O trabalhador morreu

terça-feira, 5 de agosto de 2014

«Tira o chapéu, milionário, vai um enterro a passar. Foi a filha de um operário, foi a filha de um operário, que morreu a trabalhar.»

Lembro-me exactamente da primeira vez que ouvi frase, cantada entre a «gota d'água», com uma adaptação popular dos militantes comunistas. Sentada em Aveiro, na nossa Festa, olhava os camaradas cuja veia vibrava nas suas gargantas enquanto entoavam as letras que desconhecia. E imaginava um homem, de fato, com um grande chapéu, olhando os operários com as suas fardas azuis envergando um pequeno caixão.
Mas essa imagem era sempre desenhada com figurinos de um século que já não era o nosso. Talvez fosse a época pós revolução industrial, a introdução do taylorismo, o fordismo, os ritmos intensos, as imagens de Chaplin a apertar os botões da roupa dos transeuntes com as suas chaves de fendas.

Os idos do século XIX e de Chicago, a Internacional onde Clara Zetkin dava corpo às reivindicações da redução do horário de trabalho e propunha o Dia Internacional da Mulher Trabalhadora.

O livro de Joseph North em que «Nenhum homem é estrangeiro» e os comunistas americanos param e ocupam as fábricas exigindo menos horas de trabalho. Melhores condições.

O livro sobre a luta dos caixeiros de Lisboa, que ao lutar pelas 40 horas, em mais uma jornada, em frente à, hoje, Assembleia da República, são espancados, lançam-lhes os cães que desferem ataques indiscriminadamente e há um banho de sangue naquele sítio onde tantas vezes nos encontramos na luta.

Uma notícia lida hoje: chamava-se Cândido Barbosa, vivia em Lousada, tinha 41 anos e era pai de dois filhos, hoje com 19 e 11 anos. O patrão condenou-o à morte. Morreu ao sol, a trabalhar. Um empreiteiro, que não gostava de Cândido, aumentou-lhe o horário, atribuía-lhe tarefas penosas, matou-o.

Todos os dias lido com casos de assédio moral - retirada de funções, redução de salários, ameaças, agressões no local de trabalho, pressão contínua, limitação de direitos sindicais, penalização por exercício de direitos. Inequivocamente a resposta da Autoridade para as Condições do Trabalho é uma de duas: nenhuma lei foi violada/não se recolheram indícios suficientes.

Alguns desistem, perdemos-lhe o rasto. Não sabemos como estão, onde estão. Outros resistem até que a entidade patronal contorça a lei de tal forma que despede, com o patrocínio do governo que autoriza e paga o subsídio de desemprego. Muitos nunca mais encontram trabalho, outros são obrigados a voltar a casa dos pais, a adiar o casamento ou os filhos.

Às vezes leio que um trabalhador morreu em Sines, caiu numa máquina. Outras vezes leio que um operário da Brisa foi colhido por um carro. Hoje li que um trabalhador morreu exausto, ao sol.

Um trabalhador morreu. Exausto. Ao sol.

2 comentários:

  1. Obrigado Lúcia, por essa prosa enxuta, clara, solene até, que nos convoca para um limiar de consciência em que a opção entre socialismo ou barbárie é cade vez mais uma urgência inadiável.

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  2. Subscrevo o comentário do João

    De

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