A arte de desinformar

domingo, 7 de junho de 2015


Portugal não é um país com muita população. Assim, os grandes iniciativas de massas, com dezenas e centenas de milhares de pessoas são fenómenos raros e por isso mesmo alvo de grande atenção mediática. Num breve exercício de memória, podemos recordar grandes acontecimentos e celebrações desportivas, manifestações do movimento sindical e de outros movimentos sociais, alguns eventos religiosos, santos populares, grandes concertos e espectáculos musicais com artistas internacionais de renome. Haverá mais um ou outro exemplo, mas não muitos mais. E, com excepção das grande manifestações sindicais, estes acontecimentos são alvo de grande divulgação e atenção mediática, antes, durante e depois de terem lugar.

A Marcha Nacional A Força do Povo, ocorrida ontem e promovida pela CDU, segundo a sua organização teve a participação de cerca de 100 mil pessoas. Não discutirei este número, não tenho essa intenção ou objectivo, pois, tendo participado nesta Marcha, em nenhum momento consegui ver o seu início e o seu fim devido à sua magnitude. Mais importante do que a precisão científica de um número final, importa sublinhar a sua dimensão humana e impacto político.

Eu gostaria de referir que sou de uma região longe de Lisboa. Onde o PCP não tem a implantação que precisava para melhor intervir, e onde a CDU não tem nenhum deputado ou sequer vereador eleito, tão pouco qualquer maioria em Junta de Freguesia. E desta região, saíram cerca de 700 democratas para a Marcha. Portanto, fica claro que, não sendo esta Região uma excepção positiva à regra, a Marcha foi uma iniciativa com muita, muita gente.

Se iniciativas desta dimensão humana são raras, com a natureza de apoio político são ainda mais raras. Nas últimas largas décadas, as únicas iniciativa de dimensão e natureza semelhante foram as marchas do PCP em 2008 e da CDU em 2009. Ou seja, a marcha de ontem foi singular e seria expectável que sob qualquer critério com o mínimo de razoabilidade tivesse uma cobertura noticiosa relevante. Mas não foi nada disso que aconteceu...

RTP empurra para a frente
O Telejornal da RTP não considerou que a Marcha fosse motivo de abertura, pelo contrário, empurrou-a para o mais tarde que conseguiu. Assim, apenas 20 minutos após o seu início veio a primeira de duas curtas peças sobre a Marcha. A ordem cronológica do Telejornal até à Marcha foi, a abrir o caso Sócrates, depois Passos sobre Sócrates, incêndio em fábrica de tintas, convenção do PS, lesados do BES, iniciativa de PSD e CDS(repescada, pois tivera lugar no dia anterior), novamente a convenção do PS(só sobre a convenção do PS foram mais de 6 minutos), e eis que, finalmente, a CDU.

As duas peças juntas, as tais que apenas ao fim de 20 minutos a RTP apresentou, tiveram os tempos somados de 3 minutos. Em nenhuma das peças houve qualquer plano panorâmico sobre a Marcha, apenas imagens focadas sobre quem estava em palco ou pequenos grupos de manifestantes.

Na segunda peça houve um breve roda-pé sobre o número de autocarros(que rapidamente saiu de imagem), nas duas peças houve 3 entrevistas a participantes, não se tendo feito qualquer referência aos números da organização sobre o total de participantes. Apenas se soube que a Marcha "reuniu várias gerações".

Na SIC, a estrela foi a Branquinha 

A SIC conseguiu fazer um pouco pior que a RTP, conseguiu ridicularizar-se ainda um pouco mais.
O Jornal da Noite da SIC também empurrou a Marcha da CDU mais para a frente, abriu com o caso Sócrates, seguiu para a convenção PS e, ao fim de 9 minutos, lá chegou uma única peça sobre a Marcha.

A primeira imagem da peça, o primeiro impacto, que a SIC dá da Marcha é a de uma cadela a beber água, seguem-se mais 40 segundos com a cadela a beber água e/ou em acrobacias rumo ao colo do dono, e ainda uma entrevista ao dono onde o telespectador fica a saber que a branquinha "é um cão espectacular que veio da rua", dos 4 minutos totais que durou a peça da SIC, os primeiros 40 segundos foram passados nisto.



