Ser arquitecta no país da austeridade, por Joana Pereira

segunda-feira, 11 de maio de 2015

8 Série "Ser no país da austeridade"


É bom projectar a cidade, projectar o habitar, projectar cada espaço que serve o ser humano… para mim e para nós é uma função primordial, pois é presença constante em tudo no nosso quotidiano e que gera não só relações lógicas de vivência dos espaços, como também cria o património do amanhã.

É bom projectar, ser criativo e ter ideias para ajudar a solucionar problemas, as pessoas dizem; “oh arquitecto, como é que eu nunca me tinha lembrado disso antes?”, “oh arquitecto, era mesmo isto que eu queria”, “oh arquitecto precisava disto”, “oh arquitecto o que acha daquilo”. E é bom quando isso acontece, significa que de uma forma ou de outra o reconhecimento do nosso trabalho vai ganhando terreno. Mas infelizmente nem sempre isso acontece… e é então que me pergunto, porque continuamos nós sem uma tabela de honorários fixa e actualizada que possa defender estes arquitectos, que já vulneráveis às desculpas de uma suposta crise, não têm algo que os unifique e proteja… Desta forma, e desculpem a expressão, irão continuar a deitar-se muitas calças abaixo para que se consiga algum trabalho que coloque pão na mesa…

E esta é uma luta desleal, onde uma qualquer empresa de materiais de construção diz que faz “projectos de arquitectura” (que me fazem questionar se continuam a sair cupões na farinha Amparo, desta vez com cursos de arquitectura), mas mais grave são estes “arquitectos amparo” praticarem preços completamente inconcebíveis ou mesmo ditos gratuitos em forma de publicidade enganosa.

Esta é uma luta desleal, quando ainda há bem pouco tempo houve quem colocasse a possibilidade de nos tirar o direito a exercer alguns dos actos próprios da profissão, como a gestão e a fiscalização de obras. Já não basta a falta de condições em que grande parte dos jovens arquitectos trabalha hoje em dia, ainda lhes queriam tirar a oportunidade de poder fazer mais do que preencher burocracias de processos de camarários.

Felizmente tudo não passou de um susto e a coisa acabou por se resolver pelo melhor, mas o que vos digo, é que espero sinceramente que este seja um primeiro sinal de melhoras e de bom senso, para que a Arquitectura nacional consiga assumir o seu verdadeiro lugar em Portugal e com o valor que lhe merece ser dado! Por isso, se não queremos virar costas à Pátria temos de usar toda a criatividade para procurar alternativas e soluções à nossa própria condição, sem nunca nos resignarmos, numa constante procura de oportunidades, de fazer mais, melhor e diferente, lembrando-nos que apesar de todas as condições adversas que possam existir, os verdadeiros arquitectos, continuam a amar aquilo que fazem, a representar o país cada vez mais e melhor no mundo e isso ninguém nos pode tirar!

*Blogger Convidado
Joana Pereira, arquitecta

Nota de referência:
A luta de classes é o motor da História, e por isso é preciso ir oleando a engrenagem. A luta do Manifesto74 é feita com palavras. É por isso que aqui não há colaboradores, empreendedores e empregadores. Escrevemos trabalhadores, empresários e patrões. Nesta luta temos o nosso lado bem definido. Estamos com os trabalhadores e as suas famílias, com os explorados e oprimidos. É para estas pessoas que escrevemos. São estas pessoas que queremos escutar. Publicaremos aqui uma série de textos de profissionais de várias áreas onde simplesmente lhes pedimos que nos falassem da sua profissão, do seu trabalho, do seu dia a dia. As palavras, as reflexões, as propostas, as denúncias, as exigências são de quem as escreve. Que os seus testemunhos sirvam para esclarecer e alimentar o debate. Que as palavras acrescentem força à luta e com eles se fortaleça.

Sem comentários:

Enviar um comentário