Juros da dívida, um vírus mortal.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

Por cada dia que passa, incluindo sábados e domingos, o país paga cerca de 21 milhões de euros de juros da dívida. Religiosamente.

Portugal gasta cerca de 71 milhões de euros com complicações de saúde desenvolvidas nas fases finais da infecção crónica por HepC. O mesmo que gasta em 3 dias e meio com juros da dívida.

Morrem cerca de 1.117 pessoas por ano em Portugal devido a complicações com origem na infecção por HepC.

Ora, para acabar com as mortes por HepC em Portugal, o Estado teria de iniciar um plano de diagnóstico precoce e um programa de tratamentos. Na hipótese de serem detectados todos os infectados (sendo que cerca de 70% desconhece que é portador do VHC), Portugal teria de gastar ao longo dos anos (para curar 150 mil portadores) 3,6 mil milhões de euros.

Na hipótese realista, provavelmente isso significaria um custo de 400 milhões de gastos com medicamento por ano, a que subtrairia parte importante do que já se gasta com complicações da doença crónica. Mesmo que apenas se poupassem 35 milhões por ano, significa que o acréscimo no Orçamento da Saúde teria de rondar os 365 milhões. Em 10 anos, estaríamos perante uma doença residualmente presente.

1.117 pessoas por ano morrem devido à HepC. 26 milhões de euros anuais impediriam essas mortes. 30 horas de juros da dívida.

Cada uma hora dessas 30 horas de juros da dívida custa-nos 37 mortos por complicações de saúde devidas à Hepatite C. Ou seja, com 30 horas de juros podíamos impedir quase 1200 mortes anuais.

Quando Passos Coelho diz que se devem salvar as vidas, mas não custe o que custar e ao mesmo tempo diz que se deve pagar a dívida custe o que custar, está precisamente a dizer-nos que a dívida custa vidas.

A importância da renegociação dos juros, dos montantes e dos prazos da dívida também se mede em vidas.

9 comentários:


  1. Saudações,

    Faço hoje uma pausa na saga 'um texto de Lénine por dia, não sabe o bem que lhe fazia', e venho deixar um texto do João Vilela - 'Organização popular e eleitoralismo'. Seguem dois excertos e duas notas:

    "Paz social, convém esclarecer, mantida com férrea solidez por uma mesma "camada da burocracia operária", empenhada num verbalismo pretensamente revolucionário acompanhado de uma prática política complacente com a exploração e adaptada a ele. Essa camada, aliás, conseguiu inclusivamente transformar a sua complacência e subjugação numa "via pacífica para o socialismo" [sic], crismando-a com o nome de eurocomunsimo e inutilizando sem remédio diversos partidos comunistas. Os "companheiros de viagem pequeno-burgueses" não tardaram a juntar-se-lhes, mesmo se vinham, como o Bloco de Esquerda em Portugal e algumas fracções do Syriza na Grécia, de uma crítica pela esquerda ao movimento comunista internacional. A natureza de classe de um movimento aflora, mais tarde ou mais cedo, no seu posicionamento. Ou, como diz o ditado, "quem se quer bem, sempre se encontra".

    (...)

    Porque a única arma que o proletariado tem, teve, e algum dia terá, é a sua organização. O voto, o protesto, a manifestação, a petição, a greve, seja que forma de luta for, sem a organização de massas, serve-lhe de coisa nenhuma. Organização voltada para a revolução, e nunca, jamais, em tempo algum, apenas para a vitória eleitoral, a qual, como vemos, nunca garante, por si só, a aplicação de programa político nenhum."


    A primeira nota. Como disse em anterior comentário, um partido que ganha eleições num sistema capitalista, o que faz é empurrar as contradições do sistema para dentro de si. O que poderia não ter mal nenhum, porque é preciso levar as mãos à massa, mas lutar pela hegemonia do proletariado nesse processo. O problema é que depois de ganhar o voto das classes intermédias prometendo-lhes um novo equilíbrio dentro do sistema, o que é que acontece quando esse equilíbrio não é possível? Exemplo concreto, Mario Draghi anunciou ontem que o BCE deixa de aceitar dívida grega como colateral para liquidez aos bancos, até serem revogadas as medidas que o Syriza introduziu. E agora? Agora uma parte do Syriza quererá obedecer e revogar as medidas, e a outra parte do Syriza dirá que se se corta a ligação entre a banca grega e o BCE, não resta outra opção que não seja sair. E este é apenas um exemplo das contradições que o Syriza terá que superar para não se esfrangalhar.

    Onde é que fica o plano de lutar dentro do sistema por uma nova UE? E se porventura o Syriza estivesse a congeminar na sombra a reintrodução do dracma, como é que essas classes intermédias reagiriam?

    E a resposta leva-me à segunda nota, este vídeo do ministro grego das finanças. No vídeo o ministro das finanças defende que a "esquerda" não está preparada para um colapso do sistema, e que quem ganharia seriam os fascistas. Acontece que os reformismos não só não resolvem esta percepção, como a alimentam. E a reação a um colapso do sistema é inevitável, resta-nos criar a força necessária para enfrentar o choque em vez de fugir constantemente dele.