Após o destaque a Branquinha, uma imagem positiva da cabeça da Marcha, a que se seguiram diversas entrevistas aos participantes, o que não teria mal nenhum desde que não se entendesse que esses grandes planos individuais seriam instrumentais para esconder tudo o resto que se passava à volta, como de facto aconteceu. Seguindo esta linha de encobrimento, a SIC colocou em imagem na peça um momento em que o grande plano é uma Praça dos Restauradores mal composta e com a Marcha ainda por chegar.

De resto, mais do mesmo, nenhuma perspectiva panorâmica sobre a Marcha e da intervenção de Jerónimo de Sousa tivemos 31 breves segundos(a Branquinha teve 40 segundos de atenção). Nenhuma referência ainda ao número de participantes da organização, ou outros por tentativa de aproximação. O telespectador limitou-se a ouvir que foram milhares...o que conjugado com as imagens exibidas permitiria eventualmente concluir que não estariam muitos milhares.

A TVI não foi a pior

A TVI seguiu um critério semelhante ao da RTP e SIC. Contudo com algumas diferenças que é justo referir.

Devido à final da Liga dos Campeões de futebol, o Jornal das 8 começou às 19:00. Cronologicamente, a sua sequência de abertura foi(e a esta hora ainda não havia notícias de Sócrates) a final da Liga dos Campeões, o incêndio na fábrica de tintas, a convenção do PS, iniciativa de PSD e CDS(tal como a RTP, também foi repescar uma iniciativa já do dia anterior), e finalmente a Marcha numa peça de apenas cerca de 2 minutos.

A peça da TVI destaca-se das peças da RTP e SIC apenas por dois motivos, foi a única que, pelo menos, tentou dar uma imagem panorâmica que reflectisse dentro do possível a dimensão da Marcha e foi a única que citou o número de manifestantes referido pela organização. Os seus breves 2 minutos assim até nem pareceram tão maus, e terão permitido ao telespectador ter uma ideia da dimensão da Marcha.

Em relação aos jornais de Domingo dia 7, zero. 


















Nos quatro principais jornais generalistas de hoje, Domingo dia 7 de Junho, nenhum faz qualquer referência de capa sobre a Marcha de ontem. O Público deu a sua fotografia de capa a um "caçador de tesouros" e é o único jornal que faz uma breve, mas errónea no conteúdo, referência ao "líder do PCP". Ao que parece no desenvolvimento da notícia d'O Público lá vem a fúria, a aldrabice e a cegueira costumeiras.

Creio que estes encobrimentos e desaparecimentos da Marcha Nacional A Força do Povo, nas várias deturpações publicadas, pelo estilo, natureza e forma, pelo método e conteúdo, não serão mera azelhice ou coincidência, falta de atenção ou de pessoal de serviço. Antes reflectem opções políticas e ideológicas dos proprietários económicos da comunicação social, ou proprietários fácticos das suas linhas editoriais, colocando-as ao serviço dos grandes grupos económicos, intoxicando e subvertendo o papel e função da comunicação social.

Quem paga, manda. Quem tem o poder, manda. E as eleições vêm aí. A CDU, o seu projecto e a sua força humana são incómodas, são para desaparecer, por forma a que tudo siga como até agora. Pensarão eles.


P.S.- a Marcha da CDU observada pela perspectiva da televisão venezuelana TeleSur aqui
P.S.2- para que não haja qualquer mal-entendido, gostava que ficasse claro que gostei de ouvir tudo o que os camaradas e amigos presentes na Marcha disseram e como disseram aos órgãos de comunicação social(as suas motivações são as minhas). Estamos na Luta!

7 comentários:

  1. A cobertura feita pelas televisões e jornais foi um nojo, tal como o foi a realizada pelas rádios. Logo após a manifestação (em que participei, muito orgulhosamente) liguei o rádio e entre TSF, Comercial, Antena 1 ou Rádio Renascença, a cobertura foi zero. De qualquer modo, este silêncio tem uma leitura da minha parte: ao grandes interesses instalados, somos e nós e não outros, que os incomodamos. Significa, que estamos no rumo certo

    ResponderEliminar
  2. Grande marcha de um grande partido que é o inimigo principal da direita, seja ela PS, PSD ou PP. Nenhum partido consegue fazer aquilo que a CDU fez no sábado, ainda por cima, sob enorme calor. Nem os «Blocos ditos de esquerda», nem os chamados «Livres» ou dos Animais (Pin Pan Pum)... ou do Marinho Pinto conseguem algo assim.
    De facto, estes e outros conseguem bonitos «outdoors», mas só em época de campanha eleitoral, porque nesta altura, ondes estão?

