"Mais vale pedir que roubar" por Fátima Rolo Duarte

terça-feira, 11 de novembro de 2014

O alegadamente jovem (será?) recente opinador Pedro Marques Lopes tem dos jornais uma ideia caricatural, ingénua. Imagina-os como ursos polares sentados em frágeis e diminutos blocos de gelo, ou seja, vítimas da natureza humana em forma de leitores mal intencionados, ursos condenados a uma injusta e perigosa extinção. Um país sem jornais é uma desgraça de país. Um país com maus jornais é o quê? Portugal já teve bons jornais que vendiam e disto tenho provas em papel. O Diário de Notícias, nomeadamente, vendia a sério no passado ainda recente de Mário Bettencourt Resendes, e agora? Vende 12034, para menos e não para mais. Leram bem: 12034 exemplares contando, imagino, com os que lemos nos aviões, comboios e sei lá mais por onde se espalha o DN para arredondar números.

Que remédio tem e graças aos seus fiéis leitores de hábitos, resistentes. Na maioria pessoas de idade para quem o DN se constitui em referência histórica que se mistura com a vida das pessoas. O edifício da Avenida da Liberdade, belíssimo, por sinal, o logótipo redesenhado, mas que mantém as linhas do seu passado de muitos e bons anos. O Pedro, na medida do que lhe é possível, apela para o sentido de responsabilidade dos leitores e de forma cândida culpabiliza-os afectivamente pela resistência ao pagamento da opinião online.

O Pedro é firme no seu propósito evangelizador e pretende fazer-nos crer que devemos pagar, que é um dever nosso. Curiosamente, o mesmo Pedro que se repete da TV para as páginas do DN e vice-versa esquece que os leitores não têm dever algum para com o negócio dos patrões do DN e do Pedro. Pelo contrário. Estes é que têm um dever que deveria ser sagrado para connosco, leitores. Quem é que vai pagar para ler o Pedro que se repete e saltita, obviamente pago, dali para acoli e para mais além? Que eu conheça, assim de repente, a resposta é fácil: ninguém. E este meu crer, baseado no que sei e nos números de vendas do DN (audiências incluídas) não é má vontade, mas apenas a pura, crua e dura realidade.

O DN está tramado? Está. Quem o tramou? Os patrões mais que todos, os directores sem competências e também sem meios para coisa alguma que não seja, precisamente, opinião "tipo" Pedro. Os leitores querem mais ou menos? Do que falo? De jornais que foi o lugar onde nasci e cresci. O jornal que compro às sextas é o Público porque tem o António Guerreiro, ao sábado espreito o Pereira e se me interessa lá deixo os maravedis. De resto, vou ao i de quando em vez, passo a vida a explicar isto: viro o DN e leio o FF que se lê num ápice e na diagonal. E compro o El Pais que sendo de direita moderada, um PSOE como o sabemos, é muitíssimo bem feito, tem opinião bem escrita que dá gosto ler. Nada de opinião facebook-rede-sociopata, mas textos muito bem escritos, com interesse, mesmo que estejam para lá do meu marraquexe ideológico.

A culpa dos jornais que temos não é dos leitores, nem caiam na cantiga apoucada do Pedro. É dos patrões da imprensa. Tubarões que compram influência para influenciar e despedem jornalistas como quem vai lavar mãos. Pobre Pedro, encore un effort, pois que para pensar em jornais é preciso percebê-los. Não que eu seja perita, não sou, mas o meu ADN ou até DNA fala sempre mais alto. Não pagar por uma opinião não está errado, é uma opção que deveria merecer uma atenção superlativa por parte dos directores de jornais se estes tivessem patrões que fossem mais que apenas patrões. Percebido?

* Blogger Convidado

2 comentários:

  1. Pois, o dito Pedro também foi da opinião que aquilo que a polícia de choque fez na última carga policial em São Bento foi bem feito e que até devia ter sido pior...

    Cá para mim, o dito Pedro é mais um serventuário do poder e serve à mesa dos actuais donos da comunicação social. É um mero empregado deles que serve para dizer umas coisas na televisão e escrever outras nos jornais. É o «office boy» do patrão da SIC ou o «menino» que escreve uns recados para o seu jornal.

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  2. Excelente. Só tenho pena de não saber escrever como a Fátima Rolo Duarte, pois é mesmo assim que penso. Também eu era um fiel leitor do DN enquanto foi director Mário Bettencourt Resendes, e agora não compro jornais.

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