Ser músico no País da Austeridade, por Tiago Santos

segunda-feira, 16 de março de 2015

3 Série "Ser no país da austeridade"


Toda a gente sabe que os músicos são um empecilho para a sociedade, a não ser que alguém deles consiga fazer um bom dinheiro. São irreverentes, preguiçosos, e usam demasiados palavrões. Para muitos deles a vida só não é um cabaret porque são as suas próprias vidas que fazem mover o cabaret. Os risos, as palmas, o convívio, os ensaios, a dança, a orquestra que só respira quando toca ao vivo, a voz que só acorda para poder cantar.

Mas na música, para a maioria dos músicos o espectáculo fecha-se com a última luz. De trás do palco em diante, os acordes de canções, as palavras de amor e raiva, são substituídas pelo cansaço de uma vida de risco. Sim, sabemos que a crise e a precariedade sempre cá estiveram, mas que agora se agrava ainda mais com o desemprego e os cortes a assaltarem também as casas e as famílias, onde antes ainda se escondia alguma segurança.

Na música, existe uma sala e uma porta, onde tu entras para dar o teu melhor mas quando sais, só encontras uma percentagem da bilheteira que muitas vezes mal dá para a viagem de regresso. Mas é de paixão e nervo que é feita esta profissão e por isso levantamos a cabeça e seguimos. Mas seguimos sós, sem olhar para o lado, sem reforçar o nosso caminho de trabalhadores da música. Desunidos, somos uma classe profissional sem quaisquer direitos nem remuneração, um verdadeiro caso de exploração capitalista selvagem em pleno séc. XXI. É por isso urgente que os músicos se unam em torno dos seus sindicatos, se organizem e tomem partido, se mobilizem pela luta dos trabalhadores e pelos seus direitos ao trabalho, à remuneração e à cultura. Juntamente com estes problemas do valor trabalho e do sub-pagamento, os músicos vêem ainda as suas vidas penhoradas pela Segurança Social, enquanto o primeiro-ministro escapa impune a anos de fuga às suas obrigações. Os músicos sentem a falta de um estatuto do artista que os proteja num mercado selvagem que pratica o trabalho gratuito com a mera exposição como contrapartida, mas um trabalho que de facto fornece conteúdos, anima eventos lucrativos e constrói cartazes comerciais para quem desse trabalho se apropria sem retribuir.

A vida dos músicos está longe do glamour luminoso das imagens dos concursos de televisão. Muitos têm de optar por trabalhos alternativos, longe da música e da actividade que escolheram e para a qual se prepararam. Muitos perdem assim o ritmo do trabalho e desistem, outros perseguem um sonho que dia a dia se afasta à medida que o apelo constitucional do direito de todos à fruição e à criação culturais, se tornam vãs ilusões nos discursos dos partidos do arco do poder. Mas é na luta, é na recuperação da dignidade roubada, num país onde as desigualdades também aqui vencem e ganham terreno, que os músicos podem cantar novos hinos de esperança. Havemos de chegar ao fim da estrada, assim estejamos dispostos a dialogar, a lutar a unir esforços por uma política alternativa e de esquerda.

*Blogger Convidado
Tiago Santos, músico

Nota de referência:
A luta de classes é o motor da História, e por isso é preciso ir oleando a engrenagem. A luta do Manifesto74 é feita com palavras. É por isso que aqui não há colaboradores, empreendedores e empregadores. Escrevemos trabalhadores, empresários e patrões. Nesta luta temos o nosso lado bem definido. Estamos com os trabalhadores e as suas famílias, com os explorados e oprimidos. É para estas pessoas que escrevemos. São estas pessoas que queremos escutar. Publicaremos aqui uma série de textos de profissionais de várias áreas onde simplesmente lhes pedimos que nos falassem da sua profissão, do seu trabalho, do seu dia a dia. As palavras, as reflexões, as propostas, as denúncias, as exigências são de quem as escreve. Que os seus testemunhos sirvam para esclarecer e alimentar o debate. Que as palavras acrescentem força à luta e com eles se fortaleça.

4 comentários:

  1. Um caso dos mais difíceis na estratégia da luta de classes.
    Há uma classe que promove um espetáculo e arrisca a que não venda bilhetes que cubram as despesas.
    Há músicos que não querem percentagens mas salário e direitos e garantias.
    Há um público que só paga se for boa a música, conhecido o artista, espectacular o eapetáculo, constituindo-se numa classe temperamental e pouco solidária.
    É luta complexa que nem sempre se resolve só com boa música.
    O Estado, pai e mãe dos povos, é sempre aquela confortável opção...

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    1. neste conceito de "luta de classes" vislumbram-se estas: a "classe que promove um espetáculo" e a "classe temperamental" que é o público. e os músicos, pelo meio, são mera mercadoria. se não fosse insultuoso, seria anedota.

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  2. O José vive da exploração alheia.Uma confortável opção.
    Um sacana de alto coturno.

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  3. Confesso que o fatalismo que este discurso imprime em cada uma das suas palavras, despertou-me desta embriagues estrutural que a nossa sociedade promove no nosso tempo. Repito para o autor:" (...)no nosso tempo." Mas foi realmente a parte em que diz, unir esforços por uma politica alternativa e de esquerda, que fez-me sorrir.

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