O bisneto de Maisanta

terça-feira, 4 de março de 2014

As imagens repetiam-se uma e outra vez. Onde quer que ele estivesse, transbordava a terra de mulheres e homens com fome de justiça. Numa das vezes, recordo a velha que trazia consigo o incomensurável sofrimento a que toda aquela gente havia sido submetida durante décadas. E se não falo de séculos é porque felizmente ninguém é capaz de suportar a miséria mais do que aquilo que a genética nos permite. Mas eles não esquecem. Nunca esqueceram quem é que aos antepassados encheu as costas de vergastadas. Desde os espanhóis que pisaram as praias venezuelanas, há mais de quinhentos anos, aos heróis que arrastaram multidões e esmagaram a tirania, sabem-lhes os nomes na ponta da língua.

Aquela mulher levava consigo Guaicaipuro, o índio que liderou uma das primeiras revoltas contra os invasores, e resistiu durante horas ao inferno tão próprio daquelas latitudes. Ali bem perto, as tropas de Francisco Rodríguez del Toro haviam derrotado, em 1810, o exército espanhol. O homem que fora marquês e renunciara ao título para aderir às forças independentistas planeou a entrada na cidade de Coro para as nove da manhã. Os dirigentes do Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV) não tiveram a mesma amabilidade mas o gentio que se juntou num dos bairros mais pobres da capital do Estado de Falcón deu para constatar que nem as temperaturas mais agrestes fariam afastar os que sempre haviam sido marginalizados. De tal forma que os organizadores foram obrigados a retirar as grades que dividiam a multidão do palco.

O meu anfitrião era um ex-guerrilheiro que havia combatido nas montanhas da região. Ao nosso lado, com o mesmo nome que o mítico zambo que ali se insurgira em 1795, estava o filho do negro Rafael. José Leonardo Chirinos fora o filho de uma indígena livre e de um escravo africano que conduziu uma poderosa revolta constituída por negros, indígenas e mestiços e que após a derrota viu o seu corpo ser esquartejado. Mas a terra que fora regada pelo sangue dos que morreram pariu as Forças Armadas de Libertação Nacional (FALN), apoiadas pelo Partido Comunista da Venezuela, e em 1962, sob o comando de Douglas Bravo e Luben Petkoff, entre outros, surgiu nas montanhas de Falcón e Yaracuy a frente guerrilheira José Leonardo Chirinos.

Mas era o rosto daquela mulher que me fixava a atenção. Os sulcos que lhe marcavam a face pareciam trazer as batalhas de que me falava Rafael. De vez em quando, alguém rompia a calma e um rumor atravessava a massa humana que bloqueava agora toda as ruas e avenidas. Por razões de segurança ninguém podia saber quando chegava e a tensão acumulava-se a cada hora que passava. E para quem está habituado a ver a Guarda Presidencial como um elemento folclórico reservado para turistas que coleccionam fotografias do render da guarda, surpreendia-me ver os militares do corpo presidencial nos telhados não muito altos das casas cerrando punhos e saudando a população que o esperava.

E àquela que resistia nos meus pensamentos atribuía-lhe não só a gesta libertadora de Simón Bolívar como de Ezequiel Zamora. Todos conhecem o libertador de povos, o homem que abriu caminho à independência da maioria dos países da América do Sul. Mas poucos conhecem o insurrecto que incendiou o país com as ideias de terra para quem a trabalhasse. Depois da derrota do projecto de Bolívar, Zamora encheu as esperanças dos pobres e arrastou consigo entre milhares um índio guariquenho. Mas Pedro Pérez Pérez partiu para Ospino depois do assassinato de Ezequiel Zamora e deixou no ventre de Josefa Delgado a semente da revolta. O filho de ambos, Pedro Pérez Delgado, que ficou conhecido como Maisanta, tomou a bandeira do pai e levantou-se com os seus camaradas de quartel contra a ditadura do General Gómez. De armas na mão, os guerrilheiros acabaram derrotados e a semente do índio guariquenho morreu no cárcere aos 44 anos.

Tanta violência, tantas mortes e tanto sangue que, apesar de tudo, nunca abrandaram as ânsias de romper as amarras da opressão. Gerações inteiras de patriotas que deram a vida contra a conquista espanhola, contra a colonização e contra o capitalismo. Talvez fosse nisso que pensava quando um grito ensurdecedor irrompeu entre a multidão. Rebentavam foguetes por todas as partes. A maré vermelha com dezenas de milhares de mulheres e homens incendiou-se e não mais a pude ver. Ela havia desaparecido naquela indescritível tempestade humana que interrompera a descrição histórica do negro Rafael precisamente quando chegava Hugo Chávez. Então, agarrou-me com força, puxou-me para si e disse: «Bruno, te presento el bisnieto de Maisanta».

13 comentários:

  1. Empolgante, maravilhoso e enternecedor.

    Bruno obrigado.

    Fico com vontade de lhe "exigir" mais.

    ResponderEliminar
  2. Um homem extraordinário, pena que tenho morrido prematuramente, os avanços importantíssimos que têm havido na Venezuela nestes últimos anos devem-se à intransigente defesa dos interesses das populações. Continuem a luta, por Chávez e acima de tudo pelo povo venezuelano!

