na obra de Soeiro Pereira Gomes, Esteiros, o escritor comunista dedicou o livro aos "filhos dos homens que nunca puderam ser meninos". Foram gerações e gerações de crianças submetidas ao trabalho infantil, à miséria e à guerra, foram décadas de luta para que fossem reconhecidos os direitos dos meninos à paz, à liberdade, aos estudos, às brincadeiras e ao convívio social para que venha uma autarca embebida dos mais râncios valores inculcar-lhes a ideia de que o protesto merece a brutalidade das forças policiais. 
Num país normal, Adelaide Teixeira mereceria o desprezo absoluto e não teria outro caminho que a demissão.Mas não é novidade. No mesmo dia, o Estado levou centenas de crianças ao Pavilhão Atlântico para assistirem a exercícios e manobras policiais. No fim, como durante o fascismo, cantaram em coro o hino nacional."

Depois de ler o Bruno continuo a achar que isto é mais estupidez humana que outra coisa, mas caramba, a luta de classes está lá sempre. Às vezes bem camuflada, mas está.

15 comentários:

  1. É pá, estupidez humana, sim. Mas explicará todo o absurdo, o irracional, o aparentemente inimaginável? Presidente de Câmara? A menina Adelaide deveria era ser internada compulsivamente, já que constitui, objectivamente, um perigo para a sociedade em que vive.

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  2. O avanço, meio sub-reptício umas vezes, outras vezes mais às claras, de um Estado autoritário, protofascista, correspondendo ao agudizar da luta de classes e como recurso periódico do capital quando se fragilizam as encenações "democráticas". Encenações entre nós visivelmente em crise, face aos desempenhos mais recentes dos líderes(?!) do regime e dos partidos do "arco da governação", vulgo arco da governança/lambança.

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  3. Não costumo comentar estas coisas.... mas isto consegue-me dar a volta à cabeça. Como se consegue celebrar o Dia da criança da melhor forma? Com jogos de guerra disfarçados? Promovendo o ódio subconscientemente? #medodofuturo

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  4. Este comentário foi removido pelo autor.

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  5. De pequenino se torce o pepino - Mas não terá sido apenas em Portalegre mas tb em Lisboa. Inserindo-se noutras “formatações” em curso, como a da subvalorização de cadeiras e cursos como “história”, “filosofia” e similares ou a introdução nos currículos escolares de disciplinas “essenciais” como “empreendedorismo” ou “produtos financeiros” ou abolição – em nome da “competitividade” - das comemorações da Implantação da República ou da Restauração da Independência (face a Castela). E já repararam que nos documentos emanados deste governo PSD/CDS e da Administração Pública Central desapareceu a “República Portuguesa”, substituída por “Governo de Portugal”, como se Portugal fosse apenas um Protectorado da União Europeia ou uma Província Autónoma do Reino de Espanha ?

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    1. Em tempo - Mas manteve-se o feriado do 8 de Dezembro, da consagração do Reino de Portugal à Imaculada Conceição (antecessora da Senhora de Fátima) e Rainha de Portugal desde o século XVII.

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    2. Muito bem lembrado

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    3. Este governo está ao nível daquele que foi posto no país, momentos antes (e depois) da entrada de Fernando Álvarez de Toledo, Duque de Alba, em 1580.

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  6. Considere-se o efeito de tais demonstrações (desta, como a do Pav. Atlântico) na psique em desenvolvimento das crianças e veremos que existem claras mensagens que se deseja que aprendam: qualquer manifestação termina com repressão, e as forças de autoridade podem exercer essa mesma repressão da forma mais brutal, sempre que assim entendam conveniente e oportuno.
    Não digo com isto que as forças da autoridade o desejem ou sequer concordem com esta linha de acção, uma vez que não creio que reconheçam o quão instrumentalizadas estão a ser e serão. Digo que um governo, na figura de quaisquer seus representantes ou aficionados partidários, pretende de facto instigar o medo da autoridade e suprimir o instinto de insurreição nas suas crianças, para que nunca ousem contestar e exigir o que legitimamente podem.
    Acordemos: tudo isto é um processo de eliminação da democracia, numa tendência para a resignação da soberania das nações a favor de algo transnacional e obscuro.
    Ocorrem-me pelo menos duas obras cinematográficas: "1984", adaptação da obra de George Orwell - qualquer semelhança entre a imposição do Acordo Ortográfico e a "Novilingua" do filme (não) é pura coincidência - e "V for Vendetta" onde a governação Norsefire pode servir de premonição, mas também a forma como se instigou o medo para que os cidadãos abdicassem da democracia nos serve de lição para que vejamos toda esta crise económica, o escalar das actividades terroristas e as leis recentes que submetem o cidadão para compreendermos que nada é por acaso.