    Só o PCP e a CDU fazem a força e será com este espírito que se conseguirá ganhar mais votos e, se possível, ultrapassar essa desgraça chamada «PS».

    ResponderEliminar
  3. Como dizer que este é um excelente texto sem nos repetirmos?

    A questão da batalha informativa é crucial. Por isso trago aqui algumas reflexões de Andre Vltchek. Para o debate.

    "Quando a mais poderosa e mais destrutiva força sobre a terra emprega todo o seu poder persuasivo, utilizando tudo desde os media de referência a instrumentos educativos, a fim de justificar seus crimes, quando ela espalha sua propaganda venenosa e mentirosa a fim de oprimir o mundo e suprimir a esperança, devemos nós voltar atrás e começar um infindável e pormenorizado trabalho sobre narrativas precisas e objectivas? Ou devemos confrontar mentiras e propaganda com a nossa própria narrativa, apoiada pela nossa intuição, paixão e sonhos por um mundo melhor?

    O Império mente continuamente. Mente pela manhã, durante o dia, à tarde, mesmo à noite, quando a maior parte das pessoas ressonam adormecidas. Ele fez isso durante décadas e séculos. Para grandes fraudes o Império confia em incontáveis propagandistas que posam como académicos, professores, jornalistas e "intelectuais públicos". A perfeição na arte da desinformação foi alcançada. A publicidade ocidental (tão admirada e usada pelos nazis alemães) tem algumas raízes comuns com a propaganda, embora a propaganda seja muito mais antiga e "completa".

    Este aparelho de propaganda ocidental é enormemente eficiente e eficaz. É também brilhante para assegurar que suas invenções sejam canalizadas, distribuídas e aceites em todos os cantos do mundo. O sistema através do qual a desinformação se espalha é incrivelmente complexo. Os media locais e as academias servis em todos os continentes trabalham arduamente para garantir que apenas uma narrativa seja permitida penetrar nos cérebros de milhares de milhões de pessoas"

    (De)

    ResponderEliminar
  4. "O que nós, os que nos opomos ao regime, devemos fazer?

    Em primeiro lugar, as coisas não estão tão desesperadoras como antes.

    Isto já não é o mórbido mundo unipolar que experimentámos no princípio da década de 90. Agora a Venezuela, Rússia, China e Irão apoiam grandes redes de media que se opõem ao Império. Emergiram estações televisão poderosas: RT, Press TV, TeleSur e CCTV. Grandes revistas e sítios em inglês baseados na Internet nos EUA, Canadá e Rússia também estão a revelar as mentiras dos propagandistas oficiais do Ocidente: Dissident Voice, Information Clearing House, Global Research, Veterans News, Strategic Culture, New Eastern Outlook vêm rapidamente à mente. E há centenas de importantes sítios a fazerem o mesmo em castelhano, chinês, russo e francês.

    O combate está em andamento: o combate por um mundo intelectualmente multi-polar. É um combate duro, mortal! É uma batalha crucial, simplesmente por causa das metástases que o cancro da propaganda ocidental espalhou por toda a parte, contaminando todos os continentes e mesmo alguns dos países e cérebros mais corajosos que combatem seriamente o imperialismo e fascismo ocidental! Ninguém está imune. Para ser franco, todos nós estamos contaminados"

    Como alcançar a vitória? Como convencer as massas, aqueles milhares de milhões de pessoas? Como abrir seus olhos e fazê-las ver que o regime ocidental é desonesto, tóxico, venenoso e destrutivo? A maior parte da humanidade está enganchada na propaganda do Império. Esta propaganda é espalhada não só através dos media de referência como também pela pop music, novelas, media sociais, publicidade, consumismo, "tendências da moda" e por muitos outros meios encobertos, culturais, religiosos e os media lixo que levam aos estupor emocional e intelectual e são administrados como narcóticos altamente viciantes, de modo regular e persistente.".

    (De)

    ResponderEliminar
  5. "O Império fala, escreve e repete algumas mentiras ultrajantes, acerca da sua benevolência e da excepcionalidade do seu domínio, ou acerca dos "maus" da União Soviética, China, Irão, Venezuela, Coreia do Norte ou Cuba. Isto é feito diariamente. De facto é concebido de modo a que quase todo ser humano obtenha a sua dose de toxina pelo menos várias vezes por dia.