    ResponderEliminar
  3. Pena que tão extraordinário personagem tenha descuidado que as mercearias funcionem regularmente a preços estáveis!

    ResponderEliminar
  4. Que vida triste a sua, José...

    ResponderEliminar
  5. C'est la vie... as melhores emoções nas mercearias se quebram!

    ResponderEliminar
  6. José e as mercearias.
    Ou o vocabulário típico dum grande defensor da espécie de merceeiros que temos por cá: chamem-se soares dos santos ou belmiro.
    Que por sinal prosperam,engordam,"obesam-se" e prosperam da mais despudorada forma, no meio desta crise terrível para onde o capital nos empurra.Com o beneplácito dos outros amigos merceeiros do josé, o coelho, o portas,e tutti quanti

    Vamos a factos concretos, também por homenagem a Chavez:
    http://www.globalresearch.ca/venezuela-economic-and-social-performance-under-hugo-chavez/5326013
    Um artigo que ilustra com uma série de gráficos as mudanças económicas e sociais que tiveram lugar na Venezuela de Chavez.
    Objectivos e frios.

    Por cá temos este triste panorama,sob os uivos dos troikistas a lamberem os botas à troika, esperando que as migalhas lhes sobrem e que os seus "merceeiros" engordem na devida ordem.

    ...enquanto se tenta o golpe da ordem na Venezuela..sob as botas cardadas do império e do capital

    De

    ResponderEliminar
  7. A auto denominada contestação popular na Venezuela tem origem nisto. Noticia confirmada por o ministro da defesa Russo em 26 de Fevereiro.


    http://sp.ria.ru/Defensa/20140226/159404548.html


    Qual mercearias qual carapuça?

    ResponderEliminar
  8. HOJE às 19 horas TMG, o camarada bolivariano MADURO dá entrevista à CNN.
    É esperado o anúncio de uma nova etapa da Revolução!

    ResponderEliminar
  9. José desiste da ode aos merceeiros e envereda por outro caminho.
    Parece que agora duma forma um pouco...histérica,berra por Maduro, enquanto o trata por camarada e saliva por um anúncio..

    Completamente equivocado o José.Pensa que está ao lado do Relvas, a ser contratado por este para o "anúncio" da ordem
    Por exemplo para "vender" este duo:
    http://3.bp.blogspot.com/-Mr64HawEN9Y/UxeCV9wRHOI/AAAAAAAAcM8/ZTnCcGdwgqE/s1600/titanic+final.JPG
    ( do " o tempo das cerejas")

    Deixemos os anúncios patetas do José.Todos sabemos o que pretende.Ou não fosse ele um cúmplice fervoroso da extrema-direita que desponta por esse mundo fora.

    Aqui,este artigo de Miguel Urbano Rodrigues
    http://www.odiario.info/?p=3203

    De

    ResponderEliminar
  10. Lamento mas não posso comentar a entrevista do camarada Maduro...adormeci aos primeiros acordes!

    ResponderEliminar
  11. (Deve o José estar enganado mais uma vez.O discurso que ele ouviu,da forma sonolenta como o refere e com a sua ternura característica, era provavelmente o de Relvas, de que ele se assumira como particular e enjoativo defensor).

    Mas deixemos para lá os trejeitos de José para chutar a bola para o lado.Registemos antes o seu silêncio sepulcral quando perante números e factos concretos. Os propagandistas neoliberais têm a maior dificuldade em lidar com estes, já que a prosápia argumentativo-ideológica cai de imediato por terra.

    E falo nos propagandistas neoliberais sem ser por acaso. A escola de Friedman teve o seu balão de ensaio no Chile de Pinochet, mostrando os laços apertados entre a dita escola e o fascismo.
    Porque "os métodos usados hoje para desestabilizar a Venezuela são uma exacta reprodução do cenário chileno que levou a um sangrento massacre e à ditadura de Pinochet. "

    Daqui
    http://resistir.info/venezuela/venezuela_maidan_p.html

    De

    ResponderEliminar
  12. O Joséph Goebells está sempre muito atento aos discursos de Portas e Cia.

    E se forem documentários historicos sobre Salazar não perde um e até é capaz de estar uma noite sem colar as pestanas.

    Com que sonhas tu porco? Bolotas!

    ResponderEliminar
  13. Há um facto que não consigo compreender no que respeita ao direito à manifestação .

    Nos países ditos democraticos par se poder realizar uma manifestação requer uma série de pressupostos.

    Como por exemplo: pedido de autorização com x dias de antecedência , hora a que começa, a hora a que deve acabar, percurso e mais umas quantas formalidades.

    Se não se cumprirem essas regras a manifestação é considerada ilegal., e a policia tem autoridade para intervir para repor a "ordem".

    E porque razão nos outros países não há-de ser assim também?

    Têm que começar a adoptar essas medidas senão nunca mais dão conta da situação.

    Porque eles pagam aos arruaceiros para provocarem o caos.

    ResponderEliminar