Ser técnico de manutenção de aeronaves no país da austeridade, por João Silva

terça-feira, 7 de abril de 2015

5 Série "Ser no país da austeridade"


Nos hangares da TAP o ambiente é de apatia e descontentamento. Os trabalhadores cumprem as suas tarefas com o rigor de sempre (que ainda hoje garante que seja a terceira companhia aérea mais segura de toda a Europa), mas sem o empenho de outros tempos. À medida que a privatização paira sobre nós, a força e a união de todos aqueles que lutaram para defender esta empresa parece esbater-se, como se tudo o que foi feito ao longo destes anos tivesse sido em vão.

Entre os que trabalham connosco, mesmo entre os mais velhos, já não existem muitos que tenham vivido o 12 de Julho de 1973, quando a polícia de choque entrou pelos portões da empresa adentro: 5000 operários que se manifestavam pacificamente em prol dos seus direitos foram selvaticamente corridos à cacetada, num acto de desafio à ditadura, ainda 9 meses antes do 25 de Abril. Muitos há, no entanto, que se recordam do dia 29 de Outubro de 1993, quando trabalhadores da manutenção invadiram a pista do aeroporto na reivindicação de salários por pagar, sendo vulgarmente reprimidos pelos bastões da autoridade. Já não era Marcelo Caetano quem governava, mas sim Cavaco Silva, que quando entrevistado em Bruxelas sobre os acontecimentos defendeu a acção das forças policiais, preferindo “beber champanhe à união europeia” do que comentar em profundidade o sucedido.

O que ficou destes episódios para nós, os mais novos, foi como sempre foi forte a intervenção de todos os trabalhadores na luta pela sua empresa, de como nunca tiveram receio de dar o corpo e a cara pelos seus direitos mais fundamentais. Muitas vezes foram incompreendidos pela sociedade, acusados de fomentarem demasiadas greves, de fazerem demasiadas exigencias. Mas que outra forma existia de garantirem os seus (e agora nossos) direitos?

Hoje está tudo diferente. Um certo cinismo paira no ar, um sentimento de impotência perante a realidade esmagadora dos factos: de que apesar de todo o esforço e empenho dos que aqui trabalham, a privatização parece ser inevitável desta vez. Mas existem ainda muitos que não baixaram os braços, que ao longo de todos estes anos de austeridade não deixaram de participar nas greves nas quais se lutou contra a retirada dos direitos obtidos desde o fim da ditadura. Que apesar do sentimento inexorável de que a empresa será vendida, não deixam de participar em acções e movimentos que se opõem à privatização. Que, apesar das circunstancias, ainda não perderam o seu sentimento aguerrido de desafio, como no dia 27 de Janeiro de 2012, quando numa acção espontânea e não planeada, os trabalhadores da manutenção fecharam o portão da empresa durante mais de 8 horas como protesto contra a sequência imparável de cortes nos subsídios e direitos conquistados ao longo de tantas décadas de sacrifício e sofrimento. Com eles estive em todos esses dias nos últimos 6 anos, desde que lá comecei a trabalhar. E a todos eles saúdo, por nunca terem baixado os braços perante a injustiça e a opressão.

Não podemos adivinhar o futuro, poderiam eles dizer se estivessem a escrever este artigo comigo. Mas só lutando por ele no presente poderemos dar às gerações seguintes os mesmos direitos que nós sempre tivemos. Dentro ou fora da empresa, estendo-vos a mão, chamando-vos para este combate que não é só meu, nem da Manutenção da TAP, nem do resto da empresa, mas de todo um país: pois os tentáculos da austeridade atingem-nos a todos, seja qual for a nossa profissão ou empresa, sejam quais forem os nossos sonhos ou perspectivas para o futuro. A TAP poderá ser vendida, mas não vencida. Reestruturada, mas não quebrada. Lutaremos até ao fim.

*Blogger Convidado
João Silva, Técnico de Manutenção de Aeronaves, TAP

Nota de referência:
A luta de classes é o motor da História, e por isso é preciso ir oleando a engrenagem. A luta do Manifesto74 é feita com palavras. É por isso que aqui não há colaboradores, empreendedores e empregadores. Escrevemos trabalhadores, empresários e patrões. Nesta luta temos o nosso lado bem definido. Estamos com os trabalhadores e as suas famílias, com os explorados e oprimidos. É para estas pessoas que escrevemos. São estas pessoas que queremos escutar. Publicaremos aqui uma série de textos de profissionais de várias áreas onde simplesmente lhes pedimos que nos falassem da sua profissão, do seu trabalho, do seu dia a dia. As palavras, as reflexões, as propostas, as denúncias, as exigências são de quem as escreve. Que os seus testemunhos sirvam para esclarecer e alimentar o debate. Que as palavras acrescentem força à luta e com eles se fortaleça.

4 comentários:

  1. «...com o rigor de sempre ...mas sem o empenho de outros tempos»;.«...apesar de todo o esforço e empenho dos que aqui trabalham...»
    Em que é que ficamos?
    À espera que a privatização lhes restitua o empenho...

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    1. Adivinha-se a baba viscosa e o surdo ruminar do jose (travestido às vezes da sua versão privatizada JgMenos) perante as privatizações com que sonha,pelas quais se esmifra e com as quais se desunha

      O empenho de jose não é só função das privatizações. O produto do saque é algo que lhe atravessa os sonhos húmidos e que é comum aos da sua classe.
      .
      Mas adivinha-se algo mais. A incompreensão pelos que trabalham, o despeito pela firmeza dos trabalhadores, a venalidade boçal e canina como saliva pela privatização .

      "Tudo o que possa ter uma réstia de lucro privatiza-se. A privatização de serviços básicos e empresas estratégicas desvia o rendimento nacional para os bolsos sem fundo do capital monopolista e aumenta o preço dos bens e serviços. O país que fique abandonado à pobreza e à caridadezinha fascistóide da D. Jonet."

      Daniel Vaz de Carvalho

      De

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    2. Sublinhe-se que esta série "Ser no país da austeridade" é um achado.
      Que permite dar voz a outros e alargar os temas e conteúdos.

      Este também um dos grandes incómodos de alguns.

      "A TAP, enquanto empresa pública, não se destina a «dar lucro», objectivo das empresas privadas para poderem distribuir dividendos aos seus accionistas remunerando o capital aí investido. A TAP destina-se a criar riqueza para o País. E cria: mais de 12 mil postos de trabalho directos no Grupo; perto de 20 mil indirectos; mais de 100 milhões de contribuições anuais para a Segurança Social e outro tanto para o IRS; mais de dois mil milhões de euros de vendas ao estrangeiro sendo o maior exportador nacional; responsável directa por entre três e cinco por cento do PIB. Cria riqueza ainda no sentido de se afirmar como instrumento de soberania, por mal potenciada que esteja a ser e está. E faz tudo isto sem receber qualquer apoio público desde 1997, e com uma dívida que no essencial é relativa aos seus activos (o leasing dos aviões) e a uma negociata nunca devidamente explicada (a da compra da deficitária ex-Vem do Brasil, actual Manutenção Brasil)"
      Manuel Gouveia

      Outro(s) motivo(s) para a senha privatizadora de jose e da sua governança

      De

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    3. "Em que é que ficamos?
      À espera que a privatização lhes restitua o empenho."

      Nem ficamos pasmados a comtemplar o desastre e ainda menos temos tempo para esperar..

      Os trabalhadores têm pressa, querem trabalhar e produzir riqueza é aquilo que sabem fazer.

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