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  7. Não é por acaso que tal sucede, quer seja em Portalegre, ou no Pavilhão Atlântico, a besta fascista e fascizante sub-repticiamente vai formatando as novas gerações com o beneplácito de pais e formadores já perfeitamente "normalizados". Esta é a direita que critica as supostas ditaduras que não se lhe submetem, enquanto apoia os que esmagam os seus povos em nome de uma falsa liberdade, a possibilidade de escolha entre serem explorados olhando para as montras, ou serem explorados sem montras... E depois chamam-lhe democracia económica em vez de capitalismo e apelam a sacrifícios por termos todos vivido acima das possibilidades que eles nos prometeram...

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  8. Pois mas .... na terra da ''UTOPIA'' - MARINALEDA- para alem de nao existir desemprego, oh ceus que afronta, imagine-se, tambem nao existe POLICIA, qual barbaridade.....um aglomerado de cerca de 3000 pessoas SEM POLICIAMENTO- terroristas, so pode

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    1. Conversa de Paulo Portas... Utopia diferente de Economia...
      És um vendido e já podes votar CDS-PP.
      Não te esqueças de comprar o livro da Helena Sacadura Cabral, por apenas € 15,99, em qualquer CTT perto de ti (pelintra).

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  9. A menina Adelaide teve a originalíssima ideia de reproduzir o trailer do 'Prós e Contras' ou algo parecido.
    Logo se levantam os 'idealistas' em que só a polícia controlada pelo partido é bia.
    E nada como um chorrilho de mantras a terminar com ' No fim, como durante o fascismo, cantaram em coro o hino nacional' para exprimir não só a estupidez, mas a algo mais desprezível na reacção à cousa.
    Nota: o hino nacional - criado em defesa das colónias - escapou em 75 porque a barraca pegou fogo!

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    1. A menina Adelaide ( ah tão comovedor este carinho ) caiu no goto deste.
      E caiu-lhe de tal maneira que tendo sido denunciadas as l manhas desta cosia , logo acorre pressuroso este tipo de batina a enrodilhar-se nos pés, de crucifixo na mão esquerda e de porrete na direita naquele seu jeito peculiar.

      Pelo meio trauteia o "cá vamos cantando e rindo" ara exprimir não só a ideologia como também a estupidez no seu apego à cousa.À cousa da Adelaide como também à causa desta.

      Pelo caminho lembrar que se estava a comemorar o dia da criança e que a coisa que o jose admira desta forma tão...ternurenta, foi aquela que disse isto:
      "Os miúdos compreenderam perfeitamente o que era o bem e o ma"

      Uma frase terrível esta .Assassina mesmo. menos para este jose/Jgmenos que defendeu os mesmos métodos da polícia de choque dos tempos do fascismo.

      E que agora subscreve por baixo estas cousas

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  10. Um pormenor curioso .A "nota " com que jose tenta fugir do que se debate.

    Um velho método utilizado até à exaustão pelo jose. O desvio da bola para canto e o apressado e grotesco apelo ao patrioteirismo bacoco do tempo do fascismo.( ele ,logo ele , que agora tenta que todos falemos em alemão)

    Repare-se nesta cousa. O Hino de facto nasceu duma reacção patriótica ao ultimatum dum império. Questões que atravessaram as lutas pelas colónias. Mas que se tornou bandeira da República ( com todas as suas limitações de revolução burguesa, mas que ainda hoje concita o ódio de "jose" tão apegado ao fascismo que a derrubou.

    O outro pormenor curioso é a manha manhosa e torpe de tentar fazer estórias com o que nem sequer foi história.A questão do hino nunca teve qualquer realce em 1975 pelo que a manipulação não passa. O fogo referido pelo jose deve ter sido uma fumaça que este apagou com a sua confessada emissão involuntária dos seus líquidos orgânicos quando perante o PREC..

    De

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