Ser actriz no país da austeridade, por Luisa Ortigoso

quarta-feira, 11 de março de 2015

2 Série "Ser no país da austeridade"


COISAS DO GLAMOUR

Quando aos 12 anos, numa reunião de família, me perguntaram o que queria ser no futuro, respondi com a certeza da adolescência: “Actriz, vou ser actriz!”. Toda a gente se riu. E eu resolvi que nunca mais ia falar sobre o assunto. E não falei.

O cheiro do teatro colava-se a mim de uma forma que tornava o caminho inevitável.

Quando aos 20 anos me estreei como actriz profissional, senti-me uma menina na véspera de Natal. Que emoção. Que felicidade. O teatro, as palavras partilhadas, os espectáculos, o público. A vida.

Tirando o facto de ter uma profissão que eu considerava “especial”, nada me separava de qualquer outro cidadão profissionalmente activo. Tinha um salário, os direitos de qualquer outro trabalhador (direito a baixa por doença, licença de parto, subsídio de desemprego em caso de necessidade...). Tudo estava certo.

Um dia houve um senhor (diz que agora é presidente da república) que acordou com uma ideia : “’bora lá dar recibos verdes a esta gente e eles que se desenrasquem!” . A ideia era tão boa que os recibos verdes, saíram azuis da tipografia...

Começou aí o nosso caminho para o calvário. Direitos, nenhuns. Deveres, todos. As passadeiras vermelhas escondem casas penhoradas, dívidas à segurança social, adultos que vivem com os pais, que não têm condições para terem os seus próprios filhos, que trabalham doentes para não perderem “aquele” trabalho, que trabalham 12 e 13 horas com cachés bastante inferiores aos que tinham há 15 anos, que (entre irs e segurança social) deixam ao estado mais de 50% do que ganham.

A minha “romântica” profissão, tornou-se numa luta diária pela sobrevivência para a maioria das actrizes e actores deste país.

O Estado (que devia ser de direito) tornou todos os trabalhadores de espectáculo em mentirosos militantes. Todos somos trabalhadores “independentes”, diz o estado (com letra minúscula, porque um estado assim não tem nada de grande em si, nem mesmo a letra).

Continuo a pensar que a Arte e a Cultura são um direito de todos (assegurado na Constituição da República Portuguesa. São um direito para quem usufrui e para quem faz da Arte e da Cultura a sua vida.

Continuo a querer ser o que sou. Mas quero os meus direitos de volta. Quero a minha carteira profissional de volta. Quero o meu estatuto profissional de volta. Quero a minha vida de volta.

*Blogger Convidado
Luisa Ortigoso, actriz

Nota de referência:
A luta de classes é o motor da História, e por isso é preciso ir oleando a engrenagem. A luta do Manifesto74 é feita com palavras. É por isso que aqui não há colaboradores, empreendedores e empregadores. Escrevemos trabalhadores, empresários e patrões. Nesta luta temos o nosso lado bem definido. Estamos com os trabalhadores e as suas famílias, com os explorados e oprimidos. É para estas pessoas que escrevemos. São estas pessoas que queremos escutar. Publicaremos aqui uma série de textos de profissionais de várias áreas onde simplesmente lhes pedimos que nos falassem da sua profissão, do seu trabalho, do seu dia a dia. As palavras, as reflexões, as propostas, as denúncias, as exigências são de quem as escreve. Que os seus testemunhos sirvam para esclarecer e alimentar o debate. Que as palavras acrescentem força à luta e com eles se fortaleça.

8 comentários:

  1. É preciso LUTAR contra o desinvestimento e desresponsabilização do estado na cultura; contra a politica mercantilista e privatizadora que tem guiado a acção dos sucessivos governos do nosso país; contra o desmantelamento do serviço público de cultura, que torna inoperacionais os serviços do Estado no apoio financeiro, administrativo e técnico às artes, ao património, na investigação e na dinamização cultural; contra a politica de direita ´(PS/PSD/CDS) que deixa em agonia o tecido cultural português e que destrói décadas de esforço e construção; contra a destruição do emprego na cultura e o trabalho com direitos.

