Ser arquitecto no país da austeridade, por Tiago Mota Saraiva

quarta-feira, 18 de março de 2015

4 Série "Ser no país da austeridade"


 Fotografia de Cláudia Lima da Costa
Em Dezembro de 2015 passará vinte anos desde que comecei a trabalhar num atelier de arquitectura. Era estudante e nesse tempo eram poucos os estudantes que não acumulavam a escola com o início da profissão.
Terminado o curso, em 2000, decidi emigrar. Mas não foi um emigrar como os de agora, que mais parece um exílio. Como tantos outros colegas parti por uns anos na certeza de regressar no momento em que decidisse.

Preparado o portfolio enviei candidatura para oito ateliers de arquitectura e lancei-me num interrail pela Europa em que fui visitando amigos e fazendo entrevistas de trabalho.

Fiquei por Roma. Dois anos. Tive a minha dose de arquitecto-estrela. Projectávamos para todo o mundo com orçamentos galácticos. Fazíamos concursos de arquitectura como poucos, produzíamos como uma intensa fábrica de ideias, poucas eram as noites em que as luzes do atelier se apagavam – nunca mais consegui/quis fazer uma directa a trabalhar depois daqueles anos. Na fábrica vi passar muita gente. Quando anunciei o meu regresso a Portugal era o quinto arquitecto mais antigo da empresa (sim, tínhamos contratos!) e coordenava equipas de trabalho com gente com mais dez anos que eu. Estava com 25 anos.

Regressei para construir uma vida. Mas a tarefa não se afigurava fácil.

Na administração pública, a ministra das finanças Manuela Ferreira Leite, iniciava as primeiras investidas tendentes ao seu desmembramento tornando praticamente impossível o acesso a quem se apresentava com curriculum profissional na área. Nos ateliers imperava o trabalho precário, a recibo verde, com o qual fui adiando uma solução.

Chegado a 2003, com um conjunto de colegas de universidade e a partir de um trabalho promovido pela Experimenta Design – na altura, a EXD, era um autêntico viveiro de novos colectivos de arquitectura de Lisboa –, decidimos iniciar um atelier. Éramos cincos dos quais um, eu, sempre tinha afirmado que não gostaria de iniciar um atelier antes dos 50. Mas era uma questão de sobrevivência. Inevitável. Tratava-se de assumir o controlo sobre a nossa precariedade. Durou dois anos. Correu mal. Havia filosofias de vida e ideais muito diferentes. Inconciliáveis.

Entre quatro, decidimos avançar para outra plataforma - o ateliermob – que cumpre este ano dez anos.

O ateliermob é uma empresa, costumo dizer que usa a arma do inimigo. Começou por ter trabalho a partir de concursos públicos. De 2005 e 2008 cresceu sempre. Entre 2008 e 2010 abanou. Os dinheiros públicos concentravam-se nas escolas e centros de saúde e a encomenda era distribuída sem concurso. Um a um, os projectos que tínhamos sobre a mesa iam parando.

Mas é durante esses anos, a partir de uma profissão que pensa o futuro e que por isso está sob ameaça, que começámos a pensar um novo modelo de trabalho. Chamamos-lhe: trabalhar com os 99%.

A partir de comunidades que necessitem de serviços de arquitectura, mas que não tenham meios para os pagar (um universo cada vez mais próximo dos 99%), desenvolvemos um programa e uma ideia de trabalhos, calendarização e orçamentação. O tempo que outrora gastávamos em concursos, gastamo-lo na concepção destes documentos. Depois, com as populações, vamo-nos candidatando a financiamentos públicos ou privados, nacionais ou internacionais. Só quando o financiamento chega é que podemos começar o trabalho. Dizemo-lo sempre. Não somos voluntários, não fazemos caridade, não trabalhamos à borla. Temos contratos, prazos de execução e trabalhadores. Não somos arquitectos-bonzinhos, somos profissionais de arquitectura.

*Blogger Convidado
Tiago Mota Saraiva, arquitecto

Nota de referência:
A luta de classes é o motor da História, e por isso é preciso ir oleando a engrenagem. A luta do Manifesto74 é feita com palavras. É por isso que aqui não há colaboradores, empreendedores e empregadores. Escrevemos trabalhadores, empresários e patrões. Nesta luta temos o nosso lado bem definido. Estamos com os trabalhadores e as suas famílias, com os explorados e oprimidos. É para estas pessoas que escrevemos. São estas pessoas que queremos escutar. Publicaremos aqui uma série de textos de profissionais de várias áreas onde simplesmente lhes pedimos que nos falassem da sua profissão, do seu trabalho, do seu dia a dia. As palavras, as reflexões, as propostas, as denúncias, as exigências são de quem as escreve. Que os seus testemunhos sirvam para esclarecer e alimentar o debate. Que as palavras acrescentem força à luta e com eles se fortaleça.

6 comentários:

  1. Bom exemplo de adaptação à realidade.
    O que falta para produzir para lá da fronteira? Alçar a vista? Capital?

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  2. E quantos trabalham no Ateliermob? Quantos têm contrato? Quantos são estagiários? O Ateliermob vivia sem os estagiários? Isso também importava para ver de que lado estamos verdadeiramente.

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  3. Um prazer ler de novo o Tiago Mota Saraiva, nestes circuitos de.

    E que foi quantas vezes insultado pelo pasquim de serviço, o JgMenos e a sua colecção de ditos a alçar o trauliteirismo militante

    De

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  4. Então porquê não abre um atelier? Não quer ser explorado? Então que abra um negócio. Cambada de hipócritas

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    Respostas
    1. Abrir um ateler?

      Eis a imagem de marca (anónima ) de um hipócrita ignorante ( as palavras não são demasiado pesadas) em busca do santo graal do "empreendedorismo" com que procuram defender a podridão deste sistema vil e sem remissão.

      A promoção dos negócios a la carte que alimentam os verdadeiros negócios.Dos veros e gordos tubarões

      O próprio Souto Moura ( ficam para depois outras considerações) . Cito o título: "Eduardo Souto Moura sem trabalho em Portugal"

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