Doentes mentais

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

Na sala de espera do hospital psiquiátrico a máquina de café é o centro das atenções. Não se percebe porquê. Mas também, que raio, há muita coisa incompreensível num lugar destes. E há outras demasiado claras, por vezes tão claras que ofuscam. É como na alegoria da caverna, quando o homem saiu da escuridão não podia ver. Não quer isto dizer que aqui se vê ou se deixa de ver a luz, mas apenas que muita da insanidade pode não ser.

Uma mulher grita que há demasiada gente na sala de espera e que está farta de aguardar, que está a ficar nervosa. É louca, diz o que todos pensam. Mas apesar da gritaria ninguém lhe leva a mal, afinal aquilo é o manicómio. E aqui não há país de brandos costumes. Duas enfermeiras aproximam-se e diagnosticam: “Tomaste dois cafés, só devias ter tomado um, depois ficas assim”. Lá está! A culpa é da máquina do café. Não é da degradação do SNS, da redução do número de médicos nem do encerramento de outro hospital psiquiátrico, e também não é da ideia que doença mental não é doença, é loucura.

Talvez a mulher não seja insana, talvez a insanidade seja a dos que se mantém calados e cabisbaixos, como uma outra mulher que está ali encolhida, magra, pálida quase camuflada na parede amarela esbranquiçada, com uns olhos de medo e que parecem ter visto toda a angústia do mundo. Talvez nem essa mulher seja insana e insanos sejam os que não se apercebem que há razões para ter medo.

Há pedintes por ali, não se distinguem dos pacientes, uns dizem precisar de moedas para o café. Pode ser que sejam pacientes. Os frequentadores deste lugar são sempre uma espécie de pedintes mentais a mendigar compreensão. Essencialmente não pedem a cura, pedem que alguém entenda o que eles entendem. O fim da dor está aí, no sítio onde deixamos de estar sós na nossa visão do mundo, no nosso sentir das coisas, que é também uma maneira de compreender.

A mulher que gritou usa cores garridas, veste-se como uma… maluca. Fosse ela mais magra, mais jovem e mais segura de si e ditaria a moda.

Mas as que ditam a moda estão também ali, espalhadas em cima das mesas, ao lado de príncipes, princesas, reis, rainhas, apresentadores de televisão, outros tantos só porque são ricos e alguns que simplesmente aparecem na televisão - porque a mediocridade faz crescer audiências. Estão ali, dentro de revistas que já foram folheadas vezes sem conta. Há tempos um médico, ao ver aquele monte de papel gritou: “andamos nós a tentar curar as pessoas, a procurar que elas distingam a fantasia da realidade e depois, na sala de espera, estas porcarias!” Não veio nenhuma enfermeira censurá-lo pelos cafés que tomou. Uma funcionária retirou as revistas, mas também não lhe terão feito caso, já que as revistas reapareceram. A máquina de cilindrar mentalidades tem mais força que um médico.

O número de suicídios em Portugal tem vindo a aumentar assustadoramente, cerca de 5% cada ano (sendo um dos países onde mais aumentou na última década), o número de doenças do foro psiquiátrico também, são cerca de 23% da população, o número de casos de depressão, em concreto, terá aumentado 30% num ano (sendo o país do mundo com a segunda taxa mais elevada). Mas destes sacrificados não nos falam os governantes nem os seus acólitos. Nem estes suicídios foram cometidos voluntariamente para liquidar a dívida ao país. Nem a doença se alojou na alma, cheia de compreensão patriótica, para pagar juros. Como aliás, nenhum dos ditos sacrifícios terá sido feito de livre vontade. Não há registo de banqueiros que tenham abdicado de um quinto das suas fortunas para liquidar a dívida nacional, nem voluntária nem involuntariamente. Mas é essa a parcela das perdas dos comuns dos mortais.

Também não há registo de banqueiros que se tenham suicidado.

Há um clima pesado por ali, parece que todos pensam no que deverão dizer quando entrarem no consultório. A fronteira entre o sano e o insano será ténue. Naquele mesmo edifício um psiquiatra disse que a diferença entre o criminoso e o inocente não está na intenção mas na execução do crime. Por outro lado, num edifício ministerial, um detentor da pasta da administração interna afirmou que o terrorista mais difícil de apanhar é o que pensa no acto terrorista mas não o chega a cometer.

O ministro culpa então o inocente. O inocente não será nem criminoso nem terrorista, mas será considerado doente mental caso afirme e não faça o que pensa.

Quem perde a calma por se sentir injustiçado sem conseguir identificar o responsável e grita e esperneia, sentirá a dor da incompreensão.

Quem lê as revistas na sala de espera toma como real o mundo cor-de-rosa ali impresso e, heróis ou anti-heróis, acredita na superioridade dos que ali aparecem, procura seguir o modelo do inalcansável e frustra-se.

Quem acredita no discurso dos sacrifícios sentir-se-á perdido, já que é difícil de entender que a nossa vida não vale nada.

Quem acredita no discurso do empreendedorismo, do sucesso individual e da retoma, sentir-se-á culpado pela sua miséria.

Na sala de espera entre desejos obscuros, raiva contida, frustração e culpa, todos procuram discernir entre a causa e a consequência, e, o fio de esperança que lhes resta, leva-os a contemplar a máquina e dizerem para si próprios que não se sentem mal por excesso de café.

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