    Sentimos que temos de reagir – começamos a gastar anos das nossas vidas a provar meticulosamente, passo a passo, que a propaganda do Império é ou uma grossa mentira, ou um exagero, ou ambos. Depois de alinharmos nossos argumentos, publicamos os resultados em alguma pequena editora, mais provavelmente na forma de um livro magro, mas quase ninguém lê devido à sua pequeníssima circulação e porque as descobertas são geralmente demasiado complexas, demasiado difíceis de digerir e simplesmente porque os factos já não chocam ninguém. Um milhão mais de pessoas inocentes foram assassinadas em algum lugar na África, no Médio Oriente, na Ásia, qual a novidade?

    Ao investigar e tentar contar a verdade, plenamente e honestamente, sentimos que estamos a fazer grande trabalho científico e profissional. Enquanto isso os propagandistas do Império estão a morrer de rir a observar-nos! Nós representamos pouco perigo para eles. Eles estão a vencer facilmente!

    Por que é assim? A verdade minuciosa já não importa?

    Ela importa – do ponto de vista de princípios mais elevados ela importa. Eticamente ela importa. Moralmente ela importa. Filosoficamente ela importa.

    Mas estrategicamente, quando alguém está empenhado numa guerra ideológica, ela não importa muito! A verdade sim, sempre; a verdade importa! Mas simplificada, a verdade digerível, apresentada energicamente e emocionalmente!

    Quando a imoralidade está a devastar o mundo, quando ela está a agredir impiedosamente, quando milhões de inocentes estão a morrer, o que importa é travar a carnificina, primeiro identificando as forças assassinas, a seguir contendo-as.

    A linguagem tem de ser forte, emoções primárias.

    Quando enfrentando hordas assassinas, canções emocionalmente carregadas e odes patrióticas sempre foram mais eficazes do que profundos estudos académicos. E assim foram romances e filmes políticos, documentários apaixonadas, mesmos cartoons e posters explícitos.

    Alguns perguntarão: "Só porque eles mentem, deveríamos nós mentir também?" Não! Deveríamos tentar ser tão verdadeiros quanto podemos. Mas a nossa mensagem deveria muitas vezes ser "abreviada", de modo a que milhares de milhões, não apenas aqueles poucos selectos, possam entendê-la.

    Isso não significa que a qualidade do nosso trabalho deveria sofrer. A simplicidade é muitas vezes mais difícil de alcançar do que trabalhos enciclopédicos com milhares de notas de rodapé.

    A Arte da Guerra , de Sun Tzu, é curto, apenas um panfleto, directo ao assunto. E assim é o Manifesto Comunista e o J'accuse!

    (De)

    ResponderEliminar
  6. "A casa está em chamas, camaradas! Toda a cidade está a transformar-se em cinzas. O planeta inteiro é pilhado, devastado, lobotomizado.

    Não podemos confrontar fanáticos com ogivas e navios de guerra. Mas nossos talentos, nossas musas e nossos corações estão aqui, connosco, prontos para juntarem-se à batalha.

    Deixem-nos sobrepujar nossos inimigos; deixem-nos assegurar que o mundo começa a rir-se deles! Viram aqueles patéticos perdedores, os bufões – os directores gerais? Ouviram aqueles primeiros-ministros e presidentes, aqueles servos do "mercado"? Deixem-nos convencer as massas que os seus tiranos – os imperialistas, o neocolonialistas e todos os seus pregadores dogmáticos – não são nada mais do que loucos lamentáveis, cobiçosos, venenosos! Deixem-nos desacreditá-los! Vamos ridicularizá-los.

    Eles estão a roubar e assassinar milhões. Deixem-nos começar a pelo menos urinar sobre eles!

    Deixem-nos combater a propaganda ocidental revelando primeiro aqueles que estão realmente por trás. Vamos ao pessoal.

    Vamos transformar esta revolução em algo criativo, hilariante, realmente divertido! "


    O original , muito mais completo, está aqui:
    http://resistir.info/varios/propaganda_15mai15.html

    Não subscrevo tudo o que Andre Vltchek escreve nem tenho que o fazer .Mas o texto levanta questões bastamente importantes

    De

    ResponderEliminar
  7. De, isto assim não é nada, põe o link (receio o dia em que comeces a postar capítulos de livros em vez de artigos). Não há melhor para afugentar leitores.

    ResponderEliminar