    A.Silva

    ResponderEliminar
  2. Como eu a compreendo!
    Não completamente, porque além do SMO (serviço militar obrigatério) o dinheiro só circula de mim para o Estado; recebo ainda assim não poucos serviços de volta.
    Mas os recibos verdes são o meu território.
    Mas como não sou 'da cultura' não tenho qualquer esperança que o Estado venha a tomar conta de mim.
    Como nunca tive - nem terei - patrão, fici por isto mesmo: construo os meus direitos em negociação permanente com quem valoriza o que eu sou capaz de fazer.
    Dizem-me que este esforço arruina a cultura, que o artista não deve ser sujeito a esse stress que lhe afecta o talento.
    Outros dizem-me que isso só acontece na cultura sem clientes, sem público.
    Outros ainda dizem que ao Estado compete abrigar - alguns, poucos se não há dinheiro - para manter aquela cultura que é preciso comservar ou criar, e está já ou ainda privada de público.
    Cést la vie! Não há almoços grátis para todos. Merde!

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. "Não há almoços grátis" é uma frase popularizada por aquele rapaz, amigo de reagan e de pinochet, o milton friedman, e que um beato fundamentalista ultramontano e apologista das teorias designadas como neoliberais, um tal de joão césar das neves, usa a torto e direito.Por acaso todos estes representam a outra parte, a parte dos defensores acérrimos do capital e que costumam jogar sujo e bem sujo.
      Amigos do josé

      A intervenção do jose é obrigatória neste tipo de posts que interrogam de forma incisiva e directa esta sociedade vil e bárbara , sociedade assente nos magnos princípios defendidos pela escumalha referida atrás.

      No fundo, no fundo, este vocabulário de jose é justificado pela profunda crispação que o referido tipo sente quando perante textos inteligentes, luminosos e sentidos. Aí os tiques de guardião do reino do capital afloram-lhe à pele e justificam o seu papel de molosso de serviço.
      No fundo ,no fundo é a contribuição agastada, apressada, rancorosa, emotiva, odienta e odiosa do jose para a luta de classes.Do lado dos friedman,dos reagan. dos césares das neves, dos "desgraçados" dos passos pelos quais sangra a corda sensível do jose

      Ficará para mais tarde a questão concreta do tema do post .Noutra altura desmontaremos este babar nauseabundo de jose perante a cultura em termos genéricos.

      Para já apenas o apontar para este profundo sentimento que este partilha com goebbels,
      "“Quando ouço falar de cultura … puxo logo da pistola” ,dizia este. Jose subscreve a frase, enfeitando-a ( embora mal) com um "c´est la vie" e com um "merde"
      Para dar cor local.
      Tal qual os "recibos verdes"

      De
      De

      Eliminar
    2. Mas há mais.

      Veja-se como a extrema-direita tem uma geometria variável dos direitos dos cidadãos.
      Aquele seu representante defende a construção (?)dos seus direitos em função das negociações permanentes com quem com ele mercadeja.

      Um novo conceito de cidadania e dos direitos dos cidadãos.

      O tipo quando se submetia na tropa ao seu patrão bem buscava negociar com o comandante os seus direitos buscando a valorização destes em função do que "era capaz de fazer"

      Já nem têm vergonha, já não sabem o que dizem ou ambas as coisas?

      Ou apenas são isto que mostram assim desta forma tão deliciosamente loquaz?

      De

      Eliminar
  3. Onde reina a malícia , mora o receio
    Que a faz imaginar em peito alheio
    Luis Vaz de Camoes

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. "Por mais que se retoque a iconografia e se agendem evocações solenes, (Camões) é o pungente retrato da pátria incomum: deserdado e rec(luso)."

      "Luís de Camões esteve preso duas ou três vezes, a primeira cerca de nove meses entre 16 de Junho de 1552 e 13 de Março de 1553, por causa de uma simples rixa no Rossio. Sobre Os Lusíadas, que salvara de um naufrágio na costa do Cambodja, teve de submeter o texto aos censores do Santo Ofício, instalados no Mosteiro de S. Domingos, e discuti-lo verso a verso"

      Depois elevado a poeta oficial da corte.

      Malhas que o império tece... ou dito de outra forma...
      A suprema hipocrisia dos miguéis de vasconcelos de todos os tempos

      De

      Eliminar