A importância de se chamar Socialista

quinta-feira, 23 de outubro de 2014

É verdade que quando alguém se intitula alguma coisa, por princípio devemos respeitar esse título. Cada pessoa pensa como pensa e sobre isso não há discussão. Mas também é verdade que há pessoas que produzem pensamento e pensamentos com base em pressupostos historicamente e factualmente errados. Apesar de um mesmíssimo facto servir, por vezes, para corroborar teses opostas, há factos que não se prestam a interpretações tão abertas e a leituras tão maleáveis. A estas pessoas, talvez tenhamos de chamar à atenção, talvez tenhamos de lhes dizer de forma franca e aberta que elas não são o que pensam que são.

Vem isto a propósito do "pragmático, reformista e republicano" primeiro-ministro francês, Manuel Valls. Defende Valls que o Partido Socialista Francês talve tenha que mudar de nome. Deixar cair o Socialista. Aplaudo a atitude, escusamos assim de lhe bater à porta e avisá-los que já não são mesmo o que pensam que são.

Esta necessidade de clarificação resulta de um debate interno com repercussões externas e que tem vindo a ser feito dentro do partido que lidera os destinos da França. 39 deputados e deputadas do PSF abstiveram-se na votação do Orçamento do Estado apresentado há poucos dias. Este OE não reflecte as aspirações de quem, em 2012, votou em Hollande e no PSF, argumentam esses deputados e deputadas.

Este tema não é novo, é aliás dos temas mais importantes e instrumentais da política e das ideias. O que é ser socialista? Social-democrata? Comunista? Liberal? Ecologista? Conservador? Democrata-cristão? Não será uma falta de respeito intelectual que um partido se aproprie de uma ideologia através de um nome que já não corresponde às suas políticas? Continuará o nosso PSD a ser social-democrata? Que mantém de democrático, social e popular o CDS-PP? Não será esta apropriação uma violência contra os que genuínamente ainda defendem aquilo que os seus partidos já não são?

Nos últimos anos, e com uma ajuda muito forte da denominada Terceira Via, proposta por Tony Blair e secundada por muitos partidos e personalidades europeias - incluíndo o nosso PS pela mão de Guterres -, temos assistido a uma descaracterização mais acelerada dos partidos socialistas do nosso continente. Observamos uma falência/desistência ideológica em troca de um pragmatismo de poder que tem levado a uma aproximação, talvez irreversível, dos partidos socialistas à agenda liberal e capitalista. Defendem, de forma mais ou menos aberta, que é possível lutar e desenvolver um capitalismo social, humano e humanitário.

Vemos uma interessante luta ideológica na Europa e mais concretamente na União Europeia. Um dos vectores mais decisivos dessa luta passa-se mesmo no interior de cada um dos partidos socialistas europeus e do próprio Partido Socialista Europeu. Há os que pendem para o lado de Valls e que sabem que já não defendem algo que nos aproxime de uma organização social livre, igualitária e fraterna, e há os que pendem para os 39 deputados e deputadas do PSF que percebem que as pragmáticas políticas que os seus partidos defendem, traem de morte os princípios socialistas plasmados nos seus estatutos.

A implosão eleitoral de quase todos os partidos socialistas nas últimas eleições para o Parlamento Europeu é sintomática desta mutação. O seu espaço eleitoral foi ocupado por partidos liberais, conservadores e nacionalistas nuns casos, por partidos populistas que afirmando não terem ideologia política acabam por servir o capitalismo, e no melhor dos casos por partidos comunistas ou por novos partidos de ideologia socialista que vêm na participação mais activa dos cidadãos a resposta à actual crise de identidade deste campo sócio-político.

Pela sua importância histórica e por dirigir o governo de um dos maiores países europeus, esta definição interna no PSF é essencial para o futuro do continente. Os tradicionais partidos socialistas chegaram a uma encruzilhada. Já não é possível arranjar mais estratagemas de comunicação e de linguagem que mascarem o facto de terem sido eles uns dos maiores responsáveis pela vitória de uma Europa e de uma União Europeia vergada ao poder financeiro e económico. O pragmatismo de poder da Terceira Via não representou mais do que uma abdicação total e sem freio às convicções ideológicas que originaram estes partidos - uma abdicação talvez há muito desejada pelos próprios, mas isto devo ser só eu a ser sectário e pouco crente na bondade dos que afirmando-se socialistas, adoram apertar as mãos dos banqueiros e financeiros presentes nas reuniões do Clube de Bilderberg.

Renovemos a semântica e a iconografia para clarificarmos ao que anda cada um. A França parece ser um bom exemplo a seguir, país onde o Partido Comunista depois de abdicar do comunismo teve a realista coragem de abdicar da foice e do martelo no seu símbolo. Às e aos verdadeiros socialistas que ainda habitam estes partidos um pedido: arranjem maneira de ganhar a luta interna, ou então façam novos partidos, verdadeiramente socialistas, que dêem espaço aos vários Valls do continente para ficarem sem problemas nem mentiras onde gostam mais, abraçados ao capital.

5 comentários:

  1. Da mesma maneira o PCP devia colocar a questão, será que ainda faz sentido chamar-se comunista?

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  2. Parabéns pela escrita escorreita e por tudo aquilo de denso que ela convoca.
    Também por cá, mais cedo do que tarde, as vítimas do logro, hão-de tirar a pele de ovelha de cima da cabeça dos lobos.

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  3. Faz sim anónimo das 15:15, o PCP sempre disse abertamente aquilo que é e qual o seu projecto de sociedade,uma democracia avançada, a construção do socialismo e por fim a sociedade comunista.

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  4. Quem não é social ou está preso ou internado ou não conta para coisa nenhuma.
    Agora socialismo só há um, tudo o mais é capitalismo. regulado, selvático ou que quer que seja, mas capitalismo.
    E não se diga gtande e pequeno, porque sempre o é, ainda que o minmizem a micro.
    E os sobrantes que se proclamem socialistas e alinhem para uma cuidada contagem, a ver se cumprem a regra mínima de formar partido.

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  5. Um artigo oportuno, à atenção de todos quantos se consideram pessoas da Esquerda. Tanto para uma decisão pessoal sobre em quem votarem, como também sobre as alianças políticas "de esquerda" de que hoje alguns tanto nos falam - necessárias, claro, mas observando a elementar condição prévia de serem alianças entre formações políticas de esquerda, estatuto que obviamente não se aplica a este PS de Mário Soares/Vitor Constâncio/Jorge Sampaio/António Guterres/José Sócrates/José Seguro/ António Costa.

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