Somos todos ...

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

A frase, sem dúvida bela, do sub-comandante Marcos - pesem as dúvidas sobre a personagem e quem é e o que foi - que se espalhou por tantos cantos do mundo, tem tido hoje um novo fulgor.

"Marcos é gay em São Francisco, negro na África do Sul, asiático na Europa, hispânico em San Isidro, anarquista na Espanha, palestino em Israel, indígena nas ruas de San Cristóbal, roqueiro na cidade universitária, judeu na Alemanha, feminista nos partidos políticos, comunista no pós-guerra fria, pacifista na Bósnia, artista sem galeria e sem portfólio, dona de casa num sábado à tarde, jornalista nas páginas anteriores do jornal, mulher no metropolitano depois das 22h, camponês sem terra, editor marginal, operário sem trabalho, médico sem consultório, escritor sem livros e sem leitores e, sobretudo, zapatista no Sudoeste do México. Enfim, Marcos é um ser humano qualquer nesse mundo. Marcos é todas as minorias não toleradas, oprimidas, que resistem, exploradas, dizendo Já Basta! Todas as minorias na hora de falarem e as maiorias na hora de se calarem e aguentarem. Todos os não tolerados buscando uma palavra, sua palavra. Tudo que incomoda o poder e as boas consciências, este é Marcos."

Hoje, a frase do sub-comandante está nas páginas sociais de muita gente e a sua forma afirmativa de dizer que está na pele dos oprimidos tornou-se moda de tal forma que quem não for Charlie, ou quem não for Grego, ou quem não foi alguma coisa, merece reprovação imediata. Na verdade, Marcos falou figurativamente. Claro. Tal como todos os que são Charlie, e os "somos todos Gregos" e os "somos todos Palestianos" ou o que quer que sejam. Figurativamente. O tom lírico faz parte do romantismo revolucionário, apesar da assustadora realidade que nos convoca para uma abordagem o mais realista possível.

O lirismo é um recurso que uso e alimento. Mas o lirismo não pode ser a capa sob a qual escondemos o nosso comodismo, a nossa conformidade. Quem dá a vida pela revolução, quem se confronta com a morte (como não sei se Marcos alguma vez fez), tem certamente uma margem de tolerância para o uso das figuras de estilo muito além da minha. Eu não sou Marcos, não sou Charlie, não sou Grego, nem sou nenhuma das vítimas mortais das guerras, nem sou um operário desempregado, nem um professor mal-pago, nem um enfermeiro emigrado, nem um doutorado atrás de uma caixa de supermercado, nem sou um manifestante espancado ou um grevista ameaçado. Não sou um estudante sem dinheiro para propinas, nem um velho a morrer às portas das urgências dos hospitais. Não sou um artista que mendiga para comer, nem um homossexual a querer adoptar um filho. Não sou uma mãe solteira nem uma criança que ficou sem abono de família. Eu não perdi o rendimento social de inserção, nem sou vítima de violência doméstica. Não sou sequer um trabalhador explorado no momento em que escrevo.

A hipocrisia de querer ser tudo deixa-nos, por vezes, apenas o papel de não sermos nada. Ou de sermos pouco. Ou de sermos menos do que podemos ser. Porque juntos somos uma massa de seres humanos, todos diferentes, de condições diferentes, num sistema que nos separa pelo individualismo ao mesmo tempo que nos une pela exploração. O mesmo sistema, a mesma organização social que nos divide para nos enfraquecer, está a educar-nos para a revolta inexorável.

Eu não sou tudo e mais alguma coisa. Mas sou comunista. Integro a luta, como posso, como sou e não como Charlie, nem como Grego, nem como espécie ameaçada de extinção. Os meus princípios e o meu comportamento não são, apesar de poderem ser ampliados por essa forma, metáforas. A nossa luta, a dos revolucionários, a dos comunistas, não é uma metáfora, nem uma fotografia de perfil no facebook. A nossa luta, a dos revolucionários e comunistas não é um acto simbólico, é uma marcha diária, plena de derrotas e desânimos, como assinalada pelas maiores vitórias e conquistas que a Humanidade já construiu. É por isso que os comunistas não são toda a gente ao mesmo tempo, mas são gente que luta pela Humanidade a todo o tempo. A Humanidade será vitoriosa sobre o seu passado, como até aqui tem sido.

Ser Charlie na redacção, ou ser indígena em Chiapas, gay em S. Francisco ou trabalhador explorado ou desempregado em Portugal não me habilita mais a ser consciente sobre o que me rodeia. Ter consciência do que sou e de que é aqui, no meu espaço, no meu país, que mais posso contribuir para a libertação de todos em qualquer parte do mundo, não é tão lírico, nem tão cómodo. Porque ser tudo em toda a parte não me daria tempo para ser coisa em alguma em espaço nenhum. Aqui, onde estou, comunista, é onde a luta diária me chama e convoca. É aqui e é hoje que damos o testemunho do que somos, por que lutamos, o que fazemos por um mundo melhor. É aqui e é hoje que nas acções, sem ser outra pessoa, nos libertamos daquilo que nos prende a todos.

