Do sonho à ilusão, do projecto à estagnação

quarta-feira, 19 de março de 2014

O anúncio de um punhado de notáveis que assinou um documento com o nome claramente inspirado no nosso belogue colectivo, principalmente quando é uma espécie de versão desvitaminada da reivindicação do PCP que se converteu em reclamação de massas sobre a renegociação da dívida, suscitou-me alguns pensamentos. Principalmente porque há um contraste fundo entre o que dizem os comunistas e o que dizem os subscritores do dito manifesto das 70 personalidades (como veio a ser referido quase elevado a programa político) e porque esse contraste mereceu reflexo na dimensão mediática de cada fenómeno.

Se, por um lado, a renegociação da dívida dos comunistas é uma espécie de projecto inaplicável, um delírio esquerdista e radicalista, já a renegociação da dívida nos termos propostos pelos subscritores do dito texto é algo que, nas palavras dos partidos que suportam o Governo, tem vindo a ser feito com naturalidade ao longo das avaliações da troica.

É que este tal manifesto de notáveis tem uma virtude de facto, a de mostrar que falar de renegociação não é coisa própria apenas de comunistas e outros anti-democratas, mas pode ser mote de personalidades insuspeitas. Insuspeitas, claro, por competentes e livres de interesses e responsabilidades, todos eles. Não deixa de ser curioso que o PS, umas vezes de forma mais explícita outras menos, como lhe é característico, se associe às sugestões dos notáveis para renegociar a dívida. O mesmo PS que preferiu chamar a troica a aceitar a proposta de renegociação da dívida apresentada pelo PCP. Ou seja, depreende-se que para o PS, renegociar, sim claro! mas só depois de estar o país destroçado e apenas se renegociar não implicar mexer em nada. 

Aliás, tal como os notáveis, o PS tem vindo a fazer sistematicamente o mesmo número de ilusionismo político. Se o sonho, o projecto, ancorados na realidade e decifrando as suas regras e leis, são os motores da evolução e da revolução; já a ilusão é o principal instrumento de quem quer que nada mude. Todavia, perante o descontentamento crescente das massas, é preciso dar-lhes escapes para a revolta, alimentar ilusões. Que a europa resolve, que o capitalismo pode ser bonzinho, que a dívida pode ser renegociada sem tocar nos montantes, são tudo ilusões da mesma família.

Nada é mais conservador que a falsa solução. E renegociar a dívida fazendo uso dos mecanismos capitalistas que a geraram é apenas mais uma ilusão para prolongar o saque organizado a que os povos estão sujeitos. Enquanto aos povos não forem apontados sonhos e projectos de que possam apropriar-se para a sua prática, enquanto aos povos forem alimentadas ilusões inconcretizáveis, distantes das suas capacidades, longínquas dos seus centros de decisão, a revolta redundará em desespero, desesperança e estagnação. 

Se é possível construir outra Europa? É.
Se é possível construir outra Europa com esta União Europeia? não, porque então não seria esta União Europeia.

Se é possível parar de roubar e saquear povos? É.
Se é possível parar de roubar e saquear povos, mantendo o capitalismo? Não, porque então isso já não seria capitalismo.

4 comentários:

  1. Dizem neste texto que, quando o PS chamou a troica, o PCP apresentou uma proposta de renegociação/reestruturação da dívida. Não duvido da vossa afirmação mas fico surpreendido porque não me lembrava nada disso. Podem concretizar?

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  2. João

    A 5 de Abril de 2011, nas vésperas do Governo PS/Sócrates anunciar que iria recorrer à Troika, Jerónimo de Sousa, numa declaração sobre o endividamento do País apresentou as propostas do PCP: renegociação imediata da dívida pública; intervenção junto de outros países; defesa e promoção da produção nacional; diversificação das fontes de financiamento; avaliação do conjunto de situações que envolvem as chamadas Parcerias Publico Privadas.

    Deixo aqui o link para o sitio do PCP na internet, onde foi criado um Dossier na passagem dos dois anos da assinatura do Pacto de Agressão.

    http://www.pcp.pt/2-anos-depois-for%C3%A7a-da-raz%C3%A3o

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  3. Documento "inspirado" neste blogue? Parece que a "inspiração" foi avassaladora, de tal modo que já deu direito a manifesto, site, blogue e muito mais com um nome que só difere no uso da contracção entre preposição e artigo: http://www.manifesto74.com/

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