    Cumprimentos

    ResponderEliminar
  2. O Estado pagou 40 milhões de Euros de subvenção ao PCP pelas eleições de 2013.-
    O partido está disposto a abdicar deste dinheiro para comprar medicamentos para a hepatite C?

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. eu respondo com uma pergunta mais idiota ainda (embora reconheça ser difícil superar-te)
      estarias disposto a abdicar de meia dúzia de orgãos para ajudar o governo a pagar a "dívida"?

      Eliminar
  3. 4 milhões e não 40... Como é óbvio.

    ResponderEliminar
  4. Mais uma vez se comprova, pela amostra anexa, que a direita estupifica.

    A.Silva

    ResponderEliminar
  5. Excelente artigo de pedagogia informativa, devia servir como um guia prático para quem está interessado em desmascarar a aparente "inocência" do capitalismo na colaboração, apoio e sustentação dos regimes mais déspotas e retrógrados que ainda hoje existem à face da terra

    A Arábia Saudita é governada (e sempre foi) por uma monarco/ditadura estilo medieval em que tudo no país gira em volta da religião e de uma realeza auto proclamada que controla os destinos da população sem obedecer a qualquer lei. Tudo é decidido à vontade do soberano e dos familiares que o rodeiam. Nada absolutamente nada mesmo pode existir fora dessa relação.

    Um país que todas as sextas feiras decapita cidadãos na praça publica em ritos medievais com populações eufóricas a assistir.

    Onde mulheres, homens e crianças são chicoteados e decepadas mãos e dedos também em publico.

    Em que os acusados não têm direito à defesa, as sentenças são proferidas de forma unilateral por os tribunais religiosos sem direito a recurso.
    A “democrática “ civilização Ocidental que ofertou o Nobel da Paz a uma jovem vitima da violência por si produzida permite a um ancião octogenário casar com uma criança de doze anos.

    O país com as maiores reservas petrolíferas, mas onde a pobreza extrema prolifera, os pobres e os mendigos são retirados à força das cidades para campos de concentração no deserto.

    Todos os dias se juntam milhares de famintos à porta do palácio real para receberem as sobras da corte.

    Como é possível estas coisas passarem despercebidas aos arautos da democracia, aqueles que se arrogam intransigentemente os verdadeiros guardiões da defesa dos direitos humanos?

    Cont…..

    ResponderEliminar
  6. O Wahhabismo é o Islão oficial do reino Saudita, é a corrente religiosa mais fundamentalista e fanatizada do Islamismo. Tem sido a Arábia Saudita a principal fonte de financiamento dos grupos extremistas que surgiram até este momento.

    As guerras religiosas que hoje se espalham desde África, Mediterrâneo até ao território da China (síndroma Afegão) todas elas têm a chancela financeira da Arábia Saudita.

    Mais; o avanço Wahhabita na Ásia Central após o desaparecimento da URSS foi uma coisa espantosa. Alguns exemplos; em meados da década de 90 existiam 17 mesquitas e 19 igrejas ortodoxas no Tadjiquistão , atualmente existem as mesma 19 igrejas ortodoxas e quase 3 000 mesquitas.

    Em 1999 já existiam mais de 50 000 mesquitas em funcionamento no espaço da ex- URSS, milhões de Corões foram distribuídos , centenas de Centros de Estudos Islâmicos foram construídos tudo com o apoio financeiro da Arábia Saudita.

    Ora esta situação não podia de forma alguma passar despercebida aos países Ocidentais, que entretanto não se cansam de agitar o espantalho da falta de democracia, na Venezuela, Bielorrussia, Zimbabue, Russia, China, Coreia do Norte.


    Finalmente quando alguém levanta esta questão de sumíssima importância, considero contraproducentes algumas opiniões aqui expressas a exigir que se deviam debater outros assuntos.

    Calma meus amigos e camaradas, vamos discutir uma coisa de cada vez, este é o momento oportuno para debater-mos esta situação com rigor e clareza por isso não temos que nos dispersar em divagações desconexas exigindo que se devia discutir isto e aquilo.

    É verdade que a nossa tão almejada vitória só pode ser conquistada com muito trabalho e coragem, mas não é menos verdade que devemos estar também preparados com bons conhecimentos. É dever de um comunista estar devidamente informado.

    Confesso que depois de ter lido o brilhante artigo do António Santos (aqui e no Avante) me sinto mais apto para confrontar os meus inimigos ideológicos quando me abordarem com a ladainha costumeira da Coreia do Norte por exemplo.

    ResponderEliminar
  7. Peço desculpa por a distração. devia ter colocado os meus comentários no espaço acima, não prestei atenção e acabei por coloca-los aqui.

    As minhas desculpas. Vou já passa-los lá para cima.

    ResponderEliminar