E aquilo que nos prende a todos é o domínio de uma classe sobre outra. Se a inversão desse domínio ou até mesmo a sua extinção terminariam todas as injustiças? Talvez não. Mas será certamente o passo fundamental para que as possamos eliminar. Quando eu me sentir compelido a ser um cartoonista assassinado que não sou, posso sempre usar essa força para que ninguém seja. Se eu for o que não sou, luto onde não estou?

Porque, apesar de tudo, eu não sou. Nem tenho de ser. Tal como ante o assassinato de 38 sindicalistas ucranianos não fomos todos sindicalistas, nem ante o massacre de mais de 2 milhões de comunistas na Indonésia fomos todos comunistas.

Ainda bem que Marcos não disse: sou um czar na Revolução de Outubro, mas aquela frase dava para tudo.

33 comentários:

  1. Em 1963, em plena Guerra Fria, Kennedy afirmara « Ich bin ein Berliner » com um sentido diferente de "Em Roma, sê Romano".São os "actos" e a praxis que dão consistência, sentido e conteúdo às palavras.

    ResponderEliminar
  2. "Ou de sermos pouco. Ou de sermos menos do que podemos ser."
    Já me deixaste a pensar. Muito.
    E agradeço-te.

    ResponderEliminar
  3. E se fosses um pouquinho mais modesto? E menos precipitado nas apreciações? Essa vontade de quereres estar em palco...

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Caro anónimo,
      em que fui sobranceiro? e que apreciação foi precipitada?
      E que palco?

      Eliminar
    2. Este comentário foi removido por um administrador do blogue.

      Eliminar
  4. Muito bom texto!

    "O mesmo sistema, a mesma organização social que nos divide para nos enfraquecer, está a educar-nos para a revolta inexorável."

    A.Silva

    ResponderEliminar
  5. Miguel Tiago, eu entendo essa maneira de pensar, mas creio que o «Manifesto 74» é mais dado à investigação e ao trabalho de esclarecer grande parte dos leitores que andam a dormir.

    Por agora, eu ainda não li aqui nada sobre tropas americanas em Mariupol, na Ucrânia, a comandar os soldados da junta fascista de Kiev;

    Como também, não li nada sobre as declarações de um general israelita, chamado Galant, sobre o uso do último atentado com dois drones na Síria para benefício político nas próximas eleiçoes em Israel;

    Há muito mais para investigar e para esclarecer.


    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Obrigado por me dizer a mim, co-autor, do blog Manifesto74, para o que serve o blog, na sua opinião.

      Eliminar

    2. Forma nada arrogante de responder a quem pede que se tenha especial atenção às guerra na Ucrânia e no Levante. Eu creio que não é casual. Na Ucrânia um PC reformista desaparece da noite para a dia, incapaz de aguentar o choque das placas tectónicas do imperialismo, porque não construiu nenhuma estrutura paralela como Lénine aconselha. Pior, caucionou o fascismo ao participar nas eleições fascistas, para terminar com o maravilhoso resultado de zero deputados. Um partido bem superior em militantes ao PCP demonstrou-se um tigre de papel, ajoelhado aos fascistas. A imagem que mostra o fim de linha do revisionismo é aquela em que o SG é expulso da tribuna do parlamento por dois jagunços nazis.

      A resistência militar no leste contra os fascistas é hoje dominada pelos euroasiatistas e nacionalistas russos, e os poucos comunistas que foram combater tiveram que se submeter a eles em muitas das brigadas.

      Este é o resultado prático do reformismo. Um tigre de papel que o vento leva..

      Eliminar
  6. Este comentário foi removido por um administrador do blogue.

    ResponderEliminar
  7. Mas que vem a ser isto?

    A despropósito do texto do Miguel e a pretexto dum comentário dum anónimo sobre Cuba, Argala mete a mudança e dizendo "querer emendar a mão", parte para o desbobinar de trechos em forma de "educador" sebe-se lá de quem?

    Antes de mais nada e frontalmente: eis um modo desonesto de actuar.
    Mas infelizmente a questão não se fica por aqui.

    Há mais. Fica para depois

    De

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Este comentário foi removido por um administrador do blogue.

      Eliminar
  8. Este comentário foi removido por um administrador do blogue.

    ResponderEliminar
  9. Este comentário foi removido por um administrador do blogue.

    ResponderEliminar
  10. Este comentário foi removido por um administrador do blogue.

    ResponderEliminar
  11. Este comentário foi removido por um administrador do blogue.

    ResponderEliminar
  12. Este comentário foi removido por um administrador do blogue.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Este comentário foi removido por um administrador do blogue.

      Eliminar
    2. Este comentário foi removido por um administrador do blogue.

      Eliminar
  13. Este comentário foi removido por um administrador do blogue.

    ResponderEliminar
  14. Este comentário foi removido por um administrador do blogue.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Este comentário foi removido por um administrador do blogue.

      Eliminar
  15. Este comentário foi removido por um administrador do blogue.

    ResponderEliminar
  16. Este comentário foi removido por um administrador do blogue.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Este comentário foi removido por um administrador do blogue.

      Eliminar
    2. Miguel Tiago,

      Esqueceu-se de apagar este comentário. Não está relacionado com o post.

      Eliminar
  17. Apenas para der nota de que todos os comentários não relacionados com o post serão apagados. Muito obrigado

    ResponderEliminar
  18. Okay. Continue então a apagar comentários.

    "Assim sendo, faço então uma pausa com Lénine e passo a palavra a José Estaline, 'A Insurreição Armada e a Nossa Tática'. Uma tradução abrasileirada uma vez que a sua obra foi banida - pelas razões que todos sabemos, e motivo pelo qual deve ser lida. Estaline vai arrumar o espontaneísmo reformista, que hoje consiste em fazer atividades legais até que cheguem as "condições" - como se parte dessas condições não fossem subjetivas. Estaline vai defender que as resoluções do III Congresso não são apenas "teóricas", são práticas. A função do Partido é armar literalmente o proletariado - não é fazer proclamações acerca do direito ao armamento. Segue:

    "Para aqueles que têm o culto da "espontaneidade", que rebaixam a função do Partido a um simples acompanhamento do curso da vida, que se arrastam a reboque e não marcham à testa, como condiz com o destacamento consciente de vanguarda, não existem tais questões. A insurreição é espontânea, dizem eles, não é possível organizá-la e prepará-la; todo plano de ação elaborado previamente é uma utopia (são contrários a qualquer "plano"; plano é "consciência" e não "fenômeno espontâneo"!), é um inútil desperdício de forças; a vida social possui os seus caminhos inexplorados e reduzirá a frangalhos todos os nossos projetos. Por isso nós -dizem eles -devemos limitar-nos apenas à propaganda e à agitação da idéia da insurreição, da idéia do "auto-armamento" das massas; devemos exercer apenas a "direção política", e quanto ao povo insurreto, quem quiser que o dirija "tècnicamente".

    (...)

    A direção técnica e a preparação orgânica da insurreição em toda a Rússia constituem exatamente a nova tarefa que a vida colocou perante o proletariado. E se o nosso Partido quer ser o dirigente político efetivo da classe operária, não pode e não deve recusar-se a realizar estas novas tarefas.

    Que devemos fazer então para alcançar esse objetivo? Quais devem ser os nossos primeiros passos?

    Muitas das nossas organizações já resolveram praticamente a questão, empregando parte de suas forças e de seus meios em armar o proletariado. Nossa luta contra a autocracia entrou agora num período em que a necessidade do armamento é por todos reconhecida. Mas é certo que não basta a consciência da necessidade do armamento, é necessário apresentar ao Partido, a tarefa prática de modo claro e direto. Para isso, nossos comitês devem empenhar-se sem delongas em armar o povo localmente, em criar grupos especiais para executar esse trabalho, em organizar grupos distritais para conseguir as armas, em organizar laboratórios para a preparação de várias substâncias explosivas, em elaborar um plano de ocupação dos depósitos de armas e dos arsenais privados e estatais. Não devemos armar o povo apenas com "a ardente necessidade do auto-armamento", como nos aconselha a nova Iskra, mas devemos também "tomar as mais enérgicas medidas no sentido de armar o proletariado", segundo o compromisso que nos fez assumir o terceiro Congresso do Partido."

    Cumprimentos

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Argala:

      Já agora, bote lá este seu comentário que acabou de meter noutro artigo deste blog, a fazer queixinhas do Miguel Tiago:

      «Ora o Miguel Tiago está lá no parlamento burguês, enfiado naquele amontoado de leis e decretos-lei, a aturar aquelas enfadonhas comissões de inquérito, a ser convidado para aqueles programas de televisão onde só se pode discutir dentro do formato.. o que deve tirar qualquer comunista do sério (deve ser por isso que ele me apaga os comentários). »

      Por último, eu já sabia que escrevia fora do contexto. Porém, não sabia que era uma espécie de sopeira cá do sítio.

      Eliminar