O velho exame da velha escola

terça-feira, 19 de maio de 2015

A criança tem 9 anos e vai de rosto fechado pela rua fora, como todos os dias. Mas hoje, ao contrário do que é habitual, não me disse bom dia. A princípio, não percebi muito bem porquê. Os pequenos também têm as suas “consumições”, dizia a minha avó, foi o que pensei. Depois despertei. É dia de exame. A criança está absorvida por preocupações. Dia de martírio. De ser encostada à parede. Dia em que, pela primeira vez, aquela criança será sujeita à solenidade terrível de uma espécie de julgamento precoce em que todo o ambiente, todo o contexto à sua volta não propicia senão o nervosismo, a ansiedade, o medo e a insegurança. Os exames finais não são pedagogia em parte nenhuma do mundo. São apenas tormento.

Como tantas outras reminiscências da longa formatação de outros tempos, o esquema actual vem na esteira desse “grande” e “heróico” patamar que era o “Exame da 4ª classe”
Não sei se dormiu tudo, se dormiu bem. Sei que pouco ou nada lhe passará pela cabeça hoje que não uma mistura de o que estudou, o que não conseguiu estudar ou compreender, o que sabendo duvida e o que não sabendo equivocamente crê saber. Tem apenas 9 anos. Está ante um monstro que lhe inventaram, sem par em praticamente lado nenhum. Quase nenhum país europeu coloca uma criança de 9 anos ante a avaliação fria de uma prova “final”, isolada, sumária.

Há dias que são apenas maus. Momentos de infelicidade que vêm e vão. A caminhada até pode ter sido satisfatória, brilhante, capaz, mas pode encontrar um buraco de frustração naquele “mau dia” em que toda a pressão do momento contribuirá para que o insucesso possa ser ainda mais retumbante. A base de uma aprendizagem que deveria assentar na evolução progressiva e constante, numa superação regular e acompanhada no tempo, no espaço e numa organização escolar que desse aos docentes a liberdade plena da avaliação global – sem exames finais impostos por um ministério burocrata e ideologicamente apegado ao passado –, é antes uma aprendizagem que encontra a sua base num sistema que se julgava ultrapassado e derrotado.

Como tantas outras reminiscências da longa formatação de outros tempos, o esquema actual vem na esteira desse “grande” e “heróico” patamar que era o “Exame da 4ª classe”. Essa magna “etapa final”, esse objectivo a que qualquer criança comum ambicionaria ou poderia chegar (e eram só quatro anos de escola…), como tantas outras políticas que nos fazem retroceder às teias do «antigamente é que era bom», preside ainda, alimenta ainda, alicerça ainda a solução de Crato e companhia para o culminar de mais um ano educativo.

A luta contra este governo também passa por aqui. Os pais, os professores, o pessoal não-docente todos têm um papel a desempenhar no sentido de impedir que o futuro das crianças de hoje seja uma educação voltada para os sistemas do passado. É imperativo pôr cobro à mundividência que apenas valoriza a criança como número ou como mero produtor de números. É altura de negar peremptoriamente a coisificação de tudo e, neste caso, dessa estrutura basilar que é a educação. É altura de mudar de rumo de forma efectiva. É altura de negar e lutar contra os governos e os partidos que querem devolver-nos a todo o custo um passado que ninguém quer de